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Opinião

Inteligência artificial dará uma boa assistente de gestão

Está aí a Operação Ziggy Stardus para não nos deixar mentir

Cezar Taurion e Evandro Barros *

Publicada em 16 de maio de 2018 às 08h07

Era por volta de umas 7:30 da manhã quando o CEO entrou em sua sala ainda atordoado do trânsito intenso que pegara. Enquanto colocava suas coisas na mesa, TVs e monitores eram acionados automaticamente preparando o ambiente e os dados da empresa para mais um dia de trabalho.

Enquanto isso, seu assistente de gestão, uma Inteligência Artificial capaz de estar em cada canto da empresa, o saudava com um bom dia e o fazia perguntas sobre como ou por onde ele gostaria de iniciar.

Com este sistema de IA era possível ver todas as faces da empresa e se preparar para os mais diversos cenários graças a sua eficiente capacidade de predição. Documentos, e-mails, informações financeiras e gestão de projetos estavam interligados em um único ponto, automatizando tarefas que antes consumiam tempo e valor de uma equipe muito maior.

Pela primeira  vez o CEO possuía métricas com ação proativa, e se sentia como um piloto de uma grande aeronave: a sua empresa.

De repente algo piscou na tela. Era um alerta sobre um dado que merecia atenção. Talvez um projeto em atraso ou um colaborador chave cujo comportamento indicava uma probabilidade maior que a média em deixar a companhia.

Hora de entrar em ação, iniciando o dia.

Não, este texto não é fruto de um livro de ficção científica e nem mesmo deve ser tratado como algo futurista. É parte da proposta de um projeto conhecido como Operação Ziggy Stardust (sim ele mesmo, o personagem inventado por David Bowie) iniciado este ano dentro da DATA H, startup de Inteligência Artificial cujo o objetivo é experimentar na “própria carne” como a IA pode lidar com o dia a dia de uma empresa.

No entanto a IA é a ponta do iceberg em termos de estruturas empresariais. Para que a mesma surta efeito é preciso rever conceitos importantes sobre como a gestão vai lidar com a informação ou mesmo como cada colaborador vai lidar com esta nova realidade.

Quando falamos de IA participando da gestão de companhias é necessário, antes de mais nada,  que a mesma tenha uma nova visão sobre como uma empresa pode ser auto gerenciável e sobre a influência na cultura corporativa deste novo elemento. Neste sentido, alguns paradigmas presentes na gestão das empresas desde o século XIX precisam ser revistos.

Por que não olhar uma organização como um ser vivo, em constante evolução e adaptação, aprendendo e agindo de forma diferente a cada novo aprendizado? Um ser vivo tem suas células funcionando de forma independente, sem controle central. O fígado reage por sua conta, sem esperar por ordens. Pensar em uma empresa auto gerenciável é uma quebra de paradigmas, mas não acreditamos que exista outra alternativa para sobreviver em um mundo que muda a cada instante. Isto significa criar equipes auto gerenciaveis, que tomam suas próprias decisões. Não existe a figura do chefe. Todos têm a mesma importância no processo de decisão. Os times não têm chefes, mas existe uma liderança global, muito mais voltada a ser inspiradora que controladora.

Por outro lado, não existem intermediários entre a liderança e os times, o que significa que os níveis gerenciais intermediários, o famoso “ middle management”, deixa de existir. Aliás, as lideranças controladoras são substituídas por “coaches”, orientadores e inspiradores. A estrutura da liderança tem poucos “coaches” e um CEO com papel diferente dos que vemos nos CEOs tradicionais.

Outro ponto que deve acabar nas empresas do século 21, indiscutivelmente, é a proliferação e funções de staff que são típicas das estruturas atuais, como RH, finanças, jurídico, auditoria interna, TI, entre outras. Na prática, para se manterem estes setores precisam criar valor e para isso acabam criando problemas adicionais para poderem resolver e, portanto, adicionar valor artificial às organizações.

Uma estrutura organizacional de uma empresa preparada para a revolução digital, moderna, não precisa de tanto staff. O staff de apoio é levado ao mínimo e grande parte de suas atividades fica com as próprias equipes. O staff de apoio funciona muito mais como orientador que como operador. Um exemplo, os times recrutam seus funcionários e não mais o RH, que apenas orienta e apoia em questões específicas, como as contratuais.

Mas como criar um novo modelo? Se a empresa está sendo criada hoje, é absolutamente perda de tempo criá-la dentro do modelo hierárquico tradicional. Estará sendo condenada a fracassar em pouco tempo.

Esqueça a emulação de uma empresa bem-sucedida de 25 anos de vida. Comece do zero e elimine a hierarquia. Usemos a IA para nos ajudar a criar esta empresa ágil e horizontal.

O desafio é  como transformar a estrutura organizacional de uma empresa existente. O primeiro requisito é que o CEO deve liderar a transformação. Em vez de passar 100% do seu tempo aprovando budgets, gerenciando e controlando time executivo, planejando estratégias top-down, ele precisa ser muito mais voltado para inspirar a mudança, criar e sustentar um ambiente para que a empresa funcione de forma auto gerenciável.

Este CEO tem também um outro papel, igualmente importante: ser a face publica da empresa.

IA

O segundo requisito é que o board da organização acredite na necessidade da transformação e apoie o CEO, se engajando na tarefa de transformação. Dificilmente a mudança será feita de uma única vez. É uma mudança que deve acontecer aos poucos, e de forma persistente. Muitas barreiras serão encontradas, como as das gerencias intermediárias, que deixam de existir. Estas pessoas, não necessariamente vão deixar a organização, mas cumprirão outro papel. Nem sempre esta mudança é bem aceita, principalmente por quem viveu a vida inteira em outro paradigma. Por outro lado, os funcionários de nível mais baixo são os primeiros a adotarem a auto gestão. Na maioria das vezes anseiam por isso. A empresa tem que fazer grande esforço para mudar a mentalidade da liderança atual e transformar a cultura organizacional, consolidada por décadas, do modelo de comando e controle. Não é uma tarefa fácil.

Por outro lado, manter o status quo significa uma inevitável perda de relevância no mercado, pois a estrutura que levou a empresa ao sucesso no cenário atual não é garantia de sucesso futuro. Pelo contrário, é mais uma ameaça à sobrevivência do negócio!

Uma empresa dotada de uma nova tecnologia capaz de criar conhecimento distribuído, auto gestão, velocidade e altíssimo ganho de escala também precisa estar munida de uma nova visão sobre o que é cada elemento que a compõe.

A operação Ziggy Stardust vai muito além que adicionar inteligência em nossos processos. Muito além que automatizar tudo o que for possível e ter capacidade preditiva. Antes de tudo, é fruto de um conceito capaz de receber e absorver a IA como aliada, em um ambiente pronto e amigável para a transformação como um todo.

Queremos construir uma empresa digital em sua essência. Um empresa onde humanos e inteligência artificial convivam, trabalhando lado a lado, no propósito de tornar a empresa mais ágil e competitiva.

 

(*) Cezar Taurion é presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada) e  Evandro Barros é  CEO DATA H – Artificial Intelligence



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