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IA não é coisa de nerd. Deve estar, o quanto antes, nas reuniões de diretoria

A revolução conduzida pela IA está chegando tão rápido que temos dificuldade em imaginar como ela se tornará

Cezar Taurion *

Publicada em 12 de setembro de 2017 às 08h33

Vivemos uma era de inovações radicais, com mudanças significativas em todos os campos de conhecimento humano. É difícil para nós, humanos, nos acostumarmos com esse ritmo de mudanças. Vivemos em um mundo linear, no qual tempo, distância e velocidade são lineares. Nossas decisões sobre o futuro são baseadas nessas percepções lineares do passado e as projetamos, também linearmente, para o futuro. Porém, a tecnologia está evoluindo exponencialmente e com isso as mudanças na sociedade, empresas e empregos também muda exponencialmente.

Das diversas tecnologias que evoluem exponencialmente, quero chamar atenção para uma que ainda não percebemos, nem de longe, o potencial de seu impacto transformador na sociedade, que é a Inteligência Artificial. Claro, ainda estamos engatinhando na IA. Tenho observado nas conversas com executivos de negócios e de TI que muitos consideram que Inteligência Artificial (IA), veículos autônomos e robôs convivendo entre nós ainda é algo futurista. Mas já está acontecendo e nem percebemos. Usamos isso cotidianamente em apps e sites de comércio eletrônico que nos sugerem o melhor caminho, que filme assistirmos e que produto teremos interesse em comprar. Muitas empresas de tecnologia estão trabalhando ativamente em tornar a IA mais e mais lugar comum. Desenvolver sistemas como chatbots está se tornando relativamente simples. O artigo “How to Make Your First Chatbot With the Help of Game of Thrones” mostra que você não precisa de um PhD para construir um bot simples. E, isso é apenas o começo da curva exponencial!

Algumas vozes de peso, como Stephen Hawking e Elon Musk, alertam contra eventuais riscos. Nessa linha, um livro instigante chamado “Superintelligence: paths, dangers, strategies” foi best-seller nos EUA. Escrevi sobre esse assunto aqui no site da CIO.

Outros pesquisadores são bem mais positivos. Mas, a frase que mais me chama atenção é a do head de IA da Singularity University, Neil Jacobstein: “"Não é a Inteligência Artificial que me preocupa, é a estupidez humana". Perfeito!

Onde poderemos chegar? Ray Kurzweil do Google afirma “Na década de 2030 poderemos inserir nanorobôs no cérebro (através de capilares) que permitirão uma imersão total dentro do nosso sistema nervoso, conectando nosso neocórtex à nuvem. Assim, expandindo nosso neocortex na nuvem, poderemos expandir  em até 10,000 vezes o poder de nossos smartphones.". Vejam esse post de Peter Diamandis, da Singularity University, abordando esse comentário.

A revolução conduzida pela IA está chegando tão rápido que temos dificuldade em imaginar como ela se tornará. O imaginário de ficção científica ainda predomina. Lembro de uma frase, de um dos filmes que me marcaram e que tenho em casa, “2001: A Space Odyssey”, onde o computador se intrometia na vida dos astronautas da tripulação : “Just what do you think you´re doing, Dave?”. De lá para cá vimos filmes de robôs como Terminator, “Eu, robô”, Ela e Jarvis, o assistente pessoal de Tony Spark em Iron Man. A propósito, Jarvis significa “Just Another Rather Very Intelligent System”. Ficção científica poderia muito bem ser definido como antecipação científica. Muito que vemos em Jarvis de alguma forma já está no nosso dia a dia.

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Jeff Hawkins, fundador da Numenta (e inventor do Palm Pilot), diz que a IA está hoje em um ponto similar ao da computação no início da década de 1950, quando os pioneiros estabeleceram as ideias básicas dos computadores. Menos de 20 anos depois, os computadores tornaram possíveis sistemas de reservas de companhias aéreas e ATMs bancários e ajudaram a NASA a colocar o homem na lua, resultados que ninguém poderia ter previsto nos anos 50. Adivinhar o impacto da IA e dos robôs em uma década ou duas está se tornando ainda mais difícil. "Daqui a vinte anos, essa tecnologia será um dos principais motores da inovação e da tecnologia, se não a principal", diz Hawkins. "Mas você quer previsões específicas? É impossível".

O fato é que as maiores empresas de tecnologia estão investindo pesado em IA e em suas interfaces. Temos o Watson, da IBM, a Alexa, da Amazon, a Siri, da Apple, e o Google Assistant. Altíssimos investimentos da Microsoft, Google e Facebook. O Google, por exemplo, nos surpreende a cada dia com seus avanços em IA. Vejam este artigo “Google’s New AI Is Better at Creating AI Than the Company’s Engineers.  O ritmo de aquisição de startups de IA por parte dessas empresas cresce signficativamente ano a a ano. O número de startps cresce continuamente. Aqui temos uma lista de 70 delas que atuam em deep learning e com alto potencial.

É indiscutível que a IA vai afetar o emprego como o conhecemos. A automação, em seu início, afetou as linhas de produção nas fábricas. Agora o risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos. Por exemplo, ser motorista de caminhão é um dos trabalhos mais comuns no mundo todo. São 3,5 milhões deles só nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um milhão registrados para o transporte de carga.  O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem motorista cruzando a Europa. O Uber pagou US $ 680 milhões para comprar Otto, uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada por especialistas de IA do Google. No ano passado um caminhão da Otto atravessou o estado americano do Colorado carregando 45 mil latinhas de Budweiser, percorrendo 190 quilômetros, a uma velocidade média de 90 quilômetros por hora. O motorista só pegou no volante nas rampas de entrada e saída da autoestrada. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas. Em talvez 15 anos, o motorista de caminhão, como o ascensorista, será um anacronismo.

Temos um imenso desafio pela frente. Em janeiro de 2016, no Fórum Mundial de Davos, seu chairman Klaus Schwab disse que uma mudança estrutural está em andamento na economia mundial, no que seria o início da Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundará elementos da Terceira Revolução, a da computação e fará uma “fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”. Esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá impactos nos modelos e formas de fazer de negócios e no mercado de trabalho. Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo”. O impacto da IA pode e deverá afetar o equlíbrio econômico e militar das nações. EUA, China e Russia já estão reconhecendo isso e atuando com intensidade para disputar a liderança em IA. Um recente discurso de Putin, na Russia, foi bem claro ao afirmar “Artificial intelligence is the future, not only for Russia but for all humankind. Whoever becomes the leader in this sphere will become the ruler of the world”. O texto pode ser visto em “For superpowers, artificial intelligence fuels new global arms race”.

O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela robotização. As mudanças não são perspectivas, mas reais. Este assunto, impactos na mudança do mercado de trabalho já vem sendo debatido, com algumas previsões apocalípticas estimando que em 10 a 15 anos cerca de metade das vagas de funções como operadores de telemarketing, corretores, carteiros, jornalistas, desenvolvedores de software e outras terão desaparecido, pelo uso de softwares e robótica encharcados de algoritmos inteligentes. Um artigo instigante, “Will robots actually take your job?”, debate esse tema.  O risco potencial é bem real. Recomendo a leitura de um estudo muito instigante, “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation? ”, que aborda o assunto, com foco nos EUA, do que podemos chamar de “desemprego tecnológico”. Recentemente o Deutsche Bank anunciou que poderá substituir pessoas por sistemas de IA, em “Deutsche Bank plans to replace a “big number” of workers with robots”.

O estudo estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão, além dos motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação, etc. Sim, até mesmo TI entra na dança. Recentemente, Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystem disse que 80% das funções de TI estarão em risco. O artigo é Venture Capital Pioneer Vinod Khosla Says AI Will Lead to Massive Job Displacement”. Esta é uma diferença significativa que a chamada Quarta Revolução Industrial está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas tarefas administrativas é que agora estão correndo o risco.

machinelearning

Diante desse cenário, não podemos ficar inertes. À medida as tecnologias de Machine Learning e Robótica avançarem, será inevitável a substituição de diversas funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimento bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs.  Este processo também está ocorrendo na China e já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais.

Talvez dentro de talvez cinco anos, a IA será melhor do que os seres humanos no diagnóstico de imagens médicas e melhor do que os assistentes legais na investigação da jurisprudência. Esse exemplo de uso de IA em medicina é bem interessante: “IBM Invests in Modernizing Medicine to Accelerate Adoption of Watson Technologies in Healthcare”.  

Chris Anderson, curador do TED e AI XPrize propõem competição onde em torno de 2020 um sistema de IA poderá subir ao palco do TED e apresentar uma palestra empolgante, que receberá aplausos entusiásticos da platéia. Isso implica em habilidades que superarão a de muitas pessoas, como capacidade de se comunicar além de vozes monotônicas, mas que gerem interessse e despertem emoção.  E, claro, tenha conteúdo. Nem todas as pessoas passariam neste teste! O primeiro passo já foi dado. Dois robôs já travam diálogo entre eles, como podemos ver em “I watched two robots chat together on stage at a tech event”. Novamente, pensando exponencialmente, é bem provável que em 2020 teremos um robô vencendo o AI Xprize!

Um artigo muito instigante e que merece ser lido é “Intelligent Automation: a new era of innovation”, publicado pela Deloitte University Press. Fica claro, pela sua leitura e inúmeros exemplos citados, que a IA não é apenas curiosidade, mas vai afetar não apenas os empregos, mas a maneira de como as empresas operam. Vai penetrar em todos os setores da economia e afetar processos e modelos organizacionais, inclusive até possibilitando a reinvenção de novos modelos de negócios. Vale a pena ler também o artigo “How Artificial Intelligence and robots will radically transform the economy”, publicado pela Newsweek.

A conclusão é simples, mas dramática. Os avanços na inteligência artificial e robótica estão impulsionando uma nova era automatização inteligente, que será um importante motor de desempenho empresarial nos próximos anos. Afeta empresas, empregos, sociedade e a economia. Vai redefinir o que é o trabalho e vai nos obrigar a redesenhar a atual formação educacional, demandando fortes ações por parte de governos e das empresas. É essencial que as corporações de todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás. IA não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar nas reuniões do CEO e do board das organizações.


(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

 

 



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