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Opinião

Conselho para os CIOs: saia já da zona de conforto

Como inovar se não se busca novas capacitações, necessárias para uma nova TI?

Cezar Taurion *

Publicada em 06 de setembro de 2018 às 13h41

“Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos apenas aonde os outros chegaram”. A frase, atribuída a Alexandre Bell, tem muito a ver com o momento atual de Transformação Digital e o papel do CIO.

A Transformação Digital está mudando profundamente o contexto estratégico, alterando a estrutura da competição, a condução dos negócios e eliminando a fronteira entre os setores de indústria. Baixa as barreiras de entrada e permite novos entrantes aparecerem muito rapidamente, ameaçando a ordem natural das coisas.

A natureza “plug and play” (como blocos Lego) dos ativos digitais cria novas cadeias de valor que desagregam as cadeias estabelecidas, forjando novos competidores. Um exemplo desse “plug and play” é o conceito de plataforma. Como a da Amazon,  que oferece serviços de logística, lojas virtuais e recursos computacionais (cloud). Para usar, basta plugar estes serviços em sua própria cadeia de valor.

Diante deste cenário, é inevitável que a área de TI esteja caminhando em direção a um novo mundo, onde, com algumas exceções, não haverá mais data centers, suporte a desktops, plataformas de e-mail e outras coisas que são costumeiramente mantidas hoje dentro das empresas. Quando? Difícil dizer, mas o certo é que ritmo da caminhada está se acelerando.

O que as empresas e as áreas de TI devem fazer? A opção de esperar para ver talvez seja lenta demais e a empresa e o setor de TI correrão o risco de perder seu espaço e relevância. O contexto das mudanças em TI não se limita à questão de colocar sua infraestrutura em cloud, mas envolve muito mais que isso. Também o desenvolvimento de sistemas, tão protegido por processos e métodos que se consolidaram por mais de vinte anos de best practices também está sob pressão. O mesmo acontece com o próprio modelo de organizar e pensar TI.

O principal desafio é mudar a maneira de pensar, o paradigma ou modelo mental, que construímos para montar o que constitui a TI hoje. Se não aceitarmos que as regras que moldaram o atual modelo de TI está sofrendo mudanças drásticas, vamos perder o tempo do processo. A nova maneira de pensar vai contra o que aprendemos e que há décadas colocamos em prática.

Vamos analisar o contexto. Muitas empresas estão focadas em modernizar o seu portfólio, consolidando aplicações e construindo apps. Mas, questiono, será que não estão modernizando suas carruagens quando um novo veículo, o automóvel já começou a rodar pelas ruas? Que adianta modernizar os processos de fabricação de filmes químicos quando a fotografia se torna digital? Que adianta um app modernoso se os processos de back office continuam obsoletos e lentos?

Claro que é necessário que o CIO mantenha o dia a dia, mas esperar arrumar a casa para então olhar a Transformação Digital significa, muito provavelmente, que vai chegar na estação depois da saída do trem...e que hoje é trem bala!

É interessante observar que quando abordamos o tema de Transformação Digital muitos gestores de TI colocam barreiras. Não é surpresa, uma vez que, ironicamente, TI é uma das funções mais resistentes às mudanças dentro das organizações. A explicação talvez seja a de que muitas funções em TI são dependentes do sucesso de determinadas tecnologias, para os quais os profissionais se tornaram experts. Sair desta zona de conforto e entrar em um conjunto de novas tecnologias, novas práticas e novos modelos organizacionais causa, naturalmente, reações contrárias. Como são profissionais talentosos, suas argumentações são sólidas e geralmente suportadas por seus pares.

Querem alguns exemplos? Porque ainda se ouve que a empresa não adota cloud computing porque cloud é insegura? Muitas vezes estes comentários partem de CIOs que mantém seus data centers muito mais inseguros que os oferecidos por provedores de cloud de primeira linha. O pressuposto que um data center interno é inerentemente mais seguro é muito mais um imaginário coletivo que realidade. É uma reação natural à disrupção na ordem natural das coisas. 

Na minha opinião, aceitar e liderar estas mudanças na TI das empresas é que vai fazer a diferença entre os CIOs. A TI foi doutrinada a evitar riscos e manter a operação totalmente invisível aos usuários, reduzindo custos e atendo-se à práticas estabelecidas há muitos anos. Romper com este modelo mental não é simples. Ser inovador e “early adopter” não faz parte de sua cultura e mindset.

Os desafios são vários. O primeiro, de capacitação. Será que os profissionais das áreas de TI estão capacitados, por exemplo, a trabalhar em cloud computing, desenvolvendo apps móveis e contextuais, utilizando práticas de entrega contínua? 

Muitas vezes, as próprias empresas não consideram TI como diferenciadora, apenas a enxergam como operacional. Assim, ainda é comum vermos recrutamento dos profissionais restringindo-se a capacitações já estabelecidas. Dificilmente vemos empresas buscando user designers para interfaces de apps ou cientistas de dados para a construção de algoritmos de IA, mas vemos buscas por profissionais em Java e SQL. Vemos empresas buscando profissionais certificados em ITIL, mas não procurando pessoas com experiência em processos de entrega contínua ou em algoritmos preditivos. Como inovar se não se busca novas capacitações, necessárias para uma nova TI?

O modelo operacional de TI é um outro aspecto importante. De maneira geral encontramos em muitas empresas uma TI orientada a custos, com papel operacional, de suporte ao negócio, e tendo este custo avaliado em relação a percentual do faturamento. Quando a receita da empresa cresce, a TI pode aumentar seu budget. Quando a empresa reduz sua receita, o budget de TI também é cortado.

Penso que este modelo de “fazer mais com menos” sufoca a capacidade dos CIOs inovar. Eles ficam sob constante pressão para manter o dia a dia com menos custos e com poucas chances de conseguir budgets para inovar. Pior quando subordinados ao CFO, geralmente mais preocupados com lucratividade e redução de custos à curto prazo e menos com inovação. Não é vocação da maioria dos CFOs serem empreendedores e inovadores. TI poderia ser visto de outra forma, como uma função direcionada a alavancar novas receitas. Porque TI não pode gerar oportunidades de criação de novas fontes de receitas para a empresa? Mas, para isso será necessário uma significativa mudança no seu modelo mental, pois deve passar a atuar como uma empresa por si, com a agilidade de uma startup.

TI também precisa estar entranhada no negócio. Uma prova de como muitas empresas mantém sua TI afastada do negócio é que é muito raro vermos CIOs apresentando palestras em eventos específicos de indústria. De maneira geral eles apenas participam de eventos de tecnologia.

Uma outra variável é a velocidade de resposta. Uma TI voltada a negócio, gerando receita tem que ser oportunista, o que bate de frente com os seus processos atuais, que demandam longa maturação, desde a solicitação pelo usuário à implementação operacional. As práticas e processos de TI são rígidos e ancorados em modelos voltados a um contexto onde velocidade não é a variável mais importante. A realidade é que tornou-se comum piadas que envolvem TI com a palavra “não” inserida nelaa: “não tenho recursos”, “não tenho tempo”, “não tenho capacidade computacional”.  A TI deve medir seu tempo de resposta em dias e não mais em semanas ou meses.

Para atuar de forma oportunista, criando novos engajamentos com clientes, é preciso atuar no tempo correto. Um atraso de semanas (meses, nem pensar) e lá se vai a janela de oportunidade. TI deve ser por natureza ágil e veloz, em todos os aspectos.

Tecnologia é outra variável. A tecnologia vem evoluindo muito rápido e a tendência é de aceleração. Com novas tecnologias, surgem novas oportunidades de exploração para TI. Assim, dispositivos móveis e vestíveis, Internet das Coisas, modelos preditivos, impressoras 3D, drones, RA/RV, não devem ser vistos como ciência futurista, mas como parte natural do portfólio. 

Mobilidade é um exemplo. Já está tão entranhada na sociedade e seus hábitos que falar em estratégia de mobilidade para daqui a um ou dois anos será tão obsoleto como falar hoje em estratégia de eletricidade, que era novidade nos idos do início do século XX.. Aliás, a velocidade das mudanças é tão acelerada,  que já nem devemos falar em “Mobile First”, mas em “AI First”!

zonadeconforto

TI tem que se reinventar constantemente. Infelizmente vemos ainda muitas empresas com uma TI que parece a mesma, em sua tecnologia, processos e “best practices” com uma TI de dez anos atrás. Há dez anos não existia iPhone (na verdade fez 11 anos, pois foi lançado em 2007, mas a AppStore surgiu em 2008), AWS, DropBox, WhatsApp e outras coisas comuns hoje também não existiam. O mundo de negócios hoje não é o mesmo de dez anos atrás e a TI não pode, portanto, ser a mesma de dez anos atrás.

O CIO pode e deve ser o ponto focal das transformações digitais. Para isso deve compreender as mudanças que já estão ocorrendo e reinventar sua área e a própria função CIO. Criar nova maneira de pensar TI na empresa e prover novos serviços e produtos. Ser veloz, ágil e inovador. Mas, infelizmente, muitas vezes, o maior obstáculo da TI é a própria TI.


(*) Cezar Taurion é partner da Kick Ventures e presidente do i2a2, Instituto de Inteligência Artificial Aplicada



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