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Opinião

O crime já não está tão seguro por trás do Bitcoin

Se há dois anos, muitos se vangloriavam do total anonimato proporcionado nas transações com criptomoedas, hoje esta certeza não é mais absoluta

José Antonio Milagre *

Publicada em 11 de maio de 2017 às 17h18

A descentralização do sistema das criptomoedas tem levantado uma série de desafios acerca da possibilidade utilização do sistema por cibercriminosos, notadamente em questões envolvendo lavagem de dinheiro. Alguns países do mundo, aliás, partiram para a regulamentação especifica da questão envolvendo o uso indevido para a lavagem. Outros países continuam observando o desenvolvimento e implicações do uso das criptomoedas.

Porém, ao contrário do que muitos imaginam, embora as transações de criptomoedas possam ser consideradas “seguras” ou privadas, já se discute na comunidade científica e acadêmica técnicas forenses para investigações envolvendo o tema. Do mesmo modo, já existem casos reportados de investigações envolvendo o uso indevido de criptomoedas ou para finalidades criminosas. A pesquisa A Fistful of Bitcoins: Characterizing Payments Among Men with No Names  apresenta desafios para localizar o uso de Bitcoin para atividades criminais e fraudulentas. 

Michael Doran propôs em seu paper,  “A forensic look at Bitcoin cryptocuyrrency  (de 2015),  a análise de um sistema apreendido, envolvendo clonagem de HD, memória e outros artefatos, tendo recuperando informações sobre a mineração de moedas e até mesmo sobre aplicações de carteira virtual, assim como transações realizadas pelos aplicativos Wallets. A análise de memória RAM corroborou inclusive os endereços dos Bitcoin wallets. A experiência foi feita com Bitminer, ferramenta de mineração, Multibit, a carteira Bitcoin para Windows, Bitcoin-QT, outro Bitcoin Wallet e as ferramentas forenses Encase 6.19.7, Tableau, Internet Evidence Finder e Winen.exe, para coleta de memória. 

No mundo, iniciativas como ChainAnalysysatuam prestando soluções forenses contra a lavagem de dinheiro em Bitcoins. A ferramenta Reactor promete rastrear os criminosos digitais. Por sua vez, a empresa Elliptic oferece serviços de detecção de atividades ilegais na cadeia de Bitcoin, tendo se unido a LexisNexis e também a Internet Watch Foundation (IWF) para combater aqueles que usam Bitcoins para comprar conteúdos audiovisuais de pornografia infantil online. O serviço consegue cavar através de suspeitos e ligar transações em conjunto para determinar para onde o dinheiro está se movendo. 

Do mesmo modo, criminosos já respondem por crimes praticados em uso ao Bitcoin. Ross Ulbricht, um americano de 31 anos, que criou a SilkRoad, um mercado Bitcoin que facilitou a venda de um bilhão de dólares em drogas ilegais, foi condenado à prisão perpétua em fevereiro de 2015. Pelo mundo, inúmeras outras pessoas apreendidas por lavagem e dinheiro. Como se sabe, a maioria das pessoas usam os Bitcoins de forma legal, mas o suposto anonimato também pode ser considerado uma arma para usos indevidos.

O consultor geral do FBI Breth Nigh chegou a dizer, em setembro de 2015, que os investigadores já podem “seguir o dinheiro”. Bitcoins podem ser considerados quantidades associadas a endereços como por exemplo “1Ez69SnzzmePmZX3WpEzMKTrcBF2gpNQ55” representando 30 mil Bitcoins apreendidos na SilkRoad, o que equivaleria a 20 milhões de dólares à época e que aparentemente foi leiloado pelo Governo Norte-Americano.

Todas as transações são de conhecimento público. A propriedade de cada Bitcoin é registrada na cadeia de blocos ou Blockchain. De fato, o que pode permanecer oculto é a verdadeira identidade dos proprietários dos Bitcoins, pois estes não cadastram nomes, mas uma sequência numérica que os identifica na cadeia de blocos. Por outro lado, assim que um Bitcoin é gasto, uma trilha ou processo forense pode se iniciar. No caso do SilkRoad os investigadores precisavam descobrir os IPs associados às transações. Um desafio e tanto, já que os usuários Bitcoin estão conectados em uma rede peer-to-peer. Neste caso, a apuração da autoria do crime se deu por um descuido do mantenedor do serviço e não por falha na segurança na cadeia.

Outras iniciativas de sucesso na recuperação de dados de conexão já foram reportadas: Em 2014 estudantes de pós-graduação na Penn State criaram uma versão de software para vendedores e compradores de Bitcoins, uma espécie de “espiamule das moedas”, com o escopo de verificar tudo que acontecia. Eles conseguiram mapear endereços de IP de mais de 1 mil endereços Bitcoin, tendo inclusive divulgado a técnica em um paper denominado An Analysis of Anonymity in Bitcoin Using P2P Network Traffic” .

Esta pesquisa nos apresenta uma reflexão importante sobre “o outro lado da moeda” do “pseduo-anominato” das transações em Bitcoins. Se você prender um traficante de drogas nas ruas, você pegará um criminoso praticando um crime. Agora se você conseguir prender o mesmo criminoso usando alguns serviço atrelado a Bitcoins, você pode descobrir todo o seu histórico delituoso, sua contabilidade. Em síntese, é preciso alertar que, se há 2 (dois) anos atrás, muitos se vangloriavam do total anonimato proporcionado nas transações Bitcoin, hoje esta certeza não é mais absoluta, como aliás, nada é cem por cento seguro e tudo depende dos elos da corrente. 

bitcoin

Logicamente, esta é uma discussão longe de se finalizar e que envolve muitas forças.

Estuda-se sobre a criação de outras criptomoedas baseadas em estruturas mais “anônimas” (como a Shadow e a iniciativa ZeroCoin) e até mesmo a possibilidade de alguns governos lançarem suas criptomoedas, logicamente, sem qualquer privacidade. 

Já se fala também em técnicas “antiforense”, como misturadores ou mixers, dark wallets, dentre outras. E em práticas que reduzem a privacidade, como a reutilização de endereços, bem como dos riscos de se manter chaves privadas em computadores, sujeitos às mais variadas ameaças. Já se apresenta até mesmo o Trezor, um hardware para armazenar as chaves e que seria mais seguro.

Nesta busca pela privacidade, a tentativa de se anonimizar pode tapar a cabeça e destapar os pés, como alertam Alex Biyukov e Ivan Pustogarov em “Bitcoin over Tor insn’t a good idea”, ao revelarem que a utilização de Bitcoins sobre TOR pode dar brechas a inúmeras outras falhas de segurança. 

Como visto, a propriedade de Bitcoins pode ser extremamente difícil de se provar, considerando inúmeros fatores, como que a chave privada estar nas mãos de terceiros, ocultada ou armazenada de várias maneiras, não existindo, dada a descentralização da cadeia, um lugar para endereçar uma ordem judicial para quebra de IPs de um usuário.

Por outro lado, considerando as pesquisas e experimentos em andamento pelo mundo, não se pode mais afirmar com 100% de segurança que criminosos podem se ocultar tranquilamente por trás da plataforma. 

Grandes são os esforços e iniciativas para aprimorar a privacidade e anonimizar o ambiente, assim como inúmeros são os projetos e pesquisas no escopo de fornecer elementos para condução de perícias, investigações e trilhas de rastreamento de transações usadas para prática de crimes ou para finalidades ilícitas.

 

(*) José Antonio Milagre é advogado,  perito em Informática, mestre e doutorando em Ciência da Informação pela UNESP, Coordenador da Pós-Graduação em Computação Forense pelo ESB – Brasília e árbitro de tecnologia da CIAMTEC.br



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