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Opinião

Não devemos apostar corrida contra as máquinas, mas correr com elas

Quanto mais soubermos trabalhar em conjunto com a tecnologia e a IA, melhor será nosso futuro

Cezar Taurion *

Publicada em 16 de abril de 2018 às 17h35

O impacto da IA na transformação da sociedade começa aos poucos a ser compreendido. Uma dose mínima de inteligência aplicada a um processo ou a objetos vai elevar a eficácia de qualquer sistema a um outro patamar.  IA será a força motriz da competitividade no futuro. E aliás, já estamos no ponto de inflexão, onde a IA vai se acelerar de forma exponencial. Será a nova eletricidade, que dará vida a objetos inertes. Nas próximas décadas vamos "cognificar" aquilo que eletrificamos no passado.

Uma extensa análise do potencial da IA pode ser encontrado no relatório “An Investors' Guide to Artificial Intelligence”, publicado pelo JP Morgan. Vale a pena ler o estudo, pois mostra o cenário da IA, não apenas pela ótica de uma melhor compreensão, mas do ponto de vista de investidores, que sinalizam claramente para onde o mercado está se direcionando.

Por outro lado, a IA nos traz novos desafios. Vai impactar a sociedade como um todo, as empresas e seus modelos de negócio, as profissões, e claro, a nossa vida.

Mudanças sempre aconteceram na nossa sociedade. O que começamos a sentir é que o ritmo das mudanças é muitas vezes mais rápido que ocorreu com a Revolução Industrial. Em vez de 200 anos, as mudanças ocorrerão em pouquíssimas décadas.

Antes da revolução industrial, mais de 80% da população vivia da agricultura. Em 2050 cerca de 70% da população mundial estará morando em cidades. A própria indústria está se transformando, com operários em fábricas se tornando raros, substituídos por robôs.

As profissões mudaram, os lavradores saíram dos campos para as fábricas e destas para os escritórios. No final deste século mais de 70% das atuais profissões terão desaparecido.

À medida que as tecnologias de IA avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimento bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente, ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata, como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs.  Este processo também está ocorrendo na China, onde já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais.

Alguns estudos estimam que cerca de metade dos empregos atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores de software e administradores de sistemas de computação. Esta é uma diferença significativa que a IA está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas tarefas administrativas é que agora estão correndo o risco. A substituição do trabalho é inevitável e agir de forma reativa não vai ajudar em nada. Precisamos, sim, compreender a imensa mudança que está se abrindo e aprender a navegar nesse novo território.

A realidade está mostrando que vários setores, como a indústria da música, as agências de viagem, jornais e agora táxis, se transformaram ou estão em processo de transformação. Setores sólidos e tradicionais simplesmente desabaram e tiveram que encontrar novos modelos de negócio para sobreviverem.

Vamos exemplificar as mudanças que ocorrerão com uma profissão tradicional, a advocacia. Uma provocação que podemos fazer é: “ainda existirão advogados no futuro?”. A taxa de acertos em previsões futuristas é mesma de chimpanzés jogando dardos e acertando o alvo, mas podemos debater algumas ideias e tirarmos conclusões. Claro, desde que não nos apeguemos a crenças e paradigmas que nos limitam o olhar crítico.

Vamos analisar o contexto. As práticas de trabalho dos advogados não mudaram muito nas últimas décadas. Recomendo um livro instigante, “The Future of the Professions: How Technology Will Transform the Work of Human Experts”, de Richard e Daniel Suuskind, que mostra o potencial de disrupção diante de várias profissões como as conhecemos hoje. O livro mostra que os advogados oferecem assessoria personalizada de alto custo e que os sócios dos prestigiados escritórios presidem organizações em forma de pirâmide, recebendo altas comissões, enquanto batalhões de advogados principiantes fazem o trabalho árduo de buscar precedentes e elaborar contratos. Os altos custos destes escritórios e dos seus honorários propiciam um cenário aberto às disrupções. O livro faz uma comparação simples, com os veteranos taxistas de Londres, que para obterem seu certificado, precisavam dominar de memória a geografia das ruas. O serviço era, portanto, caro. E foi rompido pelo Uber, que atraiu batalhões de motoristas que cobram barato e navegam por GPS.

Alguns estudos já afirmam que em 15 anos ocorrerá um colapso estrutural dos tradicionais escritórios de advocacia, pelo menos em alguns países na Europa e EUA. Alguns primeiros exemplos sinalizam que este cenário pode se tornar realidade. Alguns escritórios de advocacia nos EUA já usam IA como “associada digital”, delegando a algoritmos preditivos a tarefa de executar buscas inteligentes por documentos, pareceres e jurisprudências referentes aos casos em análise. O interessante é que uma análise feita sobre o uso de IA na advocacia na Europa e EUA mostra que, salvo raras exceções, não são as tradicionais bancas de advogados, mas novos entrantes que investem nesse conceito. Vemos que o momento do Uber, Airbnb, Skype e WhatsApp se repete. As empresas estabelecidas tendem a ser conservadores e lutam para preservar seu modelo de negócios.

Enfim, estamos diante de mudanças significativas na sociedade e praticamente nenhuma função ou setor de negócios estará a salvo das transformações. Recomendo ler o texto “The Great Disruption: how Machine Intelligence will Transform the Role of Lawyers in the Delivery of Legal Services”. Ele mostra quais as atividades realizadas por advogados estarão mais sujeitas à disrupção (busca por documentos, pareceres, criação de formulários, textos e memorandos, e mesmo predição dos resultados das causas em julgamento), como essa disrupção vai afetar o setor como um todo e como, provavelmente, os escritórios de advocacia irão usar seus talentos para combater a inovação. Vejam o caso descrito em “An AI just beat top lawyers at their own game, onde um sistema de IA, aplicado à análise de contratos de NDA (Non Disclosure Agreement),   apresentou 95% de precisão contra 85% dos humanos, em um espaço de tempo assustadoramente menor.  Os advogados levaram em média 92 minutos para análise, enquanto o sistema levou 26 segundos.

O cenário conturbado, como o contexto que vemos hoje envolvendo o Uber e os taxistas, certamente vai acontecer quando os escritórios de advocacia sentirem reais ameaças ao seu modelo atual. Mas, alguns entenderão que o processo é irreversível e os vencedores serão os que conseguirem fazer o mix certo entre advogados e tecnologia.

As mudanças vão afetar o sistema econômico e social como um todo. Os primeiros estudos já mostram que a classe média será a principal afetada, pois ocupa trabalhos em escritórios e produz trabalhos intelectuais que tenderão a desaparecer ou demandarão muito menos vagas que hoje. Claro, novos empregos serão criados, mas eles exigirão conhecimentos muito especializados e altos níveis de educação. Novas carreiras e funções, que ainda não conhecemos, serão criados, mas a dúvida é se serão em número suficiente para recompor as vagas que desaparecerão.

Nosso relacionamento com as máquinas não pode ser conflituoso. Há espaço para todos. Existem trabalhos que as máquinas podem fazer melhor que os humanos, como teares automatizados produzindo tecidos perfeitos a custos mínimos, ou um piloto automático que navega um avião sem desvios, otimizando o combustível e tornando o voo extremamente suave. Existem também trabalhos que nós não fazemos, mas que as máquinas podem fazer. Um exemplo, é a produção de chips, que requer uma precisão, controle e atenção que nós não somos capazes. Também as máquinas executam trabalhos que não imaginávamos ser possíveis poucas décadas atrás. O exemplo disso é a busca do Google, onde bilhões de páginas web são pesquisadas em pouco segundos. Seria impossível fazer isso com seres humanos. E existem trabalhos que ainda só os humanos podem fazer, embora não seja garantido no futuro.

A IA vai demandar um novo currículo educacional, que abandone a memorização de fatos e fórmulas para focar mais em criatividade e comunicação, coisas que as universidades brasileiras, em sua grande maioria, pecam.

Embora profissionais como advogados, médicos e contadores considerem tentador acreditar na excepcionalidade humana, mesmo seu conhecimento específico, adquirido a duras penas, será igualado, em um futuro próximo, pelas máquinas. A verdade é que a maioria dos trabalhos profissionais pode ser desdobrada em conjuntos de tarefas distintas. Depois que são desmembrados, resta pouco o que não possa ser feito pelas máquinas.

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Enfim, é uma discussão que está apenas começando. Mas a nova realidade virá rápido e ignorar a transformação que já está ocorrendo no mundo não vai impedi-la de acontecer e chegar aqui no Brasil. Não devemos apostar corrida contra as máquinas, mas sim correr com elas. Quanto mais soubermos trabalhar em conjunto com a tecnologia e a IA, melhor será nosso futuro. Mais de 90% dos nossos colegas de trabalho serão invisíveis;  softwares de IA que estarão trabalhando inseridos em todas as nossas tarefas. Portanto, precisamos decidir o quanto antes como queremos viver com elas e como vamos nos preparar para isso. É uma discussão que não pode mais ser adiada.

 

(*) Cezar Taurion é presidente do I2A2- Instituto de Inteligência Artificial Aplicada, head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

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