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O futuro encharcado de algoritmos inteligentes já está aí

Em um cenário de negócios cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, temos poucas certezas. Uma delas é que os softwares irão quebrar a maioria das indústrias tradicionais nos próximos 10 anos

Cezar Taurion *

Publicada em 07 de agosto de 2017 às 16h27

As transformações na sociedade estão acontecendo em ritmo muito mais acelerado do qual estávamos acostumados. Para lembrar quão acelerado está esse processo, lembremos que o telefone fixo foi criado em 1878 e demorou 75 anos para chegar a 100 milhões de usuários. O celular levou 16 anos. A Internet, sete. O WhatsApp, três anos e quatro meses. E CandyCrush, um ano e três meses.

Um exemplo desta recente dessa aceleração são os carros autônomos. Já em 2018 _  ou seja, no ano que vem _  os primeiros veículos estarão disponíveis no mercado. Por volta de 2020, a indústria automotiva como um todo vai começar a sofrer disrupção. Não vamos mais possuir um carro, mas apenas usá-lo como serviço.  Chamaremos um carro do modelo que queremos com o nosso smartphone, ele vai aparecer no local indicado e nos levar ao lugar que quisermos ir. Não vou mais precisar estacioná-lo, e só pagarei pela distância percorrida. Possuir uma carteira de motorista não vai fazer sentido. Isso vai mudar as cidades, porque vamos precisar de muitos menos carros. Poderemos transformar antigos estacionamentos em parques. Teremos menos trânsito, menos acidentes e as multas deixarão de existir. Estima-se que hoje cerca de 1,2 milhões de pessoas morrem a cada ano em acidentes de carro em todo o mundo. Temos um acidente a cada 100.000 km. Com os veículos autônomos, esse número vai cair para 1 acidente em cada 10 milhões de km e isso significa salvar um milhão de vidas por ano!

Por tudo isso, também o McDonald´s terá que se preocupar com os veículos autônomos! As seguradoras terão que repensar por completo seu modelo de seguro para veículos, porque sem acidentes o seguro vai se tornar 100x mais barato. Na prática, os seguros para automóveis irão desaparecer. Sim, a chegada dos carros autônomos vai produzir uma onda de choque em diversos setores. O artigo “24 Industries Other Than Auto That Driverless Cars Could Turn Upside Down” retrata bem este cenário.

A maioria das atuais companhias que fabricam carros provavelmente irá sair do mercado. Por uma razão simples: as companhias tradicionais, que insistem em uma abordagem evolutiva e apenas pretendem construir um carro melhor, perdem cada vez mais espaço para as empresas de tecnologia, como Tesla, Apple, Google, que adotam uma abordagem revolucionária, de fazer diferente, e constroem verdadeiros sistemas de computação sobre rodas.

Na Economia Digital a nova eletricidade será a Inteligência Artificial. O impacto da IA e da digitalização da economia será dramática nas empresas e na sociedade. Alguns estudos apontam que de 70% a 80% das funções atuais vão desaparecer ou serão drasticamente modificados nos próximos 20 anos. A consultoria McKinsey, realizou um estudo que indicou que metade dos trabalhos feitos por humanos hoje pode ser totalmente automatizada até 2055. Outra pesquisa aponta que há uma chance de 50% de que as máquinas poderão desempenhar cada tarefa melhor e mais barato do que os trabalhadores humanos dentro de 45 anos. Vale a pena ler “When Will AI Be Better Than Humans at Everything? 352 AI Experts Answer” e tirar suas próprias conclusões.

Aliás, esse fenômeno já está acontecendo. Nos EUA, advogados novatos já não conseguem emprego. Com o Watson, da IBM, podemos obter aconselhamento legal (até agora para as coisas mais ou menos básicas) em poucos segundos, com uma precisão de 90%, contra 70% quando feito por seres humanos. Portanto, se você estuda direito, repense. Precisaremos de 90% menos advogados no futuro!

Aliás, não serão apenas advogados, médicos, pilotos de avião e motoristas de veículos estarão sendo ameaçados em suas atividades profissionais por robôs encharcados de algoritmos inteligentes. Os próprios consultores que falam sobre IA também terão suas atividades sendo questionadas. Leiam “AI May Soon Replace Even the Most Elite Consultants” e vejam por que muitos terão que repensar suas carreiras!

O impacto da IA na economia é brutal. Segundo um estudo da PwC (Sizing the prize : What’s the real value of AI for your business and how can you capitalise?) a IA poderá agregar mais de 15 bilhões de dólares à economia global em 2030. Mas a IA vai além dos impactos econômicos. Um estudo chamado “Artificial Intelligence and National Security” preparado para o Departamento de Defesa dos EUA, alerta que a IA pode ser considerada tão transformadora para a posição militar de um país  como as bombas nucleares.

Diante desse cenário de transformações inevitáveis, ou entramos em desespero ou, tão ruim quanto, simplesmente ignoramos a ameaça. O medo do novo é velho. Sempre houve substituição de funções por sistemas automatizados. Nos EUA de 1800, por exemplo, cerca de 74% da população eram de fazendeiros.  Em 1900 eram apenas 31% e hoje situa-se em menos de 3%. Já vimos desaparecer funções como datilógrafos, ascensoristas e cobradores de ônibus.

O desafio que temos não é questionar se existirão empregos para tanta gente como hoje. O Fórum Econômico Mundial (The Future of Jobs) fala na criação de novas funções. O desafio é que as novas funções terão demandas de habilidades diferentes das capacitações que estamos formando hoje nas escolas e universidades . A tecnologia muda muito a maneira como estudamos. Por exemplo, a democratização dos smartphones, cujos aparelhos mais baratos já estão custando cerca de US $ 10 na África e Ásia, permitirá que mais de 70% de todos os seres humanos possuão um telefone inteligente em torno de 2020. Isso significa que todo mundo terá, potencialmente, o acesso à educação de boa qualidade, não ministrada apenas pelas escolas como conhecemos. Cada criança poderá usar novos meios, como a Khan Academy, para tudo que precisar aprender.  Não sabemos ainda como se dará o reequilíbrio de forças em um mercado tão desconhecido, uma vez que muitas das profissões do futuro ainda sequer existem.

Aqui no Brasil estamos em 84˚lugar entre 143 países no ranking de competitividade da economia digital,  liderado hoe por Cingapura e Finlândia. Duas variáveis são fundamentais para um país se inserir na nova sociedade digital: educação e conectividade. Quando o tema é habilidade em resolver problemas de matemática ou proficiência em inglês, Infelizmente aparecemos mal na foto. Precisamos urgentemente dedicar atenção à formação e profissionais com habilidades para as demandas do século 21.

futuroprofissao

Em um cenário de negócios cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, temos poucas certezas. Uma delas é que os softwares irão quebrar a maioria das indústrias tradicionais nos próximos 10 anos. A outra é que o cenário de negócios não pode ser mais limitado pelas fronteiras tradicionais de setores de indústria como conhecemos. O artigo “Starbucks Cards Now Have More Money Than Some Banks” mostra que os 12 milhões de membros do programa  de fidelidade do Starbucks acumulam mais de 1,2 bilhões de dólares em para compras futuras, o que é mais que muitos bancos americanos possuem em depósitos.  Portanto, se os executivos de bancos ficarem olhando uns para os outros, o concorrente vem de um lugar totalmente inesperado.

A transformação digital pode ser encarada como um risco. E o será, de fato, se a empresa e o país ficarem inertes. Em 2011, um estudo do Babson´s Olin Graduate School of Business previu que em dez anos 40% das empresas da lista Fortune 500 não existirão mais. Um outro estudo, da Yale, mostrou que a vida média das empresas S&P 500 decresceu de 67 anos nos anos 20 do século passado para 15 anos nos dias de hoje.  Portanto, a questão é: não existe garantia nenhuma que o sucesso alcançado, solidez de marca, base de clientes, market share e resultados financeiros positivos de hoje garantam sua sobrevivência nos próximos anos. Se a velocidade de resposta da empresa for lenta, a probabilidade de queda é grande.

Por outro lado, abre imensas oportunidades para os países e empresas que agirem rápido. Para o Brasil, se agirmos com rapidez e assertividade, pode ser a oportunidade de aproximar o país dos níveis de empreendedorismo e inovação que existe nos países mais ricos. Para as empresas, de sobreviverem e, principalmente,  de criarem um novo e mais rentável negócio. De repensarem seu propósito e de como fazem as coisas hoje.

Na prática, à medida que nos inserimos na sociedade digital fica cada vez mais patente que qualquer ideia concebida para o sucesso no século 20 está fadada ao fracasso no século 21. É apenas questão de tempo.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data. Este artigo foi publicado originalmente no CIO.com.br



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