Recursos/White Papers

Opinião

Antifragilidade digital: porque só mudar ou resistir não são as respostas

Ser um antifrágil digital é, ao invés de resistir às mudanças, enfrentá-las, ser flexível e aprender rápido. É tornar-se mais forte, melhorar com os desafios, ser mais resistente ao imponderável

Mauro Oliveira *

Publicada em 14 de setembro de 2017 às 10h37

Em um quadro de intensas mudanças, a incerteza é a única constante. Nesse cenário, costumamos nos jogar para dois extremos: ou nos transformamos completamente ou resistimos no antigo formato (o bom e velho “eu sempre fiz assim e deu certo”). Essa introdução serve para quase tudo na vida, mas quero falar aqui sobre esse contexto do ponto de vista da transformação digital.  

Hoje, as empresas vivem um momento cheio de dúvidas (ser a maior ou a mais desejada, custo ou qualidade, produto ou serviço…). Tudo está sendo questionado por um motivo muito simples: nunca mudamos tanto, tão rápido. Quando nos adaptamos a uma novidade, outra já nos ultrapassou. A velocidade é a grande mudança.

Para empresas avessas à riscos e acostumadas a uma certa estabilidade, isso é paralisante. Mas não é possível ficar na janela acompanhando as transformações apenas como espectador. Pequenos e grandes negócios precisam encontrar uma forma de se adaptar ao mundo digital, no qual as cadeias tradicionais se desfazem rapidamente, previsões caem por terra, lugares antes estabelecidos são questionados.

Como fazer isso? A minha resposta estratégica é: as empresas precisam desenvolver a antifragilidade. Esse neologismo proposto por Nassim Nicholas Taleb, ensaísta e pesquisador libanês radicado nos Estados Unidos, é perfeito para este momento. O antifrágil é o exato oposto da fragilidade e nunca um sinônimo perfeito de resiliência ou robustez. Ele seria a capacidade de resistir aos choques e aprender com eles, ficando ainda melhor. Em um exemplo banal, seria um vaso que, ao cair no chão não apenas continuaria inteiro, mas ficaria mais forte e “aprenderia” a reconhecer o que o derrubou para não cair novamente em uma situação semelhante.

Trazendo esse exemplo para a questão da transformação digital, precisamos entender ainda que a cada dia a causa da queda será menos previsível. A todo momento as empresas são e serão surpreendidas por movimentos, lançamentos, novos players, tendências de consumo. O que vai diferenciar quem continua no jogo e quem vai ficar obsoleto será a capacidade não apenas de resistir ao choque, mas de se adaptar e aprender rápido para garantir entregas de valor ao cliente constantemente.

Ser um antifrágil digital é, ao invés de resistir às mudanças, enfrentá-las, ser flexível e aprender rápido. É tornar-se mais forte, melhorar com os desafios, ser mais resistente ao imponderável.

Tudo novo, mas nem tanto
Não é novidade que ter velocidade, experiências centradas no consumidor e decisões estratégicas baseadas em dados é fundamental para qualquer empresa que pretenda ser inovadora. Vemos hoje, em uma ponta, as organizações que já nasceram digitais e, por isso, conseguem criar produtos e experiências surpreendentes com muita rapidez. Na outra, as companhias slow by design - usando um termo de Eric Schmidt, CEO do Google - que precisam modificar suas estruturas planejadas para a previsibilidade e a aversão ao risco. No meio, um consumidor cada vez mais exigente e empoderado.

Mas ser veloz não é só sobre ser o primeiro a partir. É ser o primeiro a chegar com fôlego para mais uma rodada. Ou seja, a velocidade está intrinsecamente ligada à capacidade de aprender e a agilidade de corrigir rumos. E só fará isso quem estiver apto a, verdadeira e humildemente, conhecer seu cliente. Não há mais espaço para “adivinhar” o comportamento do consumidor para criar uma solução gigantesca com a pretensão de atender a todas as suas necessidades de uma só vez. Esse processo é lento, ineficiente e custoso.

O momento é de entender profundamente perfis e hábitos e resolver problemas de forma mais ágil, desenvolvendo a habilidade de medir resultados e melhorar a entrega continuamente, para sair mais fortalecido a cada interação. Ou seja, depois de descobrir e entender as necessidades que precisam ser atendidas, desenvolver o produto ou serviço e testá-lo rapidamente, aprimorando-o ininterruptamente à medida que novos dados vão sendo gerados e analisados.

agilidade

Da demanda do cliente ao resultado ágil
Para mim, que vivo diariamente o desafio de criar produtos interessantes e relevantes junto aos nossos clientes, essa linha de pensamento antifrágil está intimamente ligada ao “menos software”, isto é, ao processo de focar no desenvolvimento apenas do que atender à necessidade e resolver o problema do cliente, sem perder tempo com funcionalidades que não gerarão valor na experiência do usuário. Isso porque, quanto mais funcionalidades você pretende implementar, mais código é necessário, logo, mais complexas serão a aplicação e a manutenção. Ou seja, mais pesado você fica.

Partindo da demanda do cliente, geralmente com detalhamento de uma extensa lista de funcionalidades, sempre temos que nos perguntar qual é a real dor que precisa ser resolvida. A partir daí, apostando na ideia de ‘menos software’, pode-se repensar o problema complexo, eliminar o que não for absolutamente fundamental para atingir a solução desejada e, assim, resolvê-lo de modo mais eficiente.

Além de facilitar e agilizar o desenvolvimento da solução, esse modelo reduz a quantidade de código necessário, o que simplifica o gerenciamento, além de facilitar a adaptação às mudanças de rota que serão inevitáveis em tempos velozes como os que experimentamos. E, em vez de se preocupar com problemas futuros a serem resolvidos, as equipes que se utilizam da filosofia do menos software se concentram em lidar com os problemas de hoje e, assim, são mais eficientes.

Na mesma linha, entra em cena o conceito de produto mínimo viável (MVP, na sigla em inglês). Ligado diretamente à proposição de valor, o MVP é um produto que gera valor para o cliente, porém, desenvolvido com o menor número de recursos no menor tempo possível. Um MVP apresenta três características principais: valor suficiente para que se comece a utilizá-lo, benefícios suficientes para atrair e reter usuários iniciais e um ciclo de feedback que vai orientar futuros desenvolvimentos.

Ou seja, lançada uma primeira versão, começa um ciclo de aprendizado - a partir dos retornos e novos dados - para o lançamento de uma segunda versão, e assim por diante. Portanto, não se trata simplesmente de uma lista enxuta de funcionalidades, mas de um produto acabado, de valor, capaz de oferecer uma experiência completa ao cliente de ponta a ponta - ainda que deva ser melhorado continuamente.

Então, já que a previsão é praticamente impossível, a adaptação deve ser constante. Isso é ser antifrágil: prever necessidades, testar logo, falhar cedo e aprender muito rápido para, quando preciso, corrigir rotas. Como cita Nassim Nicholas Taleb no seu livro Antifrágil: "Para tirar vantagens da antifragilidade, você não precisa entender as oportunidades que você vê, apenas saber quando aproveitá-las."

Como fazer isso?
Apenas adotar metodologias ágeis de desenvolvimento de softwares não é a resposta para essa questão. A antifragilidade exige uma profunda mudança cultural de toda a empresa, ou seja, uma verdadeira transformação digital. Este momento do mercado requer das empresas um comportamento altamente disruptivo, um modelo de operação inteiramente novo. É necessário abandonar velhos comportamentos e adotar a velocidade, a agilidade, a inovação e o pensamento enxuto como mantra em todas as áreas. Mas é preciso, principalmente, perder o medo de errar e de encarar os problemas. Só assim é possível testar mais, aprender mais rapidamente e renascer cada vez mais forte, mais antifrágil.

 

(*) Mauro Oliveira é Vice-Presidente para o Brasil e América Latina na CI&T

 



Reportagens mais lidas

Acesse a comunidade da CIO

LinkedIn
A partir da comunidade no LinkedIn, a CIO promove a troca de informações entre os líderes de TI. Acesse aqui