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Tecnologia

O uso de Inteligência Artificial não é uma opção futurista

Executivos precisam descobrir o quanto antes onde a IA pode criar vantagem mais significativa e sustentável

Cezar Taurion *

Publicada em 10 de outubro de 2017 às 08h38

Estamos entrando em uma nova civilização, onde a tecnologia digital será a tecnologia dominante. E a Inteligência Artificial terá um impacto similar ao que a eletricidade nos legou. Da mesma forma que a eletricidade mudou a nossa sociedade, a nova sociedade será tão ou mais impactada pela Inteligência Artificial. 

Aqui e ali alguns exemplos já mostram claramente que a IA tem potencial de provocar rupturas em diversos mercados. No setor de propaganda, por exemplo, a Cosabella, empresa americana, substituiu sua agência por um algoritmo. Vejam em “AI And The Agency: Lingerie Brand Cosabella Replaced Its Agency With Artificial Intelligence”. 

Uma disputa para conquistar uma nova campanha da Mondelez no Japão foi ganha pelo primeiro diretor de criação baseado em IA, da McCann. A equipe que trabalhou sob as orientações do algoritmo bateu os concorrentes, formados exclusivamente por pessoas. O artigo “An Ad Agency Now Has the World’s First AI Creative Director” mostra como o projeto foi conduzido e abre uma frente de disrupção em um setor que sempre foi considerado imune aos avanços da IA. 

Outro setor, também visto como pouco provável de sofrer rupturas é o jornalismo. Mas a IA tem mostrado que pode provocar disrupções também nessa atividade. No último evento anual da ONA - Online News Association, nos EUA, a apresentação “Future of news: bracing for next wave of technology” mostrou que a IA já é, sim, uma ameaça para o futuro do jornalismo como o conhecemos hoje.

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O relatório do FTI (Future Today Institute), “2017 Tech Trends Anual Report”, que recomendo enfaticamente que seja lido com atenção, diz explicitamente: “For the first time, artificial intelligence research has advanced enough that it is now a core component of most of our trends. It is vitally important that all decision-makers within an organization familiarize themselves with what AI is, what it is not, and why it matters”. 

Pense em IA como uma camada de tecnologia que será integrada em tudo o que fazemos. A evolução tem sido exponencial e os avanços mostram que a cada o seu potencial evolutivo dobra a cada ano. Nos últimos anos vimos alguns avanços significativos como o Watson, da IBM e o AlphaGo, do Google. Esse, especificamente, ao vencer o campeão mundial de Go, mostrou o imenso potencial da IA, como podemos ver em “Why Alpha Go is a bigger game changer for Artificial Intelligence than many realize”.

O artigo nos lembra o fato que, há 20 anos, o Deep Blue venceu Kasparov, o então campeão mundial de xadrez. Fato marcante. Mas o Deep Blue não aprendeu a jogar xadrez. Apenas usava poder computacional para buscar as jogadas entre milhares de jogos já efetuados e identificar a melhor jogada para o momento. Já o AlphaGo, embora também pesquisasse milhares de jogos, usava uma rede neural, de modo que, através do auto-aprendizado, pudesse gerar milhões de pequenos ajustes, permitindo que ele chegasse a algo tão próximo da intuição quanto possível hoje. É exatamente esse fator de intuição, de reconhecer padrões e aprender sobre eles, que farão com que a IA tenha um impacto muito mais profundo na nossa sociedade.

Uma análise muito bem detalhada do status da IA nas empresas foi publicada pela McKinsey em seu relatório “Artificial Intelligence: the next digital frontier?”. O estudo mostrou que existe um imenso gap entre a percepção do potencial da IA e sua adoção.  Poucas empresas, fora do setor de tecnologia, estão adotando IA de forma intensiva.  Na pesquisa com 3.000 executivos C-level, somente 20% disseram que estão usando IA em larga escala ou que ela já faz parte do seu core business. O estudo também mostrou que as empresas que já usam intensamente IA se destacam nitidamente em comparação com as que ainda não avançaram.

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(Abra as imagens em uma nova tele para ampliar)

Por outro lado, o uso intensivo de IA demanda uma preocupação com segurança e garantia de que os algoritmos estejam adequadamente treinados e cumpram apenas o que lhes é solicitado. O uso indevido de algoritmos, aos quais estamos cada vez mais dependentes, pode trazer sérios prejuízos. Um estudo muito instigante da Deloitte, “Managing algorithmic risks: Safeguarding the use of complex algorithms and machine learning”, mostra alguns exemplos onde o uso indevido de IA provocou sérios danos. O relatório explicita que algoritmos cada vez mais complexos, muitas vezes sem a devida transparência quanto ao seu design, ou mesmo treinamento inadequado ou base de dados com viés preconceituoso, são as principais causas de erros e atos ilícitos.

A IA está se tornando rapidamente a tecnologia fundamental em áreas tão diversas como veículos autônomos e negociações financeiras. Algoritmos de IA já estão rotineiramente incorporados nas ofertas de serviços móveis e online. As implicações são profundas:

a) Como sabem falar, ler textos, e absorver e reter conhecimento enciclopédico, as máquinas podem interagir de forma intuitiva e natural, em uma variedade de tópicos, com uma profundidade considerável.

b) Como podem identificar objetos e reconhecer padrões ópticos, como rostos em fotografias, as máquinas podem deixar o mundo virtual e se juntar ao mundo real.

Sistemas de IA já conseguem diagnosticar cânceres específicos com mais precisão do que os radiologistas. Os advogados do futuro farão um trabalho muito diferente do que fazem hoje, e, portanto, terão que passar por uma educação totalmente diferente da atual.

Para as empresas, o uso de IA não é uma opção futurista, mas uma realidade que pode ser decisiva em termos de competitividade.

As empresas que buscam alcançar vantagem competitiva através da IA precisam entender as implicações de máquinas que podem aprender, conduzir interações humanas e se engajar em funções de alto nível, em escala e velocidade incomparáveis com os processos atuais. 

Elas precisam identificar o que as máquinas podem fazer melhor do que os seres humanos e vice-versa, desenvolver papéis e responsabilidades complementares para cada um e redesenhar os processos de acordo com a intensidade de aplicação da IA na organização. 

A IA vai requerer uma nova estrutura organizacional, novos processos e novos modelos mentais serão desafiadores de implementar. As empresas precisam adotar maneiras adaptativas e ágeis de trabalhar e definir estratégias comuns em sinergia com startups e aos pioneiros na área. Em resumo, os executivos, começando pelos CEOs, precisam identificar onde a IA pode criar vantagem mais significativa e sustentável.

O que isso significa? Que se você não tiver uma estratégia de IA, suas chances de sobreviver na nova sociedade estarão próximas de zero.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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