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Opinião

Ingredientes digitais estão à procura de chefs inovadores

A Quarta Revolução Industrial exige o aparecimento de novos chefs com uma mentalidade diferente, experimental, colaborativa, disposta a tentar o novo, ousar, errar e acertar até que revelem combinações que agradem ao paladar moderno

Marcos Semola *

Publicada em 11 de julho de 2017 às 13h16

Estive reunido na manhã de 5 de julho com dezenas de executivos no evento do CIO Perspectives, da IDG Network Brasileiros, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O tema do encontro era inovação e Transformação Digital e a agenda contava com reconhecidos especialistas no assunto que fizeram suas apresentações e foram sucedidos por um painel. Eu era o terceiro a me apresentar, depois do Cezar Taurion e do Luiz Vianna, ambos experientes pensadores do futuro. Por isso, enquanto os assistia, refletia sobre a proposta de valor original que eu havia planejado entregar à audiência. A medida que o tempo passava, notava grande similaridade entre o que havia me proposto a comunicar e o que a plateia já estava recebendo pelas vozes de ambos.

Foi quando me dei conta de que estava sofrendo uma ruptura similar à que estamos vendo acontecer com os modelos de negócio tradicionais. Meu modelo de apresentação já não faria sentido e pouco valor agregaria se eu o me mantivesse fiel ao plano original. Imediatamente e, como todo bom gestor atento aos acontecimentos e ao contexto, iniciei um exercício mental procurando ligar os pontos do que havia assistido para então pensar em um plano B.

Taurion, como de costume, foi direto ao ponto. Trouxe evidências dos efeitos dos vetores digitais no mercado de trabalho, indicando a velocidade da mudança nos hábitos de consumo. A velocidade de disseminação das tecnologias, especialmente dos dispositivos móveis. A nova composição das potências econômicas mundiais comparando 2006 e 2016. Uma década de evolução, suficiente para tirar 5 empresas ancoradas em modelos de negócio e indústrias tradicionais como ExxonMobil, GE, Citigroup, BP e Shell, da lista de empresas mais valiosas do mundo, para dar lugar a 4 novos negócios digitais, especificamente negócios de software.

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O maior choque viria com a confirmação de que a Tesla, empresa jovem responsável pela revolução do automóvel elétrico, teria valor de mercado maior do que a velha Ford, de acordo com o The Wall Street Journal. Enquanto isso, vimos despencar o valor de mercado de antigas marcas de sucesso no varejo físico tradicional, sinal mais do que suficiente de que algo muito profundo está acontecendo e em uma velocidade inimaginável!

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Luiz Vianna resolveu voltar no tempo e contar de forma holística a evolução que começou com a primeira Revolução Industrial, entre 1760 e 1840, que introduziu a mecanização, a partir de uma sociedade agrária. Migramos do campo para as cidades. Depois a segunda revolução, entre 1870 e 1940, provocou mudanças profundas na vida das cidades, com as linhas de produção e a chegada da eletricidade. Em seguida a terceira revolução industrial que introduziu a computação e a automação entre 1960 e 2015. E finalmente agora, a Quarta Revolução Industrial,  chega transformando física, biológica e digitalmente a sociedade.

Fisicamente, por exemplo, pelas mãos dos veículos autônomos, a robótica, a impressão 3D, os drones e novos materiais em geral. Biologicamente pelas mãos de novos métodos diagnósticos, tratamentos alternativos e a própria evolução da engenharia genética. Digitalmente por conta da Internet das Coisas, do Blockchain, da Inteligência Artificial e tantas outras que ainda estamos criando.

Se analisarmos as características de todas essas revoluções, seus agentes transformadores e seus efeitos, veremos com maior nitidez essa que convencionamos chamar de Sociedade Exponencial. Uma ruptura temporal provocada pelo salto evolutivo da tecnologia associado à criatividade sem limite dos empreendedores que estão tirando a sociedade do eixo e provocando rupturas econômicas, sociais e comerciais sem precedentes.

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Vianna fez bom uso da frase de Henry Ford que dizia que se houvesse perguntado aos clientes o que eles queriam, teriam dito que queriam um cavalo mais rápido. Sinal de que é importante compreender o ‘job do be done’  ou o ‘problema a ser resolvido’. Mas, no momento de pensar em uma solução, também é preciso ousar, abstrair-se de preconceitos, padrões e velhos hábitos para se permitir pensar no novo, no nunca antes experimentado ou mesmo considerado. Em um processo criativo, permitir-se esse tipo de liberdade fez e sempre fará a diferença entre o previsível e o inusitado.

Foi justamente pensando nos desafios desse novo ambiente fértil, cheio de novas tecnologias inovadoras e acessíveis, que encontrei meu caminho para redesenhar, ‘on the fly’, a palestra que havia planejado originalmente, e transformá-la em uma nova proposta de valor, quase uma ‘pivotagem’, que pudesse se somar ao que os demais já haviam apresentado.

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Usando a culinária como analogia, seria como se o paladar dos nossos consumidores tivesse se alterado repentinamente e eles não mais estivessem satisfeitos com os velhos produtos e serviços que estávamos habituados a produzir e entregar. Como se esses mesmos consumidores estivessem encantados com o potencial das novas tecnologias, quase imimagináveis há poucos anos, mas que estão oferecendo agora uma experiência de consumo surpreendente, futurista, atraente. Mesmo que ainda em pouco volume e com casos reais de sucesso em poucas indústrias, se mostram revolucionárias o suficiente para despertar um movimento generalizado de entusiasmo por parte dos consumidos e medo por parte dos fornecedores.

Acontece que o medo costuma produzir duas reações possíveis, a reação instintiva de proteção e, por vezes, contra-ataque, ou a reação da paralisia, do congelamento ou mesmo da negação do fato. Estamos falando das pessoas, os líderes que estão ativos e à frente das empresas que vivenciam essa passagem do negócio analógico para o digital.

 “Os antigos gestores precisam de um novo mindset ou precisam dar logo lugar aos mais novos.”

Todo mundo está falando de inovação. Todo mundo está lendo sobre rupturas geradas por novos modelos de negócio. Todo mundo está acompanhando casos reais em que o Golias se ajoelha diante de Davi. É a realidade. Entretanto, antigos gestores, mesmo inclinados a reconhecer o momento inusitado, seguem sem reagir à altura. E não o fazem por um conjunto de razões. 

Não o fazem por ainda estarem aprisionados no antigo e, até então, bem-sucedido modelo de negócio. 

Não o fazem por que lhes falta energia para jogar quase tudo fora e ter que se reinventar. 

Não o fazem por não dominarem os novos vetores digitais, e isso lhes coloca em uma zona muito desconfortável. 

Não o fazem simplesmente por não acreditarem na possibilidade de serem engolidos antes de já não mais estarem no comando. 

A todos os antigos gestores - e isso nada tem a ver com idade - sugiro buscar jovialidade mental e entusiasmo para construir um novo pensamento, ou então, assumir logo sua inércia e dar lugar para os que estão aptos a conduzir sua empresa através da trilha da transformação digital.

 “A luz elétrica não surgiu de melhoramentos contínuos das velas.”  Oren Haran. 

É o efeito de uma espécie de entressafra profissional. Um período intermediário entre uma safra e outra de profissionais ativos e líderes em suas organizações que ainda carregam consigo vícios, conceitos e modelos do passado que funcionaram muito bem até agora, mas que estão sendo desconstruídos e colocados à prova pelos consumidores e a sociedade em geral. Enquanto isso, vemos os jovens consumidores, iniciando sua vida economicamente ativa, querendo algo novo, algo nunca antes experimentado e em um formato nunca antes cogitado pelo velho gestor. 

É como se num piscar de olhos surgissem dezenas de novos ingredientes na bancada da cozinha, disponíveis para velhos chefs cozinheiros. Chefs com muito lastro, muito fundamento, é verdade, mas que, por mais criativos que possam querer ser, caem na armadilha da força do hábito e da resistência natural em não abrir mão dos modelos de sucesso de décadas que agradaram o paladar da clientela por um longo período.

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Nesta Quarta Revolução Industrial a sociedade demanda a reciclagem de velhos chefs abertos à ela, mas principalmente o aparecimento de novos chefs com uma mentalidade diferente, experimental, colaborativa, disposta a tentar o novo, ousar, errar e acertar até que esse laboratório de misturas possa revelar combinações nunca antes imaginadas e que não só agrade ao paladar moderno dos consumidores, mas que também permita a descoberta de novas formas de atender ao ‘job to be done’ de cada consumidor.  

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Sobre o ecossistema empreendedor e inovador das startups, de onde novos chefs estão surgindo e novas receitas que misturam múltiplos vetores de Transformação Digital estão nascendo, eu falarei no próximo artigo.

  

 

(*) Marcos Semola é executivo de Tecnologia da Informação, especialista em Governança, Risco e Conformidade,  professor da Fundação Getúlio Vargas, escritor, palestrante, VP Membro do Conselho de Administração da ISACA, VP de CyberSecurity do Instituto SmartCity Business, diretor do Founder Institute Rio,  mentor de Startups e investidor Anjo. 



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