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A Inteligência Artificial vai impulsionar uma nova era de automatização inteligente

É essencial que todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás. Não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar nas reuniões do board e do CEO

Cezar Taurion *

Publicada em 06 de dezembro de 2016 às 07h00

Fim de 2016. Começamos a ver analistas de indústria apontarem as tendências tecnológicas para 2017. Mas, tendência não é moda, fashion, como as cores do ano, onde algumas serão tradicionais como azul claro, ou estranhas, como sang-de-boeuf. Uma tendência tecnológica é mais do que isso. Aponta a evolução de algumas tecnologias, hoje em diferentes estágios. A sociedade humana é uma sociedade tecnológica. Nossa sociedade evoluiu em cima de conquistas tecnológicas, que começaram com o arado, o arco e flecha e o estribo. Evoluímos primeiro com tecnologias não cognitivas, como a caravela, o trator, o guindaste, o automóvel e o avião, e com a computação, chegamos às tecnologias cognitivas.

Quero chamar atenção para uma, que ainda não percebemos nem de longe o alto potencial transformador na sociedade: a Inteligência Artificial. Claro, ainda estamos engatinhando na IA. Algumas vozes de peso, como Stephen Hawking e Elon Musk alertam contra eventuais riscos. Nessa linha, um livro instigante, chamado “Superintelligence: paths, dangers, strategies”, foi best-seller nos EUA. Escrevi sobre esse assunto aqui. Outros pesquisadores são bem mais positivos. Mas, a frase que mais me chama atenção é a do head de IA da Singularity University, Neil Jacobstein: “"Não é a inteligência artificial que me preocupa, é a estupidez humana". Perfeito!

Onde poderemos chegar? Ray Kurzweil, do Google,  afirma que “na década de 2030 poderemos inserir nanorobôs no cérebro (através de capilares) que permitirão uma imersão total dentro do nosso sistema nervoso, conectando nosso neocórtex à nuvem. Assim, expandindo nosso neocortex na nuvem, poderemos expandir em até 10 mil vezes o poder de nossos smartphones.". Vejam esse post de Peter Diamandis, da Singularity Univsersity, abordando esse comentário.

A revolução conduzida pela AI está chegando tão rápido que ainda temos dificuldade em imaginar como ela se tornará. O imaginário de ficção científica ainda predomina. Lembro de uma frase, de um dos filmes que me marcaram e que tenho em casa, “2001: Uma odisséia no espaço”, onde o computador se intrometia na vida dos astronautas da tripulação : “Just what do you think you´re doing, Dave?”. De lá para cá vimos filmes de robôs como "Exterminador do Futuro", “Eu, robô”, "Ela e Jarvis", o assistente pessoal de Tony Spark em Iron Man. 

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A propósito, Jarvis significa “Just Another Rather Very Intelligent System”. Ficção científica poderia muito bem ser definido como antecipação "cinetífica". Muito que vemos em Jarvis de alguma forma já está no nosso dia a dia.

Jeff Hawkins, fundador da Numenta (e inventor do Palm Pilot), diz que a IA está hoje em um ponto similar ao da computação no início da década de 1950, quando os pioneiros estabeleceram as ideias básicas dos computadores. Menos de 20 anos depois, os computadores tornaram possíveis sistemas de reservas de companhias aéreas e ATMs bancários e ajudaram a NASA a colocar o homem na lua, resultados que ninguém poderia ter previsto nos anos 50. 

Adivinhar o impacto da IA e dos robôs em uma década ou duas está se tornando ainda mais difícil. "Daqui a vinte anos, essa tecnologia será um dos principais motores da inovação e da tecnologia, se não a principal", diz Hawkins. "Mas você quer previsões específicas? É impossível", completa.

O fato é que as maiores empresas de tecnologia estão investindo pesado em IA. Temos o Watson,da IBM, Alexa, da Amazon, Siri, da Apple. Altíssimos investimentos da Microsoft, Google e Facebook. Em setembro, a Salesforce adicionou funcionalidades de IA, chamada Einstein, à sua oferta de software. O ritmo de aquisição de startups de IA por parte dessas empresas cresce significativamente, ano a ano. Em julho deste ano já foram feitas 40 aquisições pelas grandes empresas de tecnologia. E o número de startps cresce continuamente. Na imagem abaixo temos uma lista de 70 delas que atuam em deep learning e com alto potencial.

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(Abra a imagem em uma nova janela para ampliar)

É indiscutível que a IA afetará o emprego como o conhecemos. A automação, em seu início, afetou as linhas de produção nas fábricas. Agora o risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos. Por exemplo, motorista de caminhão. É um dos trabalhos mais comuns no mundo todo. São 3,5 milhões deles nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um milhão registrados para o transporte de carga. O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem motorista cruzando a Europa. O Uber recentemente pagou US $ 680 milhões para comprar Otto, uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada por especialistas de IA do Google. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas. Em talvez 15 anos, ser motorista de caminhão, bem como ser um ascensorista, será um anacronismo. O Uber investiu em Otto não apenas para operar caminhões, mas porque quer operar frotas de carros autônomos. Em setembro, começou a testar essa frota em Pittsburgh. O serviço postal do Canadá quer enviar aviões não tripulados em vez de vans para entregar correio rural.

Indiscutivelmente, temos um desafio pela frente. Em janeiro de 2016, no Fórum Mundial de Davos, seu chairman, Klaus Schwab, disse que uma mudança estrutural está em andamento na economia mundial, no que seria o início da Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundaria elementos da Terceira Revolução, a da computação e faria uma “fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”. Esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá impactos nos modelos e formas de fazer de negócios e no mercado de trabalho. Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo”.

O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela robotização. As mudanças não são perspectivas, mas reais. Este assunto, impactos na mudança do mercado de trabalho, já vem sendo debatido, com algumas previsões apocalípticas estimando que em 10 a 15 anos cerca de metade das vagas de funções como operadores de telemarketing, corretores, carteiros, jornalistas, desenvolvedores de software e outras terão desaparecido, pelo uso de softwares e robótica encharcados de algoritmos inteligentes. Um artigo instigante, “Will robots actually take your job?” discute esse tema. O risco potencial é bem real. Recomendo também a leitura de um paper muito instigante, “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation? ”, que aborda o que podemos chamar de “desemprego tecnológico", com foco nos EUA. Diante desse cenário, não podemos ficar inertes.

À medida as tecnologias de machine learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de diversas funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimento bem definidos que poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente, ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela re-industrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs. Este processo também está ocorrendo na China, onde já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais.

O estudo estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão, além dos motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação, etc. Sim, até mesmo TI entra na dança. Recentemente, Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystem, sustentou no artigo é “Venture Capital Pioneer Vinod Khosla Says AI Will Lead to Massive Job Displacement” que 80% das funções de TI estarão em risco. Esta é uma diferença significativa que a chamada Quarta Revolução Industrial está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas tarefas administrativas, é que estão correndo risco, agora.

Talvez, emcinco anos, a IA seja melhor do que os seres humanos no diagnóstico de imagens médicas e melhor do que os assistentes legais na investigação da jurisprudência. O exemplo de uso de IA em medicina citado no artigo “IBM Invests in Modernizing Medicine to Accelerate Adoption of Watson Technologies in Healthcare” é bem interessante. Chris Anderson, curador do TED e do AI XPrize, propõem competições onde em torno de 2020 um sistema de AI poderá subir ao palco do TED e apresentar uma palestra empolgante, que receberá aplausos entusiásticos da platéia. Isso implica em habilidades que superarão a de muitas pessoas, como capacidade de se comunicar além de vozes monotônicas, mas que gerem interessse e despertem emoção. E, claro, tenham conteúdo. Nem todas as pessoas passariam neste teste! 

Os sistemas de IA já reconhecem pessoas em fotografias com precisão maior que os seres humanos. Um artigo muito instigante e que merece ser lido é “Intelligent Automation: a new era of innovation”, publicado pela Deloitte University Press. Fica claro, pela sua leitura e inúmeros exemplos citados, que a IA não é apenas curiosidade, e vai afetar não apenas os empregos, mas a maneira de como as empresas operam. Vai penetrar em todos os setores da economia e afetar processos e modelos organizacionais, inclusive até possibilitando a reinvenção de novos modelos de negócios. Vale a pena ler também o artigo “How Artificial Intelligence and robots will radically transform the economy”, publicado pela Newsweek.

A conclusão é simples, mas dramática. Os avanços na inteligência artificial e robótica estão impulsionando uma nova era automatização inteligente, que será um importante motor de desempenho empresarial nos próximos anos. Muda a economia e a sociedade,  afetando empresas e empregos. Obriga a revisão da atual formação educacional, e demanda fortes ações por parte de governos e corporações. É essencial que todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás. IA não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar nas reuniões do board e do CEO.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures  e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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