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Opinião

Lance o MVP o mais rápido possível

Não tenha receio de mudar de rota. Muitas vezes não é fácil aceitar que a ideia original não deu certo. Mas é preciso

Cezar Taurion *

Publicada em 03 de setembro de 2017 às 17h55

No dia a dia com startups nos defrontamos com alguns desafios que, embora aparentemente simples, tornam-se barreiras quase intransponíveis. Uma startup, embora seja uma empresa ainda embrionária, demanda decisões difíceis, que muitas vezes fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Uma delas é dilema do MVP postergado. O MVP é o conceito de Minimum Viable Product e tem por objetivo testar a hipótese que inicialmente disparou a ideia da startup. Provar que ela tem a solução para um problema. Portanto, quanto mais cedo o MVP, ou o protótipo, estiver nas mãos de quem decidirá se a ideia é boa ou não - ou seja, os clientes -, melhor. Mais cedo você terá feedbacks. Indiscutivelmente, o MVP não precisa ser perfeito. Postergar um MVP burilando-o, inserindo mais uma feature aqui e outra ali, só atrasa a validação da hipótese.

O engraçado é que essa discussão é bastante comum nas mentorias que participo. Muitas e muitas vezes os fundadores da startup postergam o lançamento, esperando adicionar mais uma facilidade. Querem um produto perfeito! Mas um MVP não é um produto completo, apenas o primeiro passo da jornada da empresa. Sempre recomendo que não atrasem o lançamento do MVP, resistam à tentação de adicionar mais e mais features. O argumento básico que uso é que você não sabe que features deverão ser adicionados, pois você não tem feedback de clientes, apenas pressupostos. 

O importante é que o MVP seja lançado o mais rápido possível. Quanto mais cedo os clientes o tiverem em mãos, mais cedo você terá feedbacks. Feedbacks são importantes pois podem levar a startup a se modificar.

Certa vez, os fundadores de uma startup argumentaram que queriam usar o MVP para alcançar o máximo de mercado potencial, para terem uma ideia melhor de qual daria a resposta mais positiva. Bom argumento, mas ele não resiste ao fato de que sem saber o que cada mercado demandaria realmente, os recursos incluídos não necessariamente satisfariam esses mercados. Por outro lado, o MVP demoraria muito para ser lançado, ficaria obeso e de difícil depuração. Também haveria excessiva dispersão de mercado, e as análises estatísticas seriam de pouco valor. No fim, se convenceram que seria melhor focar um primeiro mercado mínimo, para analisar os resultados e, a partir dessa análise, evoluir o serviço para os demais.

Outra discussão curiosa aconteceu porque o fundador da startup idolatrava Steve Jobs e queria usar o perfeccionismo adotado pela Apple. Mas, falando sério, vamos esquecer a síndrome de Steve Jobs. A Apple era perfeccionista quando já era uma empresa bilionária. O MVP do seu primeiro produto era tosco

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Vamos cair na real. Se você não tem muito dinheiro e muita gente competente do seu lado, não seja perfeccionista como Jobs. Faça o MVP que você puder fazer no momento. O caso do DropBox também é exemplo de como validar uma hipótese. Vale a pena ler o texto “How DropBox Started As A Minimal Viable Product”. Leia também “How do they expand their business with a MVP? - Airbnb, Twitter, and Dropbox”. E não fique incomodado porque seu MVP é simples. É para ser assim mesmo.

Outro fundador tinha receio de que seu MVP falhasse. Cheguei a dizer a ele que, com certeza, iria falhar! Mas, se ele não suportasse falhas, não deveria entrar no negócio de startups de tecnologia. A ideia ou hipótese inicial nem sempre é validada, e portanto, terá que ser modificada, às vezes drasticamente. Quando a Apple lançou o Mac foi para concorrer com o IBM PC e não para ser “desktop publishing computer”. O fracasso na competição com a IBM e os feedbacks dos usuários que começaram a usar o Mac com o PageMaker para trabalhos de editoração é que levaram a Apple a mudar seu foco. 

Já que falamos em mudança de rumo, vamos derrubar o mito que uma startup de sucesso é aquela que parte de uma ideia genial de alguém que convence investidores dessa genialidade e, numa trilha reta e meteórica, chega ao sucesso. A verdade é que, muitas vezes, a jornada de uma startup é uma linha em zig zag, com mudanças drásticas de produto e modelo de negócio. O artigo “6 Companies that Succeeded by Changing Their Business Model mostra alguns exemplos de empresas bem conhecidas que tiveram que mudar seus modelos de negócio para chegarem ao sucesso, como PayPal, Google e Facebook.

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Não tenha receio de mudar de rota. A jornada, como os Beatles disseram, é uma “long and winding road that leads to your door”, tempestuosa e difícil. Seja resiliente e perseverante. É melhor mudar de rota do que desaparecer. O mercado da tecnologia é, ao mesmo tempo, uma fantástica terra de oportunidades e um mundo cruel. Se o seu produto ou serviço não "pega" e o dinheiro não entra, estudar as causas que levaram ao fracasso é importante, e sugiro uma análise detalhada no Startup Graveyard. Falhar faz parte do processo de aprendizado. Mas, antes de falhar, valide se uma mudança nos planos originais de sua ideia não seria uma boa alternativa.

Não é fácil aceitar que a ideia original não deu certo. Para fazer uma mudança drástica nos planos originais é necessário ter consciência dessa necessidade. É difícil, pois você vai ter que convencer os atuais investidores que o caminho não é mais esse que você tinha proposto. Talvez as pessoas que estejam trabalhando na sua startup não fiquem satisfeitas. Enfim, requer coragem e perseverança. Mas muitas vezes, dar um passo atrás é necessário para pegar impulso e ir em frente.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

 



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