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Opinião

Por que a TI não é mais TI

Seus processos e modelos de governança, sua maneira de desenvolver e entregar sistemas, estão sendo transformados

Cezar Taurion *

Publicada em 13 de maio de 2017 às 19h05

Que as empresas estão sendo ou serão afetadas pela Transformação Digital não se discute mais. Todo dia vemos uma notícia de como essa transformação está afetando as corporações.

Recentemente o CEO global da Coca-Cola, James Quincey, afirmou que a Era Digital está tirando vendas da empresa. Segundo ele, os consumidores estão comprando cada vez mais pela Internet, passando mais tempo em apps móveis e recebendo mantimentos em casa. E isso está abalando a Coca-Cola de modos surpreendentes. Quando os consumidores deixam de ir ao shopping e passam a comprar roupas pela Internet, também deixam de comprar Coca-Cola em uma máquina de venda automática ou na praça de alimentação. Uma frase dele é emblemática: ”a tecnologia digital está mudando o comportamento das pessoas. Isso afeta outras categorias que não são o principal motivo de sua ida ao shopping”.

A prioridade do CEO da Coca-Cola agora é transformar a empresa em um vencedor da Era Digital, em vez de outra vítima.

A mudança de hábitos afeta todos os setores. Aqui no Brasil, o setor bancário é um exemplo. Os canais digitais passaram, de 2013 até o fim de 2016, de 45% para 57% do total de transações feitas no sistema bancário. Em 2013, das 45%, apenas 4% eram feitas por dispositivos móveis. Em 2016, das 57%, 34% já eram móveis, ultrapassando as feitas por laptops e desktops. Mudança em curtíssimo espaço de tempo!

Com maior ou menor intensidade, todos os setores serão afetados. Quanto mais digitalizado o produto, maior será o risco de passar por uma ruptura em seu modelo de negócios. Mesmo setores regulados sofrerão com novos entrantes.

O debate fundamental, portanto, passa a ser a magnitude deste impacto em cada empresa ou setor de negócios.

Os CEOs, e obviamente os CIOs, já que a  tecnologia está no cerne das mudanças, devem questionar se o atual modelo de negócios continuará válido no mundo digital ou se será necessária uma mudança significativa na natureza de como a empresa faz negócios. Devem também questionar se a atual estrutura organizacional estará adequada ao mundo digital e qual a velocidade com que estas mudanças deverão ser implementadas.

Nas conversas com muitos executivos fica claro que alguns já estão conscientes da necessidade de mudanças. O que não está nítido é por onde e como começar. Uma mudança desta magnitude e complexidade envolve toda a organização, e a liderança da digitalização dos negócios deve estar com o CEO. Sem comprometimento da liderança, pouca coisa será realmente mudada.

O que a liderança da organização precisa fazer? A primeira ação, e imediata,  será incluir a estratégia digital nas estratégias de negócio, em todos os aspectos do negócio, dos canais e processos, ao modelo de operação e cultura. A estratégia digital dissociada da estratégia de negócio não existe. A transformação digital não é uma ação isolada, de alguma área especifica da empresa. Esta ação significa envolver diretamente o CIO nas estratégias de negócio.

Mas muitos CIOs não estão preparados para assumir este papel. E esse é talvez o maior dos desafios. Participo ativamente de vários eventos com CIOs, tenho contato com algumas centenas de executivos e observo que existe uma parcela significativa de CIOs ainda muito direcionados para infraestrutura. Este perfil não é adequado para promover a transformação digital com o sucesso desejado, e tenho dúvidas se todos os CIOs com essa característica conseguirão cruzar a ponte para exercer um papel mais estratégico, voltado a negócios.

O perfil do CIO de uma empresa digital é diferente do atual e o fato deles estarem ocupando esta cadeira não é garantia de que permaneçam nela no futuro. A própria TI não é mais TI. TI não é mais um setor operacional que acelera os processos existentes, como foi nos anos 80, 90 e 2000, e ainda tem sido em muitas empresas. Agora, deve estar totalmente integrada ao negócio. Aliás, o negócio não existe mais sem tecnologia digital. Sem a “nova TI”, as portas não abrem, os aviões não voam, as filas se acumulam e você não pode sequer pegar um café.

A TI deve deixar para trás a imagem de ser apenas um departamento ou serviço operacional. Deve começar a exercer uma influência significativa sobre o que e como as organizações vão operar. A TI deixa de ser uma área facilitadora, para ser parte integrante do negócio. Digital passa a ser o coração dos negócios.

Infelizmente, a realidade nos mostra que muitos CEOs e demais executivos ainda olham TI como operacional. Muitos deles quase não têm contato sistemático com os seus CIOs. Entretanto, as empresas, qualquer que seja seu setor de indústria, sentirão em maior ou menor grau os efeitos da digitalização. Não reconhecer o impacto da Transformação Digital é escolher ser vítima, e não ser vencedor.

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Os CIOs, sabedores dessa ameaça, têm obrigação profissional de alertar os demais executivos e principalmente seu CEO a distância de qual sua empresa está do epicentro desta transformação. Devem agir de forma proativa e fomentar o debate com os executivos sobre este tema. Promover debates e sessões de inspiração de como a sua empresa será afetada e qual a magnitude desta mudança.

A TI, por sua vez, não vai passar incólume pela Transformação Digital. Seus processos e modelos de governança, sua maneira de desenvolver e entregar sistemas, serão transformados. O conceito ágil vai se tornando o novo modelo mental de operar TI.

A TI deve assumir um “espírito digital”, que é pensar e agir como uma empresa digital, e não como um departamento burocrático,preocupado com aderência às regras de compliance, relutante às inovações. O novo modelo de TI necessita muito mais tolerância a riscos e adoção de conceitos como “fail fast”, hoje uma heresia no pensamento de muitos profissionais e executivos de TI.

O próprio ecossistema de fornecedores da TI está em transformação. Os principais fornecedores de serviços e produtos de hoje não serão necessariamente os mesmos daqui a alguns anos. A maioria das inovações surge de startups e, portanto, o CIO terá que lidar com um ecossistema muito mais fragmentado que o atual.

O CIO da empresa digital será avaliado não apenas pelo básico, o manter a “casa das máquinas”, mas pela sua habilidade em aconselhar e conduzir a empresa na sua transformação.

A TI não será um centro de custos a ser podado, mas um parceiro estratégico, ajudando a desenhar e entregar soluções que gerem novas receitas.

O CIO dessa “nova TI” será  realmente estratégico. Um executivo que estará no mesmo nível decisório dos demais C-level e que não os tratará como seus clientes, mas como parceiros em busca de um objetivo comum. O cliente do CIO estratégico é o mesmo dos demais C-level, os que estão lá fora, comprando os produtos que sua companhia vende.

O CIO estratégico ajuda a desenhar as estratégias da corporação e não apenas fica em standby aguardando que as estratégias sejam definidas e que as ações operacionais lhe sejam designadas.

O CIO estratégico atua junto ao CEO e não apenas fala com ele pontualmente. Afinal, o CEO está no cerne das decisões estratégicas e, portanto, se a empresa considera que a tecnologia é estratégica, o principal parceiro nestas discussões deve ser o CIO.

O CIO estratégico é, portanto, aquele que a empresa considera seu principal estrategista digital.

Dentro de 10 a 15 anos, praticamente todas as empresas serão transformadas pelo avanço exponencial da tecnologia, muitas delas consideradas ficção científicas até a poucos anos.

Fazer parte desta jornada, fazendo ela acontecer na empresa, é uma oportunidade única na vida profissional de um CIO.

Porque desperdiçá-la?

 

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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