Recursos/White Papers

Tecnologia

O Blockchain, muito além dos bancos

Cada um poderá, em tese, monetizar seus próprios dados, gerando maior valor

Cezar Taurion *

Publicada em 13 de novembro de 2017 às 07h42

Blockchain é uma tecnologia que vem chamando mais e mais atenção. Sim, é uma tecnologia que ainda está no estágio de experimentações e muitos executivos ainda não perceberam seu potencial disruptivo. Mas, ignorar seu potencial pode ser muito arriscado.

Vejamos: antes de mais nada, não olhemos a tecnologia isoladamente, mas observemos que as disrupções surgem na convergência de diversas tecnologias. A convergência de suas forças disruptivas é o que criará valor real e impulsionará inovações. E, muitas vezes, podem ser tecnologias e modelos de negócio que, à primeira vista, não têm nada em comum.

Por exemplo, vamos juntar a tecnologia do Blockchain e a economia do compartilhamento. Reunindo essas duas forças podemos potencialmente criar uma ruptura nos negócios de empresas inovadoras e bilionárias como Uber e Airbnb. O sucesso dessas empresas, que são plataformas de intermediação, é devido à sua capacidade de agregar o uso dos ativos das pessoas, como locais de hospedagem e automóveis, com potenciais usuários. Na prática, essas empresas criaram plataformas digitais que aproveitam o "excesso de capacidade" e utilizam os ativos e horas disponíveis de outras pessoas para fornecer os serviços. Esse mesmo conceito se aplica as outras empresas que “uberizam” diversos setores de indústria.

Mas, e se incluirmos Blockchain no processo? Com Blockchain podemos, em princípio, contornar a plataforma intermediária e permitir a colaboração direta peer-to-peer dentro de uma estrutura de governança distribuída.

Com Blockchain, os fornecedores e consumidores de serviços compartilham um ledger digital descentralizado, sem a necessidade de uma plataforma agregadora centralizada. Ou seja, sem necessidade de um Uber ou Airbnb! Um exemplo prático de aplicação que pode substituir (ou complementar) o modelo Uber é o Arcade, que está chegando ao Brasil.

Como o valor real do Blockchain é estabelecer interações baseadas na confiança, o impacto pode ser profundo: uma plataforma centralizada, que tem como modelo de negócio ser o intermediário em uma transação de valor, está agora em risco potencial de sofrer disrupção porque o mesmo serviço pode ser fornecido por interações peer-to-peer.

O Blockchain oferece aos provedores de serviços um meio de colaboração direta, permitindo obter uma maior participação do valor dos serviços que eles prestam, sem as taxas que as plataformas agregadoras exigem de seus associados. Agentes inteligentes em um Blockchain poderiam fazer praticamente quase todos os serviços que são atualmente fornecidos pelas plataformas.

O protocolo de confiança do Blockchain permite que associações autônomas e independentes sejam formadas e controladas pelas mesmas pessoas que estão criando o valor. Todas as receitas dos serviços prestados, menos despesas gerais como campanhas de marketing e serviços jurídicos e administrativos, iriam para os próprios membros, que também controlariam a plataforma e tomariam suas próprias decisões. A confiança não será então gerada pela plataforma agregadora, mas sim através de consenso criptografado, essência do Blockchain.

Blockchain também pode mudar a forma como transacionamos commodities físicas. Por exemplo, olhemos o setor elétrico. Ele tem sido o mesmo sistema por muitas décadas, com entidades centralizadoras que controlam toda a cadeia, da geração à transmissão e distribuição. São empresas de capital intensivo, o que praticamente impede a entrada de novas empresas. Mas a chegada de novas e mais baratas tecnologias de geração de energia renováveis, como solar, permitem a criação de novos produtores, como prédios, fábricas, casas e até mesmo automóveis. Estes “prosumidores (produtores e consumidores de energia) podem competir com as distribuidoras existente pelo mercado de energia.  A tecnologia Blockchain pode ser uma alavancadora para permitir que as transações ocorram diretamente entre os interessados, sem interferência da entidade distribuidora tradicional.

Uma startup em Perth, na Austrália, a Powerledger, está testando uma solução peer-to-peer que permitirá às pessoas oferecer seu excesso de energia, gerada através de seus painéis solares, via Blockchain. A proposta é conectar diretamente os fornecedores com os consumidores sem a necessidade de intermediação pela empresa de energia. Outras experimentações já estão acontecendo, como a alemã Share&Charge, para veículos elétricos, onde você paga diretamente ao provedor do ponto de recarga, bem como vemos empresas de energia também testando o potencial de Blockchain e procurando entender como fazer parte deste novo modelo.

Uma experiência em New York, “How Blockchain Helps Brooklyn Dwellers Use Neighbors' Solar Energy”, testa essa possibilidade de parceria. Aliás, o estado de New York está promovendo competições para inovações em novos modelos de comercialização de energia, como o programa “Powering a New Generation of Community Energy”. Uma leitura no artigo “Banking Is Only The Beginning: 30 Big Industries Blockchain Could Transform” mostra o potencial de uso da tecnologia em diversos setores de indústria, muitos deles, à primeira vista, inimagináveis, como cibersegurança, registros acadêmicos, leasing de automóveis, registro de imóveis, programas de fidelização, e cadeia logística, no rastreio de produtos.

Sim, são todas experimentações, mas a tecnologia de Blockchain e o ecossistema em torno dela estão evoluindo rapidamente.

blockchain

Hoje ainda temos mais perguntas do que respostas. Como estabelecer um sistema de governança transparente para garantir a longevidade dos blocos de um Blockchain? E quanto à segurança, desempenho, custos e, mais importante, regulações necessárias?

Com este potencial de aplicabilidade, é recomendado que os executivos das organizações, de todos os setores, comecem realmente a pensar mais seriamente em Blockchain. E questionem:

1) Que aspectos da minha organização será vulnerável a desintermediação e qual a probabilidade de isso acontecer? Lembre-se que a tecnologia é potencialmente disruptiva para todos os intermediários. A probabilidade de disrupção é proporcional ao custo, à complexidade e ao grau de duplicação das transações no atual sistema de intermediação.

2) Como reimaginar meu negócio à luz do potencial de mudanças provocadas pela desintermediação e como e quando iniciar a mudança, antes que alguém a faça antes?

3) Onde poderei aplicar Blockchain como vantagem competitiva e com ele oferecer novos serviços e até novos modelos de negócio?

4) Faz sentido desenvolver iniciativas de Blockchain sozinho ou será necessário o desenvolvimento colaborativo, em larga escala? Com quem deverei colaborar e como criar esses mecanismos de colaboração?

Algumas premissas devem definir as estratégias de aplicação de Blockchain pelas organizações. Primeiro, Blockchain é muito mais sobre colaboração do que sobre competição. Implementar Blockchain sozinho dificilmente será compensador. Setores fragmentados, com desconfianças mútuas e custos altos de transação entre si são, alvos preferenciais de aplicação de Blockchain. Um exemplo: o setor de Saúde. Por outro lado, quanto maior a extensão de um Blockchain e quanto mais heterogêneos forem os seus participantes, mais complexo será o desafio de definir uma estratégia comum. Em Blockchains “consorciados”, o gerenciamento do consórcio entre membros, que atualmente competem entre si, será um fator crítico.

Segundo, e uma questão ainda em aberto, é se o futuro será dos Blockchains abertos ou dos consorciados. Mais ou menos como a discussão sobre clouds públicas e privadas. Blockchain abertos têm a vantagem da escala (mais nós, mais validação), mas os “permissioned” dispensam determinadas funcionalidades como “proof-of-work” e, portanto, têm escalabilidade melhor.

Uma terceira premissa é o papel do governo, como agente regulador. Não temos ainda posições claramente definidas em nenhum governo do mundo. Alguns são mais abertos e ágeis, enquanto outros são mais lentos e conservadores. Entretanto, como Blockchain facilita auditoria e reduz fraudes e corrupção, é provável que haja uma tendência da maioria dos governos em entender e inserir a tecnologia em seu aparato regulatório.

E, por último, a incerteza ainda predomina. Tal como acontece com outras tecnologias disruptivas, haverá vencedores e perdedores. A rede social MySpace morreu, mas o Facebook se consolidou. Se a tecnologia evoluir com sucesso e conseguir um crescimento escalável, ela tem potencial de romper normas estabelecidas e transformar a sociedade e as empresas. Grandes quantidades de dados gerados pela sociedade hoje, mas controlados por plataformas centralizadoras, podem se tornar públicas e distribuídas. Em um mundo impulsionado por Blockchain, cada um poderá, em tese, monetizar seus próprios dados, gerando maior valor.

É muito provável que a tecnologia Blockchain se torne uma tecnologia mainstream. O nível de interesse na tecnologia demonstra o seu potencial para permitir o desenvolvimento de aplicações que trarão novas abordagens para os atuais problemas de negócios. Na verdade, serão os desafios sociais, jurídicos e financeiros que essas mudanças irão provocar e não a tecnologia em si, que serão as principais barreiras a serem vencidas.

Existem muitas experimentações, muitos indicadores da aplicabilidade de Blockchain, mas ainda não temos casos de uso concretos, em larga escala. Existem diversas implementações de Blockchain, todas cercadas de dúvidas em relação ao seu futuro. Portanto, na sua estratégia não se esqueça de perguntar "Quem paga pelo Blockchain?". Sua implementação é suportada por um ecossistema estável e apto para aplicações de missão crítica? Compreender claramente os incentivos e os fatores econômicos por trás de cada opção de Blockchain pode poupar muitos problemas futuros, em relação a escolhas erradas.

Cada empresa deve definir sua estratégia. Não existe uma resposta única. Mas, ignorar o assunto Blockchain é a única estratégia que não dará certo! O tema, pela sua importância e potencial de disrupção, deve estar, obrigatóriamente, na agenda executiva dos C-level das empresas.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



Reportagens mais lidas

Acesse a comunidade da CIO

LinkedIn
A partir da comunidade no LinkedIn, a CIO promove a troca de informações entre os líderes de TI. Acesse aqui