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Opinião

O carro voador da eHang tem muito a nos ensinar sobre um MVP

Sabe aquela explicação de que a criação do carro começa com um skate, depois um patinete, uma bicicleta, uma moto, até chegar no carro em si. Pois é, a eHang praticamente a seguiu literalmente

Leonardo Mattiazzi *

Publicada em 12 de março de 2018 às 10h36

No ano passado, quase metade das palestras no SXSW eram sobre Inteligência Artificial, e a outra metade sobre Design. Este ano, 90% das palestras são sobre "designing for AI"! Mas não foi isso que mais chamou minha atenção nestes primeiros dias da conferência. Foi a história contada por Derrick Xiong, Co-founder da eHang - a empresa que está trazendo ao mercado o carro voador. Isso mesmo, o carro voador.

A história chama atenção não apenas pelo feito (o "carro" já existe e transporta pessoas pelo ar), mas principalmente pela forma como Xiong e seus sócios empreendedores chegaram lá. É uma das narrativas mias incríveis de uso do conceito de MVP (Minimum Viable Product ou Mínimo Produto Viável). Ao falarmos do conceito, é muito comum usarmos a imagem da criação de um carro, onde começa-se com um skate, depois um patinete, uma bicicleta, uma moto, até chegar no carro. Derrick e seus sócios seguiram o exemplo quase que literalmente!

A eHang foi fundada há menos de 4 anos, em 2014, com o sonho de criar o carro voador. Mas começou com uma campanha na Indiegogo para levantar capital para um drone pessoal, pilotado através de uma app (sem nenhum "joystick"), e com a capacidade para seguir pessoas (para filmagem de esportes, trilhas, etc).

O produto, chamado Ghost Drone, levantou 800 mil dólares (6x mais do que o esperado) através do site de crowdfunding. Antes mesmo da campanha encerrar, a empresa levantou mais U$10M de VCs.

O Ghost Drone deixou a empresa mais próxima do sonho do carro voador. Como? Na época o principal desafio era criar um drone absolutamente estável, fácil de pilotar programaticamente. Além, é claro, dos desafios de engenharia, produção e atenção em um mercado cheio de concorrentes. A empresa se manteve focada nos desafios que realmente tinha se proposto a resolver. Entre eles, estabilizar e controlar o voo do drone.

Vencida a primeira batalha, Derrick e sua turma se propuseram a resolver outro problema: a coordenação de centenas - ou milhares - de drones voando simultaneamente. Conforme ele mesmo descreve, muitos e muitos drones se espatifaram no processo:  "parecia um filme de Hollywood, com os crashes um atrás do outro". Nem um pouco animador quando o objetivo é voar pessoas dentro de um carro. Mas o time de engenharia continuou trabalhando contra os enormes desafios - um sistema de GPS tradicional tem precisão de 1 a 2 metros, e o que eles precisavam era uma precisão de 2cm.

Em fevereiro de 2017 a eHang quebrou o recorde de maior número de drones voando simultaneamente, com mais de mil drones fazendo o show de luzes do festival Chinês em Guangzhou. Isso tudo controlando os drones de um único laptop (supõe-se que com um bom sistema de redundância :-)). Imagine a comunicação de mais de mil drones, criando imagens espetaculares no céu, sob a interferência de comunicações de 2 milhões de chineses assistindo e postando fotos e mensagens no WeChat! Certamente o feito colocou a eHang mais próxima do sonho do carro: afinal, segurança é prioridade total.

O mundo já viu muitos shows de luzes proporcionados por drones. Mas, segundo Xiong, nenhum deles foi ao vivo. Em 2017, no Superbowl, o show criado pela Intel foi pré-gravado. E em 2018, o show de luzes previsto para a abertura das Olimpíadas de inverno, com 300 drones e pela Intel novamente, foi cancelado - foi usada a versão pré-gravada novamente.

Recentemente, para o Fortune Global Economic Forum, em Guangzhou, a eHang colocou um impressionante festival de cores no ar com 1.180 drones simultaneamente. Indo além, nas últimas semanas, a empresa deu mais um passo importante, criando imagens tridimensionais nos céus. Explico: normalmente os shows de luzes criam imagens com drones voando no mesmo plano, como se fosse uma tela. A eHang agora coordena os drones para voarem de maneira segura em padrões mais complexos, trazendo a noção de volume para as representações visuais. Algo a ver com o carro? Vá pensando aí…

 carrovoador

Em 2016 a eHang mostrou o protótipo do carro voador na CES, em Las Vegas. Seguindo o princípio do MVP, todos os vídeos mostrados eram simples montagens - o produto não existia ainda! O que vi aqui no SXSW foram vídeos reais, com o próprio Derrick e diversas outras pessoas também voando dentro do carro - que nada mais é que um super-drone com capacidade para carregar uma pessoa (futuramente,  2 pessoas). Com autonomia de 20 a 30 minutos de vôo, para cerca de 50km, altitude de até 500 metros e velocidade superior a 100 km/h, o eHANG 184 poderia ser uma mão na roda para fugir do trânsito em São Paulo!

O nome 184 vem de: 1 passageiro, 8 propulsores e 4 braços. São 8 motores elétricos independentes, carregados em apenas 1 hora! Não é necessário nenhum conhecimento de pilotagem aérea - o trajeto do veículo é programado remotamente (lembra o primeiro drone no indiegogo??). A única coisa no painel é um tablet gigante, suponho que provido pela Huawei, parceira da eHang. Ou seja, é um carro autônomo voador.

Com os executivos da empresa indo trabalhar todo dia com os seus próprios veículos, presume-se que se a empresa ainda existir em 3 anos, o produto será extremamente seguro!

Derrick também mostrou o novo "flight command", uma versão moderna do famoso centro de comando da NASA em Houston… Dali operadores podem monitorar os voos e os sensores de todos os veículos - e se necessário comandar um pouso antecipado. Como chegar neste centro de comando para os carros? Na verdade os pequenos drones luminosos hoje já são comandados à distância - mesmo - com voos na China sendo comandados de Londres, em real time.

os próximos passos? Bom, voar pessoas por aí em um veículo autônomo ainda está longe de acontecer nos grandes centros. Mas tanto na China quanto em Dubai, e até no estado de Nebraska, as conversas estão adiantadas. Dubai até já anunciou e testou táxis aéreos autônomos. Os primeiros usos serão específicos - como rotas fixas de turismo e resgate de pessoas. Mas é impressionante onde esses empreendedores chegaram em 4 anos e com 80M de dólares (ambos me parecem pouco para um carro voador!).

Muito aprendizado para nós todos, de aplicação séria de MVP.

No segundo semestre estão prevendo um “global flying tour” em diversas cidades do mundo. Já estou pleiteando São Paulo…

Quanto você pagaria pra escapar do trânsito pelo ar, nem um veículo seguro e não poluente???

 

(*) Leonardo Mattiazzi é CI&T Partner and EVP Global Innovation



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