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Opinião

No futuro de trabalho não haverá espaço para complacência

A revolução da tecnologia não é destino, mas um meio para chegarmos a um novo modelo social e econômico. Se será positivo ou negativo, dependerá de nós

Cezar Taurion *

Publicada em 22 de setembro de 2018 às 19h36

Nos últimos dias, li e refleti bastante sobre um relatório do World Economic Forum chamado The Future of Jobs Report 2018”. É um estudo bem aprofundado, de quase 150 páginas, mas que deve ser lido com atenção. Aponta quatro drivers tecnológicos _ internet móvel de alta velocidade, uso de Big Data, Inteligência Artificial (IA) e a computação em nuvem _ e o impacto que terão na robotização de atividades, provocando profundas mudanças nos trabalhos e nas profissões como os conhecemos hoje. 

Resolvi escrever este artigo não para ser alarmista ou profeta do caos, mas como uma provocação. As mudanças estão acontecendo e devemos enfrentá-las.  Na minha opinião está claro que uma nova sociedade mundial está se delineando, fortemente baseada na tecnologia digital. E as mudanças trarão impacto mais profundo que as demais ondas tecnológicas anteriores, como a Revolução Industrial. Além disso, sua amplitude e velocidade são únicas na história humana e, muito provavelmente, seus impactos sociais e econômicos serão duramente sentidos pela obsolescência rápida de muitas profissões. 

A evolução exponencial da tecnologia vai substituir diversas funções. Tudo o que puder ser automatizado, será. O desafio é que esta mudança, por ser rápida e profunda, tem muitas chances de destruir empregos mais rapidamente que criar outros. Nas revoluções anteriores, funções que se tornaram obsoletas foram substituídas por outras, também executadas por pessoas, como a substituição de cocheiros por motoristas. Mas agora será diferente.

futurodotrabalho

Há tempos, a automação vem sucessivamente eliminando trabalhos. Já vimos muitas funções pós industrialização desaparecerem, como ascensoristas, telefonistas, datilógrafos e operadoras de telex, entre outras. E a revolução que se avizinha vai pegar uma camada da sociedade imune à automação, até aqui: os chamados “white collars”, como os advogados, os contadores, os auditores ou os médicos. O mais preocupante é que o sistema educacional não está preparado para capacitar as pessoas para as novas funções que substituirão as que desaparecerem.

O efeito desta revolução também será diferente nas diversas economias do mundo. Países com baixo nível educacional, fortemente ancorados em trabalhos de baixa qualificação, têm possibilidades bem maiores de sofrerem mais. Países com alto nível educacional conseguirão gerar novas funções mais rapidamente, porque estas novas funções tenderão a exigir uma capacitação maior que a média atual. Em um estudo da The Economist Intelligence Unit, cobrindo 35 países que representam 88% do PIB mundial,medindo as competências dos estudantes de 15 a 24 anos para as demandas do mercado de trabalho em transformação, aparecemos na 22a posição. As competências necessárias para que os estudantes se tornem competitivos no futuro mercado de trabalho, como sugeridas pelo estudo, são capacidades analíticas e criativas, conhecimento digital e técnico, consciência cívica e global, além de empreendedorismo, abertura interdisciplinar e liderança. Estamos vendo a valorização de soft skills, pouco trabalhadas na nossa educação.

Em termos de competitividade, o Brasil também não está em situação confortável. Um estudo efetuado pelo IMD (International Institute for Management Development), em parceria com a Fundação Dom Cabral, mostrou que ocupamos a 60ª posição entre 63 países analisados. Um dos fatores analisados é a eficiência empresarial e em relação a ele aparecemos em 59º. Quando olhamos outros  indicadores específicos, como produtividade do trabalho, aparecemos na 62a posição. Também estamos muito mal quando olhamos o grau de adoção de práticas gerenciais e tecnológicas compatíveis com o século 21. Quando perguntados se as empresas brasileiras estão usando ferramentas e tecnologias digitais para avançar em seus negócios, os entrevistados colocaram o Brasil em 54a posição. Considerando apenas o uso de Big Data e IA, aparecemos também em 59º. Este nosso baixo uso de tecnologias avançadas como IA é comprovado por outras pesquisas, como a da O´Reilly. Por região, vemos que a América do Sul, onde estamos, está na lanterna no uso de IA.

OReilly

Um subproduto desta revolução poderá ser o aumento da desigualdade econômica e social entre países e entre os habitantes de cada nação. Cada emprego atual está na mira da automação. Em vez de 90% de advogados juniores e 10% seniores, um escritório de advocacia será estruturado com muitos Data Scientists e engenheiros de Machine Learning escrevendo e treinando algoritmos e mais algoritmos, em torno dos poucos advogados especialistas seniores. O trabalho do escritório será automatizado em sua maior parte _ em especial, tudo o for rotineiro e exercido pelos juniores, como buscar documentos, pareceres, jurisprudências ou escrever petições. Provavelmente se parecerá mais como uma empresa de tecnologia atuando na área advocatícia. A grande questão, portanto, é: como formar Data Scientists em número suficiente? Além disso, o que fazer com os advogados que perderão seu espaço? E, como preparar um advogado sênior, uma vez que o estágio como conhecemos hoje não será mais necessário?

O pior cenário em termos econômicos e sociais seria termos uma elite altamente qualificada e uma grande parcela de empregos na base da pirâmide, como jardineiros e outros que demandam habilidade humanas, com o miolo, onde está a a chamada classe média, em risco por conta da substituição das suas atuais atividades. Eles precisarão desenvolver habilidades diferentes das que têm hoje. O desafio é que estas novas funções demandam um sistema educacional preparado para capacitar pessoas neste novo contexto. 

As novas funções são aquelas que requerem mais conhecimento e raciocínio cognitivo. Demandam criatividade e inovação. Uma escola tradicional, não incentiva estes aspectos.  Precisaremos repensar o modelo educacional. Começar urgentemente a formar pessoas com as capacitações necessárias para as profissões do futuro e não continuar a formar pessoas para profissões que desaparecerão em poucos anos.

Para isso, os professores precisarão ser preparados para novos papéis. Não há outro fator dentro de uma escola que influencie tanto o aprendizado quanto a habilidade do professor. No Brasil apenas metade das vagas de pedagogia é preenchida. Hoje boa parte dos estudantes com o pior desempenho na educação básica estão sendo atraídos para essa profissão. Segundo dados do Movimento Todos Pela Educação, 70% dos matriculados em pedagogia tiveram notas abaixo da média no último ENEM. Apenas 4% do currículo pedagógico é dedicado a teorias didáticas. Os maiores blocos de tempo estão com sociologia da educação e história da educação, disciplinas muito distantes da prática em sala de aula.

Aliás, uma proposta bem instigante para reinventar a educação foi formulada pela Singularity University, no texto “A Model for the Future of Education”. 

Outras questões que surgirão, mais cedo ou mais tarde, são: 

- O emprego como conhecemos continuará existindo? 

- As relações entre empresas e empregados continuará como hoje? 

- A carga horária continuará sendo de 40 horas em turnos fixos, como definido, por necessidade, na sociedade industrial?

Para lembrar como surgiram as típicas oito horas de trabalho, vamos voltar ao início da Revolução Industrial. No final do século 18, as fábricas funcionavam sem parar, em regime 24/7. Para tornar as coisas mais eficientes, as pessoas tinham que trabalhar mais. A norma era que as pessoas trabalhassem continuamente entre 10 e 16 horas.  Essa carga horária mostrou-se insustentável para saúde dos trabalhadores. Então Robert Owen, um reformista social inglês, considerado um dos fundadores do socialismo, começou uma campanha para que essas pessoas não trabalhassem mais que 8 horas por dia. Seu slogan?  "Oito horas de trabalho, oito horas de lazer, oito horas de descanso". Não demorou muito para que a Ford implementasse, de fato, as oito horas diárias e mudasse os padrões. Portanto, a jornada de 8 horas por dia não foi fruto de análises e estudos científicos.  Foi simplesmente uma norma secular para tornar as fábricas mais eficientes. Mas quando as fábricas se tornarem automatizadas, com robôs e não humanos, essa jornada ainda será necessária? Um robô pode trabalhar 24x7.Mesmo quando o trabalho é baseado em conhecimento e criatividade, a jornada de 8 horas não se aplica.  Um insight pode acontecer a qualquer momento e não apenas das 9:00 às 17:00.

Com a automação, a necessidade de pessoas trabalhando em tempo integral para atender as demandas da sociedade diminuem substancialmente. Isso implica novas normas e práticas trabalhistas, novas relações entre empresa e pessoas, e afetará questões delicadas como aposentadorias e férias. Acredito que iremos caminhar na redefinição do conceito de trabalho e emprego.

Um agravante no contexto atual no Brasil é a crise econômica e política que faz as empresas a serem pressionadas por resultados de curto prazo, cortando despesas e adotando estratégias de sobrevivência, enquanto processos de mudanças visam mais o longo prazo. 

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Peguei algumas destas provocações e conversei com amigos, executivos de RH de algumas empresas de grande porte. As empresas e as áreas de RH estão realmente preparadas para enfrentar essas ameaças disruptivas? Como e onde buscar e reter talentos para ajudar a empresa no processo de transformação digital e mudanças nos cenários de negócios que pululam por toda a parte?  O próprio RH irá se transformar. As tarefas rotineiras serão substituídas por algoritmos, como em outros setores, e apenas poucos especialistas farão parte do time de RH de uma empresa.

Pelo que observei, as áreas de RH ainda precisam evoluir muito. Muitas delas baseiam seus processos e práticas nos princípios das empresas da sociedade industrial, que são ainda o cerne de suas organizações. Diante deste cenário transformador, para questionar como será o novo RH, precisamos antes questionar como as empresas se adaptarão para sobreviver em um mundo novo e desconhecido. O atual modelo organizacional, hierárquico não mais atende à demanda de velocidade e transformações quase que cotidianas que o novo cenário exige. Teremos um novo modelo organizacional, novas relações entre empresas e pessoas, e naturalmente, um novo RH.

O futuro do trabalho é um assunto que interessa a todos nós. Temos que discutir seriamente o assunto. Acredito que a revolução da tecnologia não é destino, mas um meio para chegarmos a um novo modelo social e econômico. Se será positivo ou negativo, vai depender de nós. Mas, indiscutivelmente, a inação não é a melhor alternativa.

 

(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada



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