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Opinião

O futuro dos bancos e o futuro do mainframe

A grande barreira que impede a saída dos bancos dos mainframes não é tecnológica. Está relacionada ao alto custo da mudança. E serve de exemplo para problemas enfrentados por outras verticais

Cezar Taurion *

Publicada em 02 de maio de 2018 às 08h00

Comecei a carreira em Computação nos mainframes, escrevendo programas Cobol e Assembler. Tenho gratas lembranças desta época pioneira. No decorrer destas décadas de atividade, sempre ouvi falar e li muitos textos sobre o fim os mainframes. Até agora, nada aconteceu. Ainda existe um conjunto razoável de empresas que usam mainframes, principalmente bancos, governos, seguradoras, empresas de TI e algumas empresas aéreas. Não temos nenhuma lista oficial de base instalada destas máquinas, mas existe um site, “List of all companies that have a Mainframe Machine”, que procura dar uma visão desta base instalada.

Outro dia, em uma longa conversa com executivos de um grande banco, o assunto ressurgiu e essa conversa me gerou alguns insights que creio que vale a pena debater aqui. Os bancos são os principais usuários de mainframes desde que os computadores de grande portes surgiram, com os /360 da IBM, em 1964. Hoje, mais de 50 anos depois, a maioria dos bancos ao redor do mundo ainda os usam em seus “core systems”.  Embora seja certo que as tentativas de substituição desses sistemas tenham se mostrado muito caras e demoradas, como testemunhado por alguns bancos australianos, o status quo não é mais uma opção.

Acredito que as revisões da infraestrutura básica dos bancos ganharão importância nos próximos anos, já que os sistemas legados alcançaram o ponto de saturação, uma vez que a integração complexa de sistemas desatualizados está se tornando muito dispendiosa. Os fatores que provavelmente impulsionarão maiores investimentos em uma nova infraestrutura de TI para os bancos incluem:

1 - novas e aprimoradas tecnologias, como a adoção da computação em nuvem;

2 - maior foco na qualidade dos dados, acessibilidade, padronização e utilização, combustível essencial para uso mais aprimorado de IA;

3 -  aumento das expectativas do cliente, o que vai se acelerar com iniciativas como as adotadas pelo Open Banking na Europa e que vai chegar aqui;

4 - e foco crescente na agilidade e redução de custos, frente à ameaça das Fintechs e Bigtechs.

Bigtechs são as grandes empresas de tecnologia entrando nas atividades bancárias. As iniciativas de empresas chinesas e agora as americanas, como Amazon (“Amazon could become the third-biggest US bank if it wants to: Bain study”), mostram que o jogo pode mudar radicalmente.

A maioria dos grandes bancos ainda está no início de um processo de Transformação Digital e provavelmente vai concentrar seus esforços em atualizar componentes de TI onde o ROI seja mais atraente. Em contraste, os bancos digitais, Fintechs e Bigtechs, com suas plataformas ágeis e velocidade rápida de entrada no mercado, estão simplificando o mundo financeiro, criando novas e agradáveis experiências de serviços centradas no cliente, transformando a forma como o banco é visto pelos usuários. Abrir uma conta em bancos digitais como Banco Original, Banco Inter ou Neon é fácil e rápido, seja pessoa física ou jurídica. Não é preciso ir a uma agência. Você faz do celular mesmo. Independente do banco, o processo não muda. A abertura pode ser feita no próprio aplicativo.

A conversa com os executivos do banco mostrou uma realidade desafiadora: os principais sistemas bancários foram desenvolvidos por produto, em sistemas construídos de forma monolítica. Como os principais sistemas bancários foram desenvolvidos por produto, os grandes bancos podem ter mais algumas dezenas de diferentes sistemas, todos escritos em diferentes gerações de software ao longo de décadas. Isso criou silos verticais cujos sistemas são incompatíveis e dificultam em muito o compartilhamento de dados. Foram desenvolvidos sem maiores preocupações com a integração ente eles. À cada nova solicitação de funcionalidades específicas pelo pessoal das linhas de negócio, os bancos precisam fazer demoradas e caras correções personalizadas para anular esta falta de interoperabilidade. Em alguns casos, milhares de aplicativos precisam ser mantidos, criando um nível de complexidade considerável.

Apesar de complexa, essa arquitetura de TI tem sustentado historicamente as operações dos bancos, provando serem muito estáveis, confiáveis ​​e capazes de suportar cargas de trabalho consideráveis. Mas, não são ágeis. Embora possam ser feitas modificações, isso não é fácil e, à medida que as demandas nos sistemas se aceleram, fica mais difícil para os bancos acompanhar as rápidas mudanças no mercado. Muitas dessas aplicações antigas foram escritas em COBOL, e não foram escritas para o ritmo das mudanças na era atual. Estas aplicações monolíticas executam muitas funções e consistem em pedaços maciços de código muito intrincado,  difíceis de modificar e conectar com outras aplicações. Muito tempo é gasto para fazer, até mesmo, uma pequena alteração.

Até agora esta arquitetura tem funcionado. Os ambientes bancários sempre foram relativamente estáveis, com mudanças cosméticas, sem maiores ameaças externas, uma vez que a competição vinha de produtos lançados por outros bancos. Não havia competição oriunda de outros setores. Agora, as exigências de velocidades e transformações que estão ocorrendo em todos os setores e, claro, também nos bancos, fazem com que as demandas sobre a infraestrutura de TI estejam aumentando, já que as expectativas dos clientes cada vez mais empoderados, têm crescido substancialmente.

O cenário de negócios tem mudado muito rapidamente e além de competição externa, mudanças nas regulações como o Open Banking, afetam em muito o “business as usual” com o qual os bancos tinham se acostumado. Quando os atuais sistemas bancários foram criados, o mundo era um lugar muito diferente. A agência bancária era normalmente o único canal de contato com o cliente e a maioria dos processos era focada no produto e não no cliente. Além disso, processos como abertura de conta, aprovação de crédito, e outros, podiam levar dias para serem concluídos.  Mas os consumidores de hoje, com base em suas interações com empresas de outros setores, se acostumaram a processos rápidos e de baixo atrito (integração, facilidade de concluir uma transação, etc.). Além disso, esperam cada vez mais produtos e serviços adaptados às suas necessidades e desejos individuais.

Estas demandas do novo consumidor é que vêm impulsionando grande parte do apelo das Fintechs. Elas endereçaram exatamente esta carência dos consumidores frente aos bancos tradicionais. Os dados isolados em silos também são um entrave para um uso mais sofisticado de IA. IA é o motor, mas os dados são o combustível. A dificuldade de integrar os dados e torná-los acessíveis aos algoritmos, é vem tornando o uso mais eficaz da IA pelos bancos mais difícil. E, claro, o custo de manter sistemas legados aumenta à medida que os sistemas envelhecem.

O cenário regulatório também tem se tornado mais complexo. Na Europa estamos vendo  o General Data Protection Regulation (GDPR), que estará em vigor a partir de 25 de maio, aperdar os controle de provacidade. O GDPR  se baseia no conceito de que os indivíduos têm um “direito humano fundamental” de usar seus dados pessoais como bem entenderem. Serão impostas severas penalidades financeiras às organizações que fizerem uso indevido de dados pessoais. E isso afetará as empresas brasileiras, pois qualquer empresa que possua filiais ou armazene ou processe dados de cidadãos europeus estará obrigada a cumpri-lo.

Outra regulação europeia, a PSD2, exige que os bancos compartilhem dados de clientes com terceiros apenas com o consentimento prévio dos clientes.  E também permite que terceiros iniciem pagamentos da conta bancária de um cliente na conta bancária de um lojista. O PSD2 aumenta a chance de que um terceiro possa se inserir entre os bancos e seus clientes, oferecendo a esses clientes uma melhor experiência do usuário e produtos superiores aos oferecidos pelos bancos. Será  um desafio aos bancos, com certeza, que mudarão muito com isso. A respeito, vale ler o artigo “PSD2 - the directive that will change banking as we know it”. No Brasil, não se tem expectativa para uma regulamentação de open banking em um futuro próximo. Mas sabe-se que o Banco Central tem acompanhado o tema e a diretiva europeia, que poderá servir de inspiração para uma regulação em um momento futuro. É difícil pensar que open banking não se desenvolverá no Brasil. Será uma questão de tempo.

Aqui no Brasil a regulamentação das fintechs de crédito, aprovada recentemente pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), deve intensificar a oferta de empréstimos com taxas menores, ampliando a concorrência com os grandes bancos. Uma consequência provável da regulação é que várias Fintechs se preparem para ter uma atuação totalmente autônoma. Hoje, para operarem, essas plataformas precisam de uma parceira com uma instituição financeira autorizada a operar pelo Banco Central. Com a nova regulação, as Fintechs que tenham ao menos R$ 1 milhão em capital poderão buscar uma licença no BC para atuar como instituição financeira com regras mais simplificada. Outra consequência da regulação é que os volumes que as Fintechs devem receber de grandes investidores internacionais, como fundos de private equity, tendem a crescer.

Estas mudanças regulatórias levantam questionamentos sobre como estas e futuras regulamentações mudarão a natureza da concorrência no setor bancário, e se esses regulamentos colocam os bancos com sistemas legados em desvantagem competitiva. A questão básica é que tanto a tecnologia quanto a estrutura dos principais bancos mudaram drasticamente desde que os principais sistemas de TI foram implantados décadas atrás. Embora a maior parte dos últimos desenvolvimentos de TI dos bancos tenha se concentrado nos novos canais de interface com o cliente, como apps e web sites, calcula-se que dois terços dos custos de TI de um grande banco não sejam vistos ou tocados pelo cliente. Nos últimos anos vimos muitos sistemas serem desenvolvidos para acelerar processos, mas os principais sistemas bancários de TI permanecem os mesmos. Mesmo as implementações das variantes digitais dos bancos tradicionais usam a praticamente a mesma infraestrutura “core systems” de TI com as quais nasceram os bancos nasceram.

O “core system” de um banco é essencialmente o sistema de back-end usado para recursos de processamento de depósitos, empréstimos e créditos. Isso é usado para transações bancárias, fazer e pagar empréstimos, abrir contas, processar depósitos e saques em dinheiro, e fazer interface com sistemas de contabilidade para reconciliar transações e atualizar as contas dos clientes e outros registros financeiros. A arquitetura de TI baseada em mainframes, começa a mostrar que o crescimento e a escalabilidade dos negócios torna-se proibitivamente cara. Embora a proliferação de servidores que vimos a partir dos anos 90 (lembram-se do downsinzing?)  tenha ajudado a diminuir a dependência dos mainframes para as novas aplicações, isso tem levado aos bancos a ficar com grandes estoques de hardware subutilizado, com milhares de servidores usando apenas uma fração de sua capacidade.

mainframe360

A grande barreira que impede a saída dos bancos dos mainframes é o alto custo da mudança. Não é tecnológica, pois as grandes empresas de tecnologia como Amazon, Google, Facebook, Apple e as chinesas voltadas a pagamentos como Alipay e Tencent TenPay não usam mainframes. Como o investimento inicial em um novo “core system” é elevado, o retorno sobre o investimento pode se estender por vários anos. De acordo com uma análise da Capgemini ("Core Banking Transformation: Measuring the Value"), o período de retorno para os projetos do core banking pode variar de 2,5 a 5,5 anos, com um tempo médio de 4,5 anos.

Entretanto, como as Bigtechs mostram, ter sistemas e infraestruturas de computação ágeis permite competir de forma mais eficaz em um ambiente de negócios em constante transformação.  Os bancos ainda estão relutantes em revisar os seus “core systems”, devido ao alto investimento inicial, alto risco de execução e demorado ROI.

Algumas alternativas à substituição têm apresentado resultados interessantes, como o caso do DBS, o maior banco de Cingapura, que não substituiu inteiramente seu “core system”, mas reduziu imensamente sua dependência dele. Vale a pena conhecer sua experiência, descrita em “Executing the digital strategy”. A experiência de Transformação Digital do DBS (1) demonstra na prática os benefícios de um banco que se transforma fundamentalmente em um banco digital; (2) que um banco digital deve reduzir drasticamente sua dependência do “core system” legado mesmo que não o substitua; (3) e que esta abordagem é provavelmente uma alternativa atrativa para os grandes bancos, que têm escala e recursos substanciais.

Indiscutivelmente, sem reformar os “core systems” será difícil para os bancos incumbentes igualar a agilidade e o menor custo de serviço por cliente que os novos atores, sejam Fintechs, BigTechs ou bancos nativos digitais, podem prover. Hoje, cerca de dois terços ou mais dos orçamentos de TI dos bancos são gastos em manutenção. De maneira geral, o investimento em mudanças reais ou inovações é uma pequena fração dos seus orçamentos de TI.

A computação em nuvem e uma arquitetura mais moderna oferecem soluções para problemas dos sistemas legados de TI.  A mudança para a nuvem oferece o redução de custo e a eficiência, enquanto o redesenho de aplicativos legados oferece o benefício da agilidade e velocidade de desenvolvimento de produtos para acompanhar a evolução do mercado.

Ser inovador e responsivo às demandas do cliente (fazer atualizações contínuas em um aplicativo) pode ser um diferencial importante. O exemplo da Amazon (How Amazon handles a new software deployment every second) é emblemático. A capacidade de virtualizar todo o hardware de TI (servidores, computação e rede) já está disponível, o que significa menos necessidade de equipamentos físicos do que a tradicional arquitetura de TI legada. Com a nuvem, um processo medido em meses pode agora ser feito em minutos. À medida que mais recursos são exigidos, uma máquina virtual pode ser gerada em minutos.  Aplicativos modernizados, construídos com base no conceito de microserviços, fornecem produtos flexíveis e ágeis. 

E os mainframes, como ficam? Não irão desaparecer de um dia para o outro, mas à medida que sua relevância para negócios diminua, a capacidade computacional residente nestas máquinas tende a diminuir.  Esta lenta curva descendente continuará até que seja atingida o seu ponto de inflexão, quando o processo se acelerá exponencialmente. Quando vamos atingir este ponto? Bom. nninguém tem esta bola de cristal!

Sem sombra de dúvidas, as capacidades de mudar rapidamente, inovar facilmente e competir são necessidades estratégicas. Os bancos não vivem mais em um ambiente estável, com a competição se dando apenas entre os mesmos atores. O ritmo da inovação e o efeito da revolução das FinTech, Bigtechs e bancos digitais estão se acelerando. Creio que veremos uma divergência entre bancos que manterão sua infraestrutura tradicional e outros atores do sistema financeiro que adotarão o novo mundo tecnológico. Um banco lento tenderá a se tornar um fornecedor de commodities de serviços regulados com margens baixas. Talvez seu futuro seja sombrio.

 

(*) Cezar Taurion é presidente do I2A2- Instituto de Inteligência Artificial Aplicada, head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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