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Opinião

Novas considerações sobre o futuro do trabalho na era da IA

O tema é intensamente debatido e não se tem respostas definitivas

Cesar Taurion *

Publicada em 04 de novembro de 2018 às 22h01

Não temos ideia de como será o mercado de trabalho em 2050, mas sabemos que a Inteligência Artificial e a robótica vão mudar quase todas as modalidades de trabalho atuais, transformando as carreiras e as profissões como as conhecemos hoje.

Recentemente li dois livros muito instigantes, que abordam com mais profundidade o tema, e que recomendo enfaticamente a leitura. O primeiro é “21 Lições Para o Século 21”, de Yuval Noah Harari, e o segundo, “AI Super-Powers: China, Silicon Valley and the New World Order”, de Kai-Fu Lee. Eles complementam outras leituras, como “The Future of the Professions”, de Richard e Daniel Susskind.

O grande salto da IA são os algoritmos de “Deep Learning”, que nos levam à cognição do mundo físico, dotando sensores e dispositivos de “inteligência”, criando coisas autônomas, consequentemente. Este processo cria o chamado OMO (online-merge-offline) que é um passo à frente do O2O (online-to-offline) de hoje, integrando por completo os mundos online e offline. Coisas autônomas, como carros, convergindo com as ondas de eletrificação e economia do compartilhar, mudarão por completo toda a cadeia do que conhecemos hoje por indústria automotiva. Para ter uma ideia desta revolução, leia “33 Industries Other Than Auto That Driverless Cars Could Turn Upside Down”. Ele mostra que a mudança não afetará somente o setor em si, incluindo as próprias montadoras, as escolas de direção, as seguradoras e os estacionamentos, mas também isetores indiretos, como os de fast food e de planejamento urbano.

A IA abre grandes oportunidades. Um estudo da PwC ("Sizing the prize- PwC’s Global Artificial Intelligence Study: Exploiting the AI Revolution") estima que a contribuição potencial da IA para a economia global será de US$15,7 trilhões em 2030. Ganhos capturados principalmente por EUA e China. Os países em desenvolvimento, como o Brasil terão ganhos bem menores, pelo seu ritmo mais lento de adoção de IA. Mas, a IA também abre as portas para uma crise em potencial: o aumento da desigualdade econômica entre os países e a perda de empregos. A produtividade gerada pela IA será muitas vezes causada pela eliminação ou redução de atividades hoje realizadas pelos humanos. Um caminhão autônomo não precisará de um motorista. Um algoritmo que analise um exame radiológico com enorme precisão dispensará a necessidade de um radiologista. 

Quando máquinas inteligentes substituírem atividades econômicas exercidas por países que se desenvolvem às custas de trabalho de baixo valor, como Sri Lanka, isso matará as chances destes países evoluírem. Na verdade, estaremos criando um cenário que diferencia os que têm IA e os que não têm IA. O gap aumentará exponencialmente, já que a evolução da IA depende de dados e do aprendizado dos algoritmos. Quanto mais dados um país tiver (mais digital ele for), mais os algoritmos a seu dispor aprenderão, gerando um círculo virtuoso que aumentará indefinidamente.

IA

O tema é intensamente debatido e não se tem respostas definitivas. Chegar a elas segue sendo uma tarefa difícil e complexa. Existe a corrente otimista que acredita que, como a sociedade humana já passou por revoluções antes, como a Industrial, e no longo prazo gerou mais trabalho que antes, o fenômeno se repetirá naturalmente. Na Revolução Industrial, empregos foram destruídos no curto prazo, mas outros surgiram em maior número ao longo do tempo. Os cocheiros perderam seus empregos, mas hoje existem milhões de motoristas. Existe uma corrente mais pessimista, que aponta que já há evidência de uma crise social, que será inevitável, a menos que a sociedade atue com seriedade e urgência para mitigar seus efeitos.

Alguns estudos são mais alarmistas que outros. O estudo “The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerisation”, da Oxford University, apontou em 2013 que 47% dos trabalhos nos EUA poderiam ser automatizados em uma ou duas décadas.  Por outro lado, a OECD (Organization for Economic Cooperation and Development) produziu um estudo alternativo que apontava que apenas 9% dos trabalhos estavam sob risco de desaparecerem pela automatização. “The Risk of Automation for Jobs in OECD Countries” usou um método diferente. Ao contrário do estudo da Oxford, baseado na opinião de pesquisadores em IA, o da OECD preferiu olhar para diferentes micro atividades e o potencial de automatização de cada uma delas.  

Posteriormente, a PwC gerou um estudo (“Will robots really steal our jobs? An international analysis of the potential long term impact of automation”) que elevava novamente a quantidade de funções em risco de automação nos EUA para 38% até 2030. A PwC enfatiza que este número é potencial, podendo ser alterado pela dinâmica social, regulatória e legal, variáveis, que influenciam o ritmo de adoção da IA e seu impacto em eventual substituição de humanos. 

A McKinsey, por sua vez, publicou o estudo “Jobs lost, jobs gained: What the future of work will mean for jobs, skills, and wages”, que resultou em uma posição mais otimista, em que 30% das atividades humanas poderiam ser automatizadas, mas apenas 14% dos trabalhadores necessitariam ser realocados. Já outro estudo, da Bain & Company (“Labor 2030: The Collision of Demographics, Automation and Inequality”), optou por uma abordagem diferenciada. Partiu do pressuposto que a IA também poderia afetar o emprego pela destruição de determinado setor de indústria.  O estudo focou na convergência de três fatores importantes que atuam na economia global, a demografia, a automação e a desigualdade. A conclusão é que em torno de 2025-2030, nos EUA, as empresas precisarão de menos 20-25% de empregados, o que significa um deslocamento de uma força de trabalho de 30 a 40 milhões de pessoas. Uma projeção mundial nos leva a um número muito maior.

O livro “The Second Machine Age”, de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, aponta que tecnologias como a IA “interrupt and accelerate the normal march of economic progress”. Compara a IA com as tecnologias da máquina a vapor e da eletricidade. Estas tecnologias moldaram a nossa atual sociedade. Elas destruíram empregos, mas permitiram a criação de inúmeros outras profissões, que empregaram bilhões de pessoas. Acontece que com a IA talvez seja diferente. As outras tecnologias eram basicamente hardware. Caldeiras e motores elétricos precisavam ser projetados, prototipados, fabricados, distribuídos e entregues aos seus usuários. Isto, naturalmente, gera um atrito que faz com que sua disseminação seja razoavelmente lenta. Possibilita que uma economia consiga reagir à perda de empregos, criando outros. Por outro lado, a IA é formada basicamente por dados e algoritmos que podem ser continuamente replicados sem custos adicionais. Sua otimização se dá pelo próprio uso dos algoritmos, que aprendem a cada interação.

O livro de Kai-Fu Lee mostra um quadro interessante (reproduzido abaixo), onde o autor analisa o risco de substituição tanto para trabalhos cognitivos quanto para físicos.

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As funções no quadrante chamado “danger zone” estão correndo sério risco serem executadas por máquinas. “Safe zone” são as atividades que provavelmente não serão ameaçadas, mas não significa que a IA não estará atuando lá. Será um trabalho cooperativo, humanos e máquinas. Os demais quadrantes serão afetados à medida que a IA evoluir e setores industriais começarem a ser transformados. Muitos trabalhos poderão ser realizados por máquinas, mas o aspecto social fará com que os humanos predominem.

Qual será o papel da IA na sociedade? Os robôs substituirão pessoas? As pessoas que executam tarefas repetitivas verão estas tarefas serem substituídas por robôs. Mas, o mais provável é que a IA venha a aumentar o desempenho humano, automatizando certas partes de uma tarefa, permitindo que os indivíduos se concentrem em aspectos mais "humanos", que exijam habilidades empáticas, sociais e muita inteligência emocional.

No futuro próximo, trabalhadores e máquinas trabalharão em conjunto, cada um complementando os esforços do outro. As organizações de RH terão que desenvolver novas estratégias e ferramentas para recrutar, gerenciar e formar uma força de trabalho híbrida, humano+máquina. É uma mudança significativa nas formas de como RH seleciona, contrata e avalia profissionais. Demanda uma redefinição das funções atuais e a acomodação de novas funções, que nem existem hoje no vocabulário de RH.

Dado a forma como os modelos de trabalho tradicionais, definições de carreira e o setor de RH estão arraigados, a reengenharia do trabalho em torno da IA é e seguirá sendo um grande desafio, que demandará novas formas de pensar sobre empregos, cultura empresarial, tecnologia e, o mais importante, pessoas.

Mas é absolutamente essencial termos o senso de urgência com relação a estas questões. O Brasil não está em outro planeta. Se não tivermos estudos e ações concretas, poderemos sofrer, em breve, uma crise de grandes dimensões. Nós devemos controlar a IA e criar os mecanismos que nos permitam usufruir de seus benefícios, mitigando seus riscos.

Devemos ter em mente que os computadores não substituirão os humanos. Substituirão funções. Serão complementos para os humanos e não seus substitutos. 

Os negócios mais valiosos do mundo das próximas décadas serão desenvolvidos por empresas que usarão a IA para fortalecer as pessoas e não para torná-las obsoletas. Serão vencedoras as empresas que souberem fazer com maestria com que os sistemas de IA ajudem os humanos a realizar o que antes era considerado inimaginável. 

A IA não envolve uma equação de soma zero, humanos versus IA, mas de complementaridade, humanos mais IA gerando mais inteligência.



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