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Opinião

A Transformação Digital vai ocorrer, com ou sem o CIO

Uma TI digital não é a que inibe ou limita a velocidade das mudanças, mas, ao contrário, é a que a impulsiona

Cezar Taurion *

Publicada em 15 de setembro de 2017 às 10h08

O ambiente de negócios está cada vez mais volátil e desafiador. Fazer apenas mudanças não é mais o suficiente. São necessárias verdadeiras transformações impulsionadas pela velocidade exponencial da evolução tecnológica. A instabilidade e a incerteza dos cenários econômicos e as disrupções que surgem nos modelos de negócio estabelecidos e consolidados são as únicas constantes!

John Chambers, que foi CEO da Cisco, disse claramente, em sua última apresentação antes de se aposentar, que em até dez anos, 40% das empresas atuais desaparecerão ou perderão relevância. O fato é que o tempo de vida das corporações está diminuindo. Um estudo do BCG sobre empresas americanas de capital aberto mostrou que enquanto nos anos 70 seu tempo médio de vida era de aproximadamente 60 anos, hoje situa-se no patamar dos 30 anos. O estudo do BCG mostra que já existe uma chance em três de uma empresa não sobreviver nos próximos cinco anos!

Este cenário não é exclusivo de setores que sofrem transformações muito rápidas, como o de tecnologia. Afeta a todos os setores de negócio. Os modelos de negócio estão cada vez menos duráveis. As regras do jogo que permitiram às empresas criarem e capturarem valor durante décadas está em cheque. O jogo está mudando enquanto ainda está sendo disputado. A cada dia vemos alguma novidade ameaçando setores sólidos. Bitcoin bypassando bancos tradicionais. Coursera colocando em risco as tradicionais escolas de negócio. Uber criando ruptura no serviço de táxis, Airbnb no setor hoteleiro...

O que isso sinaliza? Os atuais planejamentos estratégicos deverão ser revistos, para contemplar novos e inesperados cenários e não apenas os cenários conhecidos. Não é uma tarefa fácil olhar o longo prazo e ao mesmo tempo estar preparado para ser ágil e adaptável em um mundo dinâmico e imprevisível. A velocidade das decisões aproxima-se da velocidade computacional. Aliás, isto não é futurologia, e sugiro ler o artigo “Algorithms can make your organization self-tuning”, que mostra como a chinesa Alibaba está se reiventa continuamente. Uma frase do seu CEO, Ming Zeng, é no mínimo instigante: “Never let an MBA near a marketplace that can run itself”!

Como se preparar? Não existem fórmulas mágicas, mas as empresas devem estar alertas aos primeiros sinais de mudança em seu setor, como aparecimento de uma startup disruptiva, que vira de ponta cabeça seu modelo de negócio solidamente estabelecido.

Melhor ainda, é se antecipar! Ser uma empresa sólida e bem-sucedida acaba criando uma lentidão de movimentos, pois as transformações ameaçam o modelo existente e que fez a empresa ter sucesso até o momento.

As reações às mudanças são grandes, pois o modelo mental dominante passa a ser um filtro que impede transformações avançarem. A empresa também não pode ser prender a uma estratégia fixa, mas adapta-la à dinâmica do ambiente.

Os modelos clássicos de planejamento estratégico funcionam muito bem em cenários estáveis, não sendo adequados a ambientes instáveis e de transformações rápidas. As crenças solidificadas ao longo de décadas talvez não sejam mais verdadeiras. Devem, sim, serem questionadas. Os atacantes não surgiram de dentro das indústrias e não levaram em conta estas crenças. Por exemplo, Skype e WhatsApp não consideraram a tradicional métrica de ARPU (Average Revenue Per User) da indústria de telecomunicações. Criaram outro modelo de negócios.

Outro aspecto essencial é se reinventar continuamente. A acomodação em uma zona de conforto torna-se perigosa diante de um cenário dinâmico e imprevisível. Por exemplo, a AWS (Amazon Web Services) questionou “e se não precisar mais ter um data center? ”. Criou um bilionário negócio de Cloud Computing que está destruindo valor da atual indústria de hardware. O mesmo está acontecendo com a indústria de software, com a transformação do modelo tradicional de venda de licenças pelo modelo de subscrição, SaaS.

Outros questionamentos? Que tal a crença na lealdade dos clientes? Porque ser fiel, se cada cliente, com acesso fácil à tecnologia, como smartphones, redes sociais e Internet, tem condições de escolher em tempo real ofertas melhores que a sua empresa oferece e saber a opinião de seus amigos e facefriends?

Como estas mudanças afetam seu negócio? Observamos que as inovações que ocorrem em modelos de negócio trespassam os limites da indústria original para a qual foi criada. Por exemplo. a Airbnb inspirou o Uber, que inspirou o Peerby. São a ponta do iceberg da economia do compartilhar (shared economy) que vai abalar grande parte dos modelos de negócio atuais. Que mudanças seu negócio vai sofrer se a sociedade sair do modelo de privilegiar propriedade, o ter e possuir, por acessar e usar, compartilhando um objeto que passa a maior parte do tempo subutilizado? Ou se sair da busca pelo “low cost” para “no cost”?.

transformacaodigital

Como TI deve se inserir neste contexto? Como tecnologia passa a ser o cerne das mudanças transformadoras, a área de TI tem a chance de se tornar um setor extremamente importante e relevante para a estratégia, claro, se atuar no patamar estratégico, ou ficar relegada a segundo plano. Se não responder na velocidade requerida pela mudança. A transformação digital vai ocorrer, com ou sem a atual área de TI. É uma questão de risco versus oportunidade.

A primeira coisa é entender claramente o que significa ser digital, em uma transformação digital e nivelar e alinhar as perspectivas da empresa quanto a “ser digital”. Não é tecnologia, mas envolve tecnologia.

Uma definição que representa melhor é “uma nova maneira de pensar e fazer negócios”. Isto inclui reexaminar como o negócio é feito hoje em sua indústria e entender onde estarão as novas fronteiras de valor. Por exemplo, até que ponto a combinação de apps, shared economy, Internet das coisas e impressoras 3D afetarão seu negócio em alguns anos? “Em nada ou em pouca coisa” talvez seja uma resposta simplista demais. Creio que devemos pensar melhor.

O próximo exercício é como entender como “ser digital” afetará seu relacionamento e engajamento com seus clientes, que busacam cada vez mais empoderamento e autoatendimento. Oferecer interatividade, flexibilidade, agilidade e autossuficiência tornam-se mais importantes que tentar prendê-los em programas de fidelidade. E, claro, construir uma arquitetura tecnológica que permita o negócio ser veloz, ágil e adaptável. Manter os processos e práticas de governança  dos tempos mais estáveis não funciona mais. Entregas contínuas devem fazer parte do seu mindset e não mais priorizar regras de compliance em detrimento do negócio.

Veja bem, não é deixar compliance de lado, mas adaptar-se ao dinamismo do cenário de negócios. A própria TI deixa de ser provedora exclusiva de aplicações, acostumada a dizer “não”, para ser o pilar que permite a criação de novas aplicações, inclusive em tecnologias que ela não domina. Ela não é mais a provedora da tecnologia, mas usuária dela para atender aos clientes que estão lá fora, gerando receita para a companhia.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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