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Opinião

Quem vai capacitar os companheiros de trabalho dos robôs?

Para que tenhamos pessoas aptas a exercer atividades que demandarão mais conhecimento e raciocínio cognitivo, precisaremos ter um sistema educacional adequado à nova realidade

Cezar Taurion *

Publicada em 05 de novembro de 2017 às 17h08

Essa semana li um artigo da "Fortune" que me chamou a atenção. Falava sobre o primeiro robô a obter a cidadania de um país: “ Saudi Arabia's Newest Citizen Is a Robot”. Tudo bem, é muito mais uma jogada de marketing do que realidade, mas sinaliza claramente que os mundos do trabalho e das profissões estão mudando aceleradamente. A evolução e os impactos da Inteligência Artificial não podem ser subestimados. O artigo Why Artificial Intelligence Will Be Fundamentally Different from Human” também nos dá bons insights sobre isso. Daí, resolvi escrever este artigo não, para ser alarmista ou profeta do caos, mas como uma simples provocação. 

As mudanças estão acontecendo e devemos enfrentá-las.  Para mim está claro que uma nova sociedade mundial está se delineando, fortemente baseada nas tecnologias da computação e da Internet. Estas mudanças trarão impacto mais profundo que as demais ondas tecnológicas anteriores, como a revolução industrial. Além disso, sua amplitude e velocidade são únicas na história humana e muito provavelmente seus impactos sociais e econômicos, serão duramente sentidos pela obsolescência rápida de muitas profissões. 

A evolução exponencial da tecnologia vai substituir diversas funções exercidas hoje por pessoas. Tudo o que puder ser automatizado, será. O desafio é que esta mudança, por ser rápida e profunda, tem muitas chances de destruir empregos mais rapidamente do que criar outros. Nas revoluções anteriores, funções que se tornaram obsoletas foram substituídas por outras, também executadas por pessoas. Como a substituição de cocheiros por motoristas. A automação vem sucessivamente eliminando trabalhos, e já vimos algumas funções desaparecerem por completo, como ascensoristas, telefonistas, datilógrafos, etc. A velocidade da revolução que se avizinha vai pegar outra camada da sociedade, até então imune à automação: os “white collars”. E, o que me parece mais preocupante, o sistema educacional não está preparado para capacitar as pessoas para as novas funções que substituirão as que desaparecerem.

O efeito desta revolução será diferente nas diversas economias do mundo. Países com baixo nível educacional, fortemente ancorados em trabalhos de baixa qualificação, têm possibilidades bem maiores de sofrerem mais. Países com alto nível educacional conseguem gerar novas funções mais rapidamente, porque estas novas funções tendem a exigir uma capacitação maior que a média atual. 

O Brasil, portanto, não está em situação confortável. O analfabetismo funcional, mesmo com formados em curso superior é altamente preocupante. O sinal não é mais amarelo, mas vermelho!

Um subproduto desta revolução poderá ser o aumento da desigualdade econômica e social entre países e entre os habitantes de cada nação. Será inevitável, à medida que os avanços nas tecnologias de IA e robótica se consolidam, a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimento bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. 

Como o custo da computação cai consistentemente, ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs.  Cada emprego rotineiro está na mira da automação, e não mais apenas nas linhas de produção, mas em áreas como contabilidade, direito, atendimento aos clientes, etc. 

Um escritório de advocacia em vez de 99% de advogados (alguns seniores e a maioria juniores) será estruturado em poucos advogados especialistas seniores e muitos data scientists, escrevendo algoritmos e mais algoritmos, automatizando a maior parte do trabalho rotineiro, como buscar documentos, pareceres, jurisprudências, escrever petições, etc. Provavelmente se parecerá mais como uma empresa de tecnologia atuando na área advocatícia. Na contabilidade, o mesmo.  A questão é como formar cientistas de dados em tempo suficiente? E o que fazer com advogados, contadores e outras atividades profissionais  que perderão espaço?

Vamos exemplificar analisando um setor econômico como a indústria automotiva. No ecossistema desta indústria (fabricantes, concessionárias, motoristas, seguros, estacionamentos, etc.) os impactos serão significativos. Em vez de fabricar um carro para cada habitante, a indústria fabricará um para dezenas, que serão atendidos em suas necessidades de locomoção por veículos sem motoristas. A indústria de seguros muda, pois a maior parte dos acidentes deixa de ser causada por falha do motorista. Juntando automação com energias alternativas, como energia elétrica, um veículo elétrico autônomo tem muito menos peças móveis, o que diminui em muito a necessidade de manutenção e de oficinas.  Um app substituirá as concessionárias de veículos, já que eles deixarão de ser vendidos, e  passarão a ser alugados. Vai acontecer? Não sabemos. Se acontecer, será no curto prazo? Provavelmente não. Mas é um cenário que temos que discutir. A provocação é, “mas, quando acontecer?”.

O cenário pior seria ter uma elite altamente qualificada e uma grande parcela de empregos na base da pirâmide, como jardineiros e outros que demandam habilidade humanas. O meio, que hoje é a que chamamos classe média, está em risco de substituição. A IA e a robótica podem fazer muita coisa, mas para mim fica claro que muitas funções são e deverão continuar inerentemente humanas, como as que exigem criatividade, inovação, empatia e relacionamento emocional. 

Não visualizo, no curto ou médio prazos (dez a quinze anos), a computação tendo capacidade de lidar com situações inesperadas, como nós aprimoramos ao longo de nossa evolução humana. No mais longo prazo, é uma incógnita. Mas, com certeza, emoções serão 100% humanas. Teremos novas funções como os artigos “Artificial intelligence will create new kinds of work” e “The Jobs That Artificial Intelligence Will Create” demostram. 

Para que tenhamos pessoas aptas a exercer essa atividades, temos que ter um sistema educacional que as prepare. E creio  que ainda não o temos!

Este é o grande desafio que visualizo. Estas novas funções demandam um sistema educacional preparado para capacitar pessoas neste novo contexto. As novas funções são aquelas que requerem mais conhecimento e raciocínio cognitivo. Demandam criatividade e inovação. Uma escola tradicional não incentiva estes aspectos. Ainda vemos muito do modelo do século 19, com alunos sentados ouvindo um professor e fazendo anotações. Ele limita criatividade. 

Sim, este é um desafio: repensar o modelo educacional.

robo Foto Shutterstock

Outra questão que mais cedo ou mais tarde vai surgir: o emprego como conhecemos vai continuar existindo? As relações entre empresas e empregados continuará como hoje? A carga horária será ainda de 40 horas em turnos fixos, como  na sociedade industrial?

Vale lembrar como surgiram as típicas oito horas de trabalho. Vamos voltar ao início da Revolução Industrial. No final do século 18, as fábricas funcionavam sem parar, em regime 24/7. Para tornar as coisas mais eficientes as pessoas tinham que trabalhar mais. A norma era que as pessoas trabalhassem continuamente, entre 10 e 16 horas.  Essa carga horária mostrou-se insustentável para a saúde dos trabalhadores. Então Robert Owen, um reformista social inglês, considerado um dos fundadores do socialismo, começou uma campanha para que essas pessoas não trabalhassem mais que 8 horas por dia. Seu slogan era "oito horas de trabalho, oito horas de lazer, oito horas de descanso." Não demorou muito para que a Ford implementasse, de fato, as oito horas diárias e mudasse os padrões. Portanto, as 8 horas por dia não foram fruto de análises e estudos científicos. Estamos falando  simplesmente de uma norma secular para tornar as fábricas mais eficientes. 

Mas, e quando as fábricas se tornam automatizadas, com robôs e não humanos? Um robô pode trabalhar 24x7. E quando o trabalho é cada vez mais baseado em conhecimento e criatividade, que não tem hora para chegar? Um insight pode acontecer a qualquer momento e não apenas das 9h às 17h...

Com a automação, a necessidade de pessoas trabalhando em tempo integral para atender as demandas da sociedade diminui substancialmente. Isso implica em novas normas e práticas trabalhistas, novas relações entre empresa e pessoas, e vai afetar questões delicadas como aposentadorias e férias. Acredito que iremos caminhar na redefinição do conceito de trabalho e emprego.

Peguei algumas destas provocações e conversei com amigos, executivos de RH de algumas empresas de grande porte. As empresas e as áreas de RH estão realmente preparadas para enfrentar essas ameaças disruptivas? Como e onde buscar talentos, e aumentar a retenção dos talentos para ajudar a empresa no processo de transformação digital e mudanças nos cenários de negócios que pululam por toda a parte?  O próprio RH irá se transformar. As tarefas rotineiras serão substituídas por algoritmos, como em outros setores, e apenas poucos especialistas farão parte do time de RH de uma empresa.

Um agravante no contexto atual no Brasil é a crise econômica e política que faz as empresas a serem pressionadas por resultados de curto prazo, cortando despesas e adotando estratégias de sobrevivência, enquanto processos de mudanças visam mais o longo prazo. Uma frase da Bain & Company reflete bem esse cenário: ”Muitas empresas ainda se concentram muito na redução de custos devido à falta de ideias inovadoras”.

Pelo que observo, as áreas de RH ainda precisam evoluir muito. Muitas delas baseiam seus processos e práticas nos princípios das empresas da sociedade industrial, que são ainda o cerne das organizações. Diante deste cenário transformador, para questionar como será o novo RH precisamos antes questionar como as empresas se adaptarão para sobreviver em um mundo novo e desconhecido. O atual modelo organizacional, hierárquico não mais atende à demanda de velocidade e transformações quase que cotidianas que o novo cenário exige. No novo modelo organizacional surgem novas relações entre empresa e pessoas, e naturalmente, um novo RH.

Temos que discutir o assunto. Matar o mensageiro não vai resolver o desafio. Acredito que a tecnologia não é destino, mas meio para chegarmos a um novo modelo social e econômico. Se será positivo ou negativo, vai depender de nós.

 


(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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