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Opinião

Como desenhar uma estratégia de Inteligência Artificial?

Para começar, considerando três pilares: o nível de conhecimento e conceituação do potencial da IA; as capacidades (talentos) disponíveis; e a cultura da organização

Cezar Taurion *

Publicada em 09 de outubro de 2018 às 11h51

A Inteligência Artificial é um dos tópicos mais quentes dos últimos anos. No meu entender vai provocar impactos tão significativos na sociedade quanto a luz elétrica. Mas, na maioria das empresas, ainda vemos muito mais espuma do que ações concretas. Na verdade, vejo muitas ações isoladas, sem uma estratégia de IA bem definida.

Aliás, muitos dos desafios potenciais gerados pela IA ainda são vistos como futuro, e, portanto, sem senso de urgência. Um deles é o impacto nas profissões, nas organizações e nas próprias relações entre empresas e seus funcionários.  

Um estudo da McKinsey, “Where machines could replace humans—and where they can’t (yet)”, mostra claramente que todas as profissões serão afetadas, em maior ou menor grau, pela robotização e o uso da IA. Sua leitura nos faz entender quais são as atividades mais suscetíveis à automação, e, com isso, proporciona a oportunidade de repensar as formas de envolvimento  dos funcionários com seus trabalhos e como as plataformas de trabalho digitais baseadas em IA poderão conectar melhor indivíduos, equipes e projetos. Também faz com que os altos executivos, cujas atividades não estarão imunes à influência da IA, pensem sobre quantas de suas próprias atividades poderiam ser executadas por máquinas, de forma melhor e mais eficiente,  liberando parte de seu tempo para focar nas suas principais competências, que nenhum robô ou algoritmo pode substituir, pelo menos por enquanto. 

O curioso é que a maioria dos executivos tem alguma percepção dos impactos da IA, mas pouco tem feito até agora. Uma pesquisa da Genpact e da Fortune Knowledge Group, “Is your Business AI-Ready?”, ouvindo 300 executivos de nível senior, mostrou que 96% deles acreditam que a IA transformará suas organizações e a força de trabalho, 82% pretendem implementar projetos de IA nos próximos três anos,  mas apenas 38% estão realizando ações de requalificação de seus funcionários. 

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A IA tem potencial disruptivo muito grande e, portanto, ter uma estratégia, é essencial para enfrentar os desafios que já aí. Mas, como desenhar uma estratégia de IA? 

 De um modo geral, a IA já utiliza capacidades, como conhecimento, percepção, julgamento e os meios para realizar tarefas específicas, que eram de domínio exclusivo dos seres humanos. A pergunta que fazemos a nós mesmos é onde e como aplicá-las? Devemos usá-las para criar novos produtos ou ofertas? Para aumentar o desempenho dos seus produtos? Para otimizar as operações internas dos negócios? Para melhorar os processos do cliente? Para reduzir o número de funcionários? Para liberar os funcionários para serem mais criativos? 

As respostas virão de nossa estratégia para aplicação de IA. Não existe resposta única, pois cada organização tem sua própria estratégia e ritmo de adoção. De qualquer maneira, três pilares devem fundamentar o desenho da estratégia: o nível de conhecimento e conceituação do potencial de IA; a capacidade (talentos) disponíveis para implementar os conceitos; e a cultura da organização e sua aderência ou não a inovações e experimentações.

Aqui no Brasil,  muito poucas empresas dominam realmente os conceitos mais avançados de IA, como algoritmos de Deep learning, tipo “reinforcement algorithms”. Nesse caso, o aprendizado deverá ser feito em conjunto com expertise externa, muitas vezes com auxílio de plataformas de tecnologias cognitivas embarcadas em soluções de fornecedores como IBM, Amazon, Google e Microsoft.  

Tenha em mente, no entanto, que soluções mágicas, como ter IA funcionando 100% na empresa com um simples “plug & play”, não existem. Isso é conversa de vendedor! Todas as plataformas precisarão de integração com sistemas e processos de produção. E de dados de qualidade em volume adequado. Uma plataforma de IA é o motor, mas sem combustível (dados) não irá funcionar. Ao escolher uma plataforma, o critério mais importante deve ser se ela realmente vai ajudar a resolver os tipos de problemas que você deseja endereçar no curto prazo.

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Um recurso escasso em IA hoje são profissionais gabaritados. IA é estratégica e ter o domínio de seus conceitos é essencial. As empresas precisam ter profissionais com profundo conhecimento de tecnologias cognitivas: sem essa expertise in house, as estratégias cognitivas da organização serão ancoradas em conhecimento de terceiros. Esses profissionais devem estar familiarizados com os principais tipos de tecnologias cognitivas, como elas podem ser aplicadas e como podem ser integradas com outras tecnologias. Também devem ser capazes de se comunicar com os demais executivos em termos não técnicos, e estar familiarizados com as principais questões do negócio e seu direcionamento estratégico. Claro, não teremos tudo isso em uma só pessoa. Teremos uma equipe de IA, intra e interdisciplinar.  

Mas formar talentos em IA não é rápido e nem simples. Infelizmente, temos pouca disponibilidade de “machine learning engineers” ou “data scientists”. Algumas poucas iniciativas na academia, ou fora dela (como a do i2a2 - Instituto de Inteligência Artificial Aplicada), começam a formar talentos. 

Infelizmente a maioria dos cursos de Ciência de Computação não tem ementa atualizada e não prepara profissionais para o mundo da IA de forma adequada, pois ainda estão formando gente exclusivamente para a computação programática. Muitas das atividades realizadas hoje por profissionais de TI serão profundamente modificadas com IA e a academia não está contemplando estas mudanças. Por exemplo, a atividade de sysadmin (Will Automation Wipe Out Sysadmin and Datacenter Jobs?) será transformada. O sysadmin não vai gerenciar o data center, mas trabalhar em conjunto com os algoritmos que irão fazer isso.

Para acelerar o processo, pode-se começar com auxilio externo, com consultorias que já possuam profissionais treinados no uso de sistemas cognitivos. Essa abordagem só funciona se o fornecedor da plataforma, ou a empresa de consultoria, tiver realmente pessoas suficientemente bem treinadas. Não vale nada saber que a consultoria tem grande expertise nos EUA e que aqui a equipe que irá trabalhar no seu projeto nunca desenvolveu alguma iniciativa de IA bem-sucedida.

Qualquer que seja a linha de aquisição de talentos escolhida, comece rápido com um programa de educação gerencial para os executivos que tomarão decisões estratégicas. De fato, o aspecto mais importante de uma estratégia de IA será dar subsídios para os executivos seniores e líderes das unidades de negócios repensarem como a empresa trabalhará com a tecnologia cognitiva. Embora devamos nos preocupar com o modo como desenvolveremos as aplicações cognitivas, nós precisaremos de pessoas com habilidades de análise de negócios e capacidade de estruturar problemas de negócios para identificar quais tecnologias de IA serão apropriadas para resolvê-las.

Lembre-se que projetos de tecnologias cognitivas não são apenas mudanças tecnológicas. Os projetos que vão além do piloto ou da prova de conceito provavelmente irão transformar a cultura, o comportamento e as atitudes da organização. Mudanças nos processos atuais serão inevitáveis. Um estudo da Accenture, “Process reimmagined”, mostra o impacto das mudanças nos processos e nas novas habilidades das pessoas que estarão atuando neles.

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Indiscutivelmente que a IA automatizará o trabalho de rotina, deixando os especialistas humanos com mais tempo para se concentrar em aspectos que exigem julgamento de especialistas e/ou habilidades como percepção social e empatia. Por exemplo, os modelos de “Deep Learning” podem automatizar muitas atividades que envolvem análises de imagem médicas, o que permitirá aos médicos mais tempo para se concentrarem em questões médicas mais ambíguas, como discutir estratégicas das opções de tratamento e apoiar o paciente com mais empatia.

No tocante a estrutura organizacional, as estruturas tenderão a ser mais fluídas, com a empresa atuando de forma mais ágil, com equipes menores e colaborativas. Os modelos em silos e separações de hoje não terá espaço neste novo contexto. Muitas tarefas serão realizadas on-demand, por serviços externos, oferecidos por humanos ou máquinas.

Estes desafios não podem ser subestimados, especialmente dada a aparente ameaça aos empregos dos funcionários. É fundamental abordar as preocupações dos funcionários com relação ao impacto da IA em suas vidas e carreiras, e quais serão as ações tomadas para requalificação das pessoas que hoje ocupam as funções afetadas.

A IA não é modismo. É, sem dúvida, a tecnologia mais disruptiva que visualizo no horizonte. Os executivos precisam, o mais cedo possível (já deveriam!), estabelecer as bases para suas estratégias de uso de IA e começar a implementar seus primeiros projetos, sob o risco ficarem para trás em um mundo de mudanças aceleradas. 

As empresas que ignorarem o poder da IA e o potencial de transformação dos processos e modelos de negócios que ela possibilita estarão em considerável desvantagem, à medida que nos movemos rapidamente para um mundo cada vez mais capacitado cognitivamente.



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