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Tecnologia

Estamos no início de um incrível capítulo na história de fazer coisas

No futuro da manufatura, o designer será o grande maestro fabril e os algoritmos desenharão as coisas que serão percebidas via VR e fabricadas em impressoras 3D

Carla Matsu *

Publicada em 23 de novembro de 2016 às 17h29

É em Las Vegas, a desértica cidade do estado de Nevada (EUA), que a empresa de software de design Autodesk abre as portas uma vez ao ano para falar sobre o futuro da manufatura, arquitetura, design e construção, em evento que acolhe gente do mundo inteiro, entre executivos e profissionais da indústria, educadores, estudantes e jornalistas.

A cidade escolhida para sediar a maior edição do Autodesk University ─ a companhia conta com filiais menores do evento em outras capitais ─  soa como uma espécie de laboratório perene de qualquer empresa de tecnologia. Afinal, a icônica capital dos cassinos e dos complexos hoteleiros é cartão postal de inclinar a cabeça para atentar-se às luzes e aos telões, máquinas de sorte (ou azar) e fontes dançantes ao som de um repertório composto majoritariamente por um saudoso Frank Sinatra. Há tecnologia em todos os pormenores da cidade. Logo, não soa tão arbitrário ou questão meramente econômica e logística quando empresas como a Autodesk elegem Las Vegas para anunciar o que haverá no horizonte da tecnologia.

Nas dependências do Hotel Palazzo, em um pavilhão aberto com o sugestivo título “The Future of Making Things”, a companhia revelou na última semana projetos que poderiam soar, à primeira vista, caricaturas hollywoodianas de ficção científica não estivessem ao alcance das mãos: chassis de carros feitos com impressoras 3D, móveis desenhados por algoritmos, gigantescos braços robóticos imprimindo peças delicadas e versões de fábricas em realidade virtual.

“Eu tenho que confessar que algumas vezes quando eu escuto certas coisas sendo ditas nesse palco, soa como ficção científica”, pontuou Carl Bass, CEO da companhia, no keynote que abriu a Autodesk University. “Por mais maluco que essas coisas pareçam, eu vejo alguns anos depois que muitos de vocês estão de fato fazendo coisas que nós estávamos apenas especulando.”

Algoritmos estão desenhando coisas
A Autodesk fez seu nome na indústria de software com o AutoCAD, que permite que engenheiros, arquitetos e designers criem versões digitais e tridimensionais de seus projetos antes de construí-los ou fabricá-los. Desde sua fundação em 1982, a empresa de San Rafael, na Califórnia, evoluiu e capilarizou sua vocação no mercado, tendo lançado tecnologias que também atendem a indústria de entretenimento e games.

Agora, a companhia se prepara para lançar no início de 2017 um software que cria designs para produtos. Batizada de Dreamcatcher, a solução se pauta no design generativo para otimizar tempo e custos de produção, entregando o grosso do trabalho a algoritmos para criar coisas como uma cadeira, um carro e até mesmo um escritório “pensado” para funcionários.

“Computadores estão indo a escolas de arte, um deles estudou Rembrandt e depois pintou um completamente novo”, citou Jeff Kowalski, CTO da Autodesk, ao lembrar de um projeto da agência de publicidade J Walter Thompson apresentado neste ano e que usou mais de 160 mil fragmentos do trabalho do holandês para ensinar a um computador como pintar como o próprio artista.

“Estamos trazendo esse tipo de tecnologia para o mundo 3D. Estamos alimentando nossos algoritmos com dados para que eles possam pegar a essência dos designs nos quais trabalhamos todos os dias e com esse novo entendimento, o software pode pegar um objeto genérico, uma cadeira, por exemplo, e aplicar a ela um estilo específico, torná-la mais cúbica, mais Philippe Stark, mais Corbusier”, explicou Kowalski para um público atento.

Em resumo, o usuário dá ao Dreamcatcher uma série de parâmetros para, no final, ser apresentado com inúmeras possibilidades para um mesmo produto. Um dos projetos exemplares é a Elbo Chair, uma cadeira cocriada por Arthur Harsuvanakit e Brittany Presten do Laboratório de Design Generativo da Autodesk. E quando digo “cocriada”, o essencial aqui é dizer que o design foi resultado de uma colaboração entre o software e seus designers.

Harsuvanakit e Presten alimentaram o Dreamcatcher com modelos 3D de cadeiras que seriam referência para o projeto. Depois, eles estipularam o quanto de peso o móvel deveria suportar e qual altura deveria ter. Com essas informações, o Dreamcatcher começou a trabalhar. O software apresentou, então, centenas de designs, otimizando-os a medida do processo, ou seja, designs mais leves, com menor necessidade de matéria-prima e estruturas mais estáveis e elegantes.

Além da Elbo Chair, o Dreamcatcher foi usado em outros projetos, alguns deles com parceiros que a Autodesk mantém como confidenciais. Outro exemplo já divulgado e que se encontrava exposto no pavilhão “The Future of Making Things” é o Hack Rod, carro esportivo produzido pela startup de mesmo nome, em parceria com a Autodesk e Nvidia. A startup recorreu ao Dreamcatcher para criar designs de chassis aplicando testes de aerodinâmica. O software replicou sensores que dariam feedback em como o design deveria “performar” sob pressão, rodando testes drives totalmente digitais.

“A velocidade com a qual você toma decisões sobre o seu produto final é incomparável e quando você começa a adicionar machine learning é como se você tivesse mil engenheiros trabalhando para você para resolver problemas em uma fração de tempo que você costumaria levar. É a democratização da manufatura”, definiu Mike McCoy, fundador da Hack Rod, em comunicado a imprensa.

VR: você mais conectado com seus dados
A realidade virtual tem encontrado sua vocação mais óbvia no mercado de games e entretenimento. No entanto, é na indústria que a tecnologia parece agregar maior valor não só para o fabricante como o cliente final. A Autodesk também entra no coro de gigantes como Google e Microsoft ao defender que a realidade virtual e aumentada eventualmente terá um lugar cativo, especialmente, nos negócios. Para uma empresa de software, afinal, permitir aos seus clientes projetarem em realidade virtual soa como ambição inevitável.

Durante a Autodesk University, a companhia anunciou que sua plataforma Forge, lançada no final do ano passado e que serve para desenvolvimento de aplicativos e serviços em nuvem, agora acrescenta suporte para visualização em realidade virtual e aumentada no Forge 3D em sua versão mobile e para browser.

Jeff Kowalski indica que o último passo é desenhar em realidade virtual, um feito que segundo o CTO, mudará radicalmente a “experiência criativa”. “E nós estamos trabalhando em ferramentas que permitem modelar e simular em VR desde o início”, adiantou o executivo.

“Quando você está na realidade virtual, você está mais conectado com seus dados. É mais detalhado, mais emocionante e mais significativo. Você consegue ver seus dados em escala humana. Se você está desenhando uma cadeira, você interage com ela em tamanho real. Se você está projetando um edifício, você interage de forma que seus ocupantes o farão quando ele estiver construído. É sobre explorar, sentir e ver. Interagir a medida que você trabalha será uma experiência radicalmente criativa”, resumiu Kowalski.

No pavilhão da Autodesk, eu tive a oportunidade de experimentar óculos de realidade virtual para “visitar” uma fábrica digital. Esteiras e braços robóticos operavam incessantes ao meu lado, e até mesmo a sensação de subir em um elevador soou bem real. Segundo um representante da companhia, a ideia é permitir que um cliente possa elaborar, no futuro, todo um projeto de fábrica ou um prédio, por exemplo, em sua versão para óculos como o HTC Five, uma experiência que permite prever em detalhes como será a planta em escala real, algo que previne frustrações e, claro, otimiza custos.

Divulgação do MICROSOFT HOLOLENS

A realidade virtual também será especialmente útil para o futuro da colaboração. Ou seja, colegas que trabalham em escritórios distantes poderão colaborar em uma escala geográfica menor caso estejam habilitados com óculos de VR.

De próteses a pontes impressas
Falar sobre o futuro da manufatura passa inevitavelmente pela impressão 3D. Mas deixe de lado a concepção de impressoras que cabem em escritórios ou podem ocupar espaço na sua mesa. Projetos que envolvam design generativo e inteligência artificial encontram seu destino em impressoras 3D industriais.

“A medida que o design generativo nos dá novas formas, nós precisamos de novos caminhos para tornar as coisas reais”, pontuou Kowalski.

A startup holandesa MX3D criou robôs que serão usados para imprimir uma ponte de metal em tamanho real em Amsterdã, cidade conhecida por seus diversos canais. O método, que recorre ao software de design generativo da Autodesk, permitirá que a ponte seja construída parte por parte. Se concretizada a prazo, em 2017, será a primeira ponte de metal feita por uma impressora 3D.

A impressão 3D também tem sido aplicada para fins médicos e de acessibilidade. A ciclista alemã e medalhista paraolímpica Denise Schindler se tornou a primeira a participar de uma competição mundial com uma prótese inteiramente feita em impressão 3D. Produzida pelo time da Autodesk, a prótese de policarbonato levou apenas 48 horas para ser concluída e com a grande diferença de ter sido feita sob medida para Denise.

O futuro do trabalho
Não é de hoje que o homem é substituído por máquinas, mas a medida que a inteligência artificial começa a superar humanos em suas habilidades cognitivas, pesquisadores e especialistas da área alertam para um futuro sem muito eufemismos. Recentemente, o empresário por trás da SpaceX e Tesla Motors, Elon Musk, sugeriu que governos terão de assumir responsabilidade pela renda de suas nações no futuro, tendo em vista que robôs assumirão todos os empregos. Iniciativas como o Open AI, lançada no ano passado, também visam pautar a tecnologia para evitar as chances de catástrofes sugeridas com efeitos especiais pelo cinema.

Para Mike Haley, diretor de Machine Intelligence da Autodesk, companhias precisarão se adequar a essa nova realidade e, talvez, uma das saídas seria oficializar a criação de um departamento de ética, da mesma forma que o departamento de recursos humanos foi institucionalizado há algumas décadas. “Esse é um grande momento para discutir ética. A questão será tornar todas as decisões mais abertas possíveis para que haja transparência”, prevê Haley.

Francesco Iorio, diretor de Pesquisa em Ciência Computacional na Autodesk Research, defende o lado lógico do sistema Dreamcatcher para acelerar processos produtivos, mas ressalta que questões subjetivas ficam a cargo da mente humana. "Não há como explicar ao computador o que é beleza. Fica ao designer a decisão de escolher o que é esteticamente prazeroso. Pensamos na tecnologia como o aumento das capacidades do designer ao invés de sua substituição”, explica.

Em entrevista ao Computerworld Brasil, Diego Tamburini, Manufacturing Strategic Industry, defende um futuro otimista onde a automação estará a serviço do homem. “A automação não só melhora a qualidade do trabalho, como reduz riscos, particularmente em fábricas onde funções são repetitivas e perigosas. Claro que causará uma ruptura, não quero minimizar isso, as pessoas vão perder seus empregos. Mas acredito que será temporário, e mais do que uma redução de empregos, acredito que será uma substituição, você criará novas posições”, refletiu Tamburini.

Trata-se de desenvolver novas habilidades para atender demandas futuras no mercado de trabalho, segundo o executivo. “O inimigo não é a automação, o inimigo aqui é a educação, o treinamento, a requalificação mais rápida de pessoas. Ao invés de lutarmos contra a automação, deveríamos pensar em como vamos nos requalificar. Gosto de citar sempre uma frase: um robô não irá tomar o seu emprego, mas alguém que sabe programá-lo”, conclui.

Jeff Kowalski endossa o time que vê a ascensão da inteligência artificial não como uma ameaça, mas como uma espécie de "superpoder", uma ampliação dos talentos humanos. "A real ameaça é qualquer concorrente que adota essas soluções mais rápido que você", alertou.

“Estamos vivendo os momentos iniciais de um incrível novo capítulo na história de fazer as coisas, e a Autodesk University é o lugar para explorar uma questão crítica - que papel você vai desempenhar no futuro da criação das coisas?”, questionou Kowalski.

(*) A jornalista viajou a Las Vegas a convite da Autodesk.



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