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Opinião

Bem-vindo a um novo ramo da economia: o Cryptoeconomics

A bolsa de Chicago já aceita a negociação de contratos futuros a partir de Bitcoins. E já há uma tendência entre empreendedores em precificar seus produtos em termos de moeda tradicional e aceitar o equivalente em criptomoedas. Onde isso tudo nos levará?

Cezar Taurion *

Publicada em 03 de janeiro de 2018 às 17h04

Nos últimos meses um tema foi recorrente nas discussões tecnológicas e econômicas: o Bitcoin é ou não uma bolha? Cerca de 98% dos economistas afirmem que sim, é uma bolha. Esta quase unanimidade de especialistas me lembrou a primeira lei de Clarke (Arthur C. Clarke, escritor e inventor britânico), que disse em seu primeiro enunciado: “quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certeza que tem razão. Quando ele diz que algo é impossível, muito provavelmente ele está errado.

Então, será que não estamos olhando na direção errada? Afinal, entender Bitcoin não é fácil, e essa dificuldade é inerente às tecnologias disruptivas, que rompem paradigmas. Quando um novo paradigma chega, é um erro tentarmos aplicar regras antigas, que conhecemos, para tentar entendê-lo. Na minha percepção, Bitcoin e as atuais criptomoedas não vão substituir o dinheiro fiat. O mais provável é o surgimento de uma nova geração de serviços e toda uma nova economia construída em torno das criptomoedas. Estamos vendo o surgimento de um novo ramo da economia: o Cryptoeconomics. Vale a pena ler o relatório “Beyond Bitcoin: the Dawn of Cryptoecnomics” da firma de investimentos Payden&Rygel.

Muitos afirmam que Bitcoin é uma ilusão, pois não tem lastro, a não ser na fé de quem os compra. Na verdade, lastro não é uma necessidade teórica de uma moeda, apenas uma tecnicalidade empírica, cuja principal função é a de servir como restrição às práticas imprudentes de banqueiros e a eventuais investidas inflacionistas de governos no gerenciamento das suas moedas. 

Mas, na prática, moedas aparentemente sólidas que conhecemos hoje, como o dólar americano, também não são uma ilusão? Cerca de 90% dos dólares são puramente abstratos, não existem em forma tangível. Sim, apenas 10% do total de dólares em circulação no mundo existe em forma física (papel e moeda), o restante é virtual e circula pelos sistemas financeiros globais. Além disso, a tentação de fabricar dinheiro pelos governos tem sido irresistível, historicamente. Aqui no Brasil vivemos períodos terríveis de inflações altíssimas e troca de moedas.

Existem algumas diferenças radicais entre criptomoedas e as moedas tradicionais. Por exemplo, as transações realizadas no sistema Bitcoin são registradas em um livro razão que não depende da autoridade de bancos ou governos, mas com a garantia de uma rede de computadores pública que (teoricamente, pelo menos) qualquer pessoa pode participar. Estruturada com base em criptografia, o Bitcoin possui uma rede descentralizada e conta com auditoria contínua, o que é possível graças a uma imensa rede de computadores que realizam o serviço de verificação das transações em Bitcoin. Bitcoin, portanto, pode ser entendido como uma forma de dinheiro digital que não é emitida por nenhum governo ou autoridade central. Seu valor é determinado pelos indivíduos do mercado, tendo como características negociações online, rápidas, baratas e seguras.

Aliás, valor é um conceito relativo. Não é mais do que algo no qual um grupo de pessoas quer acreditar. As primeiras sociedades usavam pedras. Para que as pedras fossem consideradas valiosas para permitir uma "economia", tinha que haver pessoas em número suficiente concordando entre si que pedras tinham valor econômico. Mas a pedra em si tem algum tipo de valor? Não, não vale nada. É claro que as pedras não duraram muito tempo como uma referência de valor. Outros ativos vieram mais tarde, como o ouro. O ouro em si tinha, no início, valor zero. É apenas uma pedra brilhante. Mas, tem uma particularidade: é raro. As primeiras pessoas que encontraram o ouro não tinham ideia de que valia alguma coisa. A razão pela qual o ouro tem valor hoje, é porque um grupo de pessoas acreditou, com base na escassez desse recurso (e outras propriedades como a durabilidade) que isso era bom o suficiente para ser valorizado.

O dinheiro que atualmente usamos não é diferente. O papel em si mesmo tem valor zero, mas o fato de ser emitido por um governo em que confiamos (pelo menos, na maioria das vezes) e que possui reservas em um valor comumente acordado (como o ouro, por exemplo) é uma narrativa na qula todos querem acreditar.

As criptomoedas não podem ser compreendidas se pensamos que o dinheiro tradicional é real, sólido ou "apoiado por" qualquer coisa além da confiança em instituições cuja estabilidade é, na prática, sempre incerta, pois seu valor flutua de acordo com a credibilidade do governo e de sua política econômica. Um exemplo? Em 1946 a Hungria enfrentou aquele que é considerado o pior caso de hiperinflação da história. Em julho daquele ano os preços aumentavam a uma taxa de 195% ao dia. Os preços no país dobravam a cada 15 horas. Para escrever o número que representa a inflação mensal daquela época são necessários 16 zeros. 

Três motivos principais fizeram o poder de compra dos húngaros virar pó naquele ano. Em primeiro lugar, a produção para o consumo estava em um ritmo muito lento, pois o governo havia dedicado todos os seus esforços para financiar a guerra. Este financiamento, diga-se de passagem, só foi possível porque o país recorreu ao maior pecado quando se fala em política monetária: a impressão de dinheiro sem um controle rigoroso. Em 1944, o volume de moeda circulando na economia húngara era 14 vezes maior do que em 1939, quando a guerra começou. E a desconfiança dos cidadãos do país foi o ingrediente final para a mistura que resultou na pior inflação da história. Com medo da guerra, os húngaros controlaram seus gastos e pouparam a maior parte do que ganhavam. Quando a guerra terminou, uma enxurrada de dinheiro inundou o mercado, que não oferecia produtos em quantidade suficiente.

O Bitcoin foi criado, em parte, para enfrentar essa fraqueza histórica. Depois que 21 milhões de Bitcoins forem extraídos, que se estima ocorra em torno de 2140, o sistema não produzirá mais nenhum Bitcoin. Com esse limite, o Bitcoin possui lastro suficiente para poder caracterizar-se como uma moeda deflacionária, isto é, que não será depreciada por um agente externo ao longo do tempo.

Também se fala muito que que "Bitcoin é uma fraude", porque algumas corretoras de criptomoedas operaram mal, como a extinta  Mt. Gox. É a mesma coisa que dizer que "o setor bancário é uma fraude" porque alguns bancos faliram. 

Também acusa-se o Bitcoin de ser usado para comprar e vender drogas! Bem, estimava-se em 2015 que o narcotráfico movimentava 1,5% do PIB mundial e tudo isso sem usar criptomoedas. Também afirmar que Bitcoin é uma pirâmide, esquema Ponzi, não se sustenta. Gostei muito do artigo “Bitcoin Is The Total Opposite of a Ponzi Scheme — Here’s Why”, que esclarece, de forma bem didática, porque Bitcoin não é uma pirâmide.

E, claro, tem a onipresente questão da bolha. Em linhas gerais, uma bolha financeira é a valoração de ativos sem justificativa. O simples fato do Bitcoin ter subido de preço rapidamente não caracteriza uma bolha, apenas a verificação de que não há razões para a alta daquele valor.

É possível detectar uma bolha dentro do mercado financeiro a partir de análises de indicadores de uma companhia de capital aberto, da projeção do seu fluxo de caixas futuro, e se o preço das suas ações está em descompasso com o que seria esperado naquele determinado segmento de mercado. Verificar bolhas em moedas, no entanto, não é tão fácil. O Bitcoin apresentou diversos picos de preço e ajustes em sua história. Houve algumas instâncias de bolha, nesse sentido, sendo naturalmente seguidas de posteriores ajustes. A volatilidade é natural para uma tecnologia nova que ainda estamos aprendendo a usar. Além disso, bolhas sempre surgiram na economia e elas se acomodam posteriormente. O exemplo das tulipas holandesas é emblemática. Muitos comparam a bolha das tulipas com o Bitcoin, mas embora a bolha da tulipa tivesse provocado danos na época, hoje as tulipas fazem parte da economia holandesa. A crise do subprime nos EUA é outro exemplo. Provocou danos no mundo inteiro, mas a economia mundial se recuperou. A bolha da Internet ou das empresas ponto com é outro caso. Desabou muitos investidores, mas gerou empresas como Amazon e Google.

Na verdade, a tecnologia é tão inovadora que ainda não sabemos classificar corretamente o Bitcoin: é uma moeda, um ativo ou uma commodity? Juridicamente, aqui no Brasil, não pode ser considerado uma moeda. Por outro lado, a maioria das classes de ativos é correlacionada ao desempenho de outros mercados. Bem, isso não ocorre com o Bitcoin, que por sua vez carrega características de commodities, mas ao contrário das commodities tradicionais, é invisível. Pela primeira vez há reprodução de escassez no mundo digital, onde abundância é a regra do jogo!  Além disso, o Bitcoin não deve ser visto como uma aplicação, pois não há rendimentos atrelados a ele, sendo que a unidade de Bitcoin é exposta à sua própria variação de preço.

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Diversos anúncios recentes têm dado mais consistência ao Bitcoin.  A bolsa de Chicago já aceita a negociação de contratos futuros a partir de Bitcoins. Outra importante notícia recente foi a manifestação do Alibaba, de que estuda aceitar Bitcoins como forma de pagamento. Espera-se movimento similar pela Amazon. 

Um artigo bem instigante aborda a questão da Amazon e as criptomoedas. Vale a pena ler “Amazon is the biggest threat to bitcoin right now”. O artigo mostra o desafio de grandes varejistas em adotarem Bitcoin. Um deles é a velocidade. A Amazon chega a processar 600 transações por segundo, enquanto Bitcoin chega a 7 e Ethereum a 15. Mas uma criptomoeda, Ripple, chegou a 1500. Talvez Amazon e grandes varejistas não adotem Bitcoin, mas não ficarão de fora das criptomoedas.

A aceitação de Bitcoins, ainda pequena, começa a se disseminar. Por exemplo, o artigo “Who Accepts Bitcoins As Payment? List of Companies, Stores, Shops”  enumera nomes conhecidos como Microsoft, Bloomberg, Etsy, Whole Foods, Expedia e muitos outros. Na prática é um sinal de uma tendência de empreendedores, pequenos e grandes, que precificam seus produtos em termos de moeda tradicional e aceitam o equivalente em criptomoedas.

Este movimento decorre da insatisfação com as taxas de intermediação para a utilização de cartões de crédito e débito, que acabam resultando em custos repassados aos consumidores. Essas taxas, cobradas por operadoras de cartões de crédito, são evitadas com o uso de transações em Bitcoins. Além disso, receber em Bitcoins permite que empreendedores não precisem aguardar semanas para serem remunerados por seus trabalhos, facilitando seu planejamento contábil e o seu fluxo de caixa.

A medida que o conhecimento da moeda se populariza, perde-se o medo e a incerteza de utilizá-la. Com menos dificuldades de acesso ao Bitcoin, mais empresas passam a receber pagamentos via Bitcoin, aumentando o volume de transações, além começarmos a ter mais formadores de opinião esclarecendo o funcionamento da nova tecnologia, e em consequência, gerando maior confiabilidade.

Com o crescimento do Bitcoin, também aumentam as discussões sobre regulação. Regular as criptomoedas pode ser positivo ou negativo. Se a regulação no Brasil seguir o exemplo de alguns países, como Suíça e Japão, demonstrando quais regras se aplicam ou não às corretoras de criptomoedas, isso permitirá maior segurança jurídica e previsibilidade no mercado em expansão. O cuidado a se tomar é não deixar que a regulação restrinja o mercado ao impor regras muito restritivas e custos desnecessários.

Na verdade, com o debate em torno do Bitcoin, demonstrou-se que existe realmente uma maneira das pessoas criarem registros de transações garantidas, sem depender de autoridades externas, como bancos ou governos. Não há como voltar atrás. Ninguém pode prever o futuro, mas é importante reconhecer mudanças importantes quando elas acontecem. O surgimento de uma nova instituição econômica é uma dessas mudanças. Onde nos levará? É a pergunta que devemos fazer.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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