Recursos/White Papers

Opinião

Prepare-se. O Blockchain vai impactar vários modelos de negócios

Conhecida como a tecnologia por trás do Bitcoin, esta inovação possui uma incrível capacidade de transformar mercados

Leandro Duran *

Publicada em 02 de maio de 2017 às 14h36

Imagine poder mandar um milhão de dólares de um país para outro de forma segura, barata, rápida e sem participação de nenhum agente financeiro. Isso já é uma realidade por meio do Bitcoin. A criptomoeda que se tornou um fenômeno de aceitação e é cada vez mais difundida no mundo, já é reconhecida oficialmente em países como o Japão. Para se ter uma ideia da sua valorização, no ano de início da comercialização, uma unidade da moeda valia menos de um centavo de dólar; hoje vale cerca de US$ 1.400. Mas o Bitcoin só é possível por causa do Blockchain, a tecnologia que traz as características que o fazem ser tão notável. 

Como o próprio nome diz, Blockchain é uma cadeia de blocos armazenada em um banco de dados descentralizado. Capaz de armazenar registros de operações de maneira permanente, inviolável e sequencial, esse sistema funciona como um grande livro razão distribuído na rede, imutável e livre de fraudes. O Blockchain permite a realização de quaisquer transações e a verificação instantânea de sua validade por meio de qualquer computador, o que traz transparência, velocidade e agilidade para as operações, além, é claro, de dispensar intermediários. 

blockchain

Por essas características, ele possui uma incrível capacidade de transformar os mercados e modelos de negócios tais como conhecemos hoje. E isso começou a acontecer onde houve o primeiro impacto: o mercado financeiro. Os bancos já fazem uma série de projetos piloto com o sistema. O Santander, por exemplo, se utiliza do Blockchain para fazer transferências internacionais entre sua rede de forma rápida e direta. Outra iniciativa que está sendo testada por instituições financeiras é o compartilhamento de informações entre elas sobre clientes para facilitar financiamentos. Com anuência dos clientes, disponibilizam dados fundamentais para a aprovação de créditos, agilizando o processo. 

Outra grande beneficiada pela tecnologia é a Bolsa de Valores. A Nasdaq, a BMF&Bovespa e a Australian Securities Exchange, por exemplo, estão desenvolvendo iniciativas para melhorar a infraestrutura dos negócios com o Blockchain. Além de auxiliar no controle das transações, possibilita que o tempo para a liquidação de uma ação passe de dias para horas. E, também de olho na velocidade, mas principalmente na redução de custos, os cartórios começam a associar-se a startups que usam o sistema buscando as vantagens de passar o registro de dados do mundo físico para o virtual. Serão menos funcionários, menos papéis e aumento da capacidade de atendimentos por dia. 

Nessa mesma linha, o governo holandês está trabalhando para realizar registros de bicicletas. Como são um meio de locomoção muito comum no país e até então não contavam com inscrição legal, surgiu a necessidade de assegurar a propriedade para casos de furto ou roubo, por exemplo. De olho na mesma necessidade, as seguradoras já testam cadeados ligados ao Blockchain por meio de dispositivos IoT. Uma vez conectados à internet, registram cada vez que o ciclista chega a um destino e tranca a bicicleta. Assim, em caso de furto, eles sabem que o cliente realizou os procedimentos para a segurança do bem e o ressarcimento é liberado rapidamente. 

E as transformações de mercados possibilitadas pelo sistema não param por aí. Por dispensar intermediários para transações, a tecnologia tem um enorme potencial, por exemplo, para ser a base da inclusão financeira das pessoas que não tem conta em bancos. Com o uso de simples apps desenvolvidas por fintechs, como a brasileira Celcoin, é possível pagar contas ou transferir dinheiro em forma de criptomoedas diretamente para outras pessoas com taxas mínimas por cada operação. Considerando que cerca da metade da população mundial é desbancarizada - por volta de 2,5 bilhões de pessoas -, é fácil imaginar o impacto dessa aplicação em larga escala no mercado. Em última instância, isso pode modificar o modelo de negócios das instituições financeiras que, além de realizar empréstimos, passarão a ter entre suas vantagens a oferta de carteiras interessantes para a guarda de criptomoedas. 

Outra possibilidade é o compartilhamento de bens, graças ao desenvolvimento de contratos inteligentes - ou smart contracts - baseados na tecnologia do Blockchain. Esses contratos têm as mesmas funções dos tradicionais, definindo obrigações, benefícios e penalidades das partes de uma negociação. Porém, eles são autoexecutáveis, ou seja, por meio do registro de informações, eles são capazes de controlar o andamento dessa negociação e tomar as ações previstas, como a liberação de pagamentos e a aplicação de multas. Assim, a compra compartilhada de uma sala comercial e seu posterior aluguel, por exemplo, podem ser realizados pela internet, sem a necessidade de validação de terceiros nem do encontro dos sócios da empreitada. 

O smart contract garante, também, o pagamento dos dividendos provenientes da locação e, associado à uma chave digital e uma fechadura IoT, pode permitir o acesso do locatário ao imóvel, tendo o locador o controle sobre o uso. 

O mesmo pode ser feito para compra e aluguel de carros, o que viria a extinguir empresas que são cases de sucesso, como o Uber. E, tendo em vista a capacidade de controlar a utilização, as seguradoras poderiam criar seguros por uso de um automóvel, calculando o custo para o consumidor mês a mês de acordo com o perfil de quem dirigiu e dos quilômetros rodados. 

A transparência e a rastreabilidade que a tecnologia proporciona gera outra aplicação que também pode ser usada em vários contextos de negócio: o controle da cadeia de produção desde a fabricação até a mão do consumidor. Na produção de um frango, por exemplo, seria possível saber onde e quando exatamente ele foi abatido e desossado, embalado e que empresa realizou o transporte em cada um desses passos até chegar à gôndola do supermercado. A empresa distribuidora teria um meio fácil e seguro de verificação da cadeia como um todo e o consumidor - por meio de um QR Code ou uma etiqueta NFC - teria todas essas informações e poderia fazer a opção de compra mais consciente. A empresa ganha pela agilidade do processo e ao demonstrar respeito pelo público; e este último ganha pelo maior controle do que está consumindo e pela garantia de qualidade.

Com esses exemplos é fácil perceber que o Blockchain pode trazer ganhos para sua empresa em termos de redução de custos, de agilidade no pagamento de fornecedores, de controle de processos e pelas vantagens competitivas que podem surgir no desenvolvimento de novas ofertas, além de proporcionar maior confiabilidade aos clientes. Quem não começar a testar essa tecnologia pode perder terreno em sua área rapidamente. A expectativa é que até 2020 já devemos ter grandes mudanças em produção usando essa solução. Então, o fundamental neste momento é começar a experimentação para descobrir novas oportunidades. 

 

(*) Leandro Duran é arquiteto de Soluções da CI&T



Reportagens mais lidas

Acesse a comunidade da CIO

LinkedIn
A partir da comunidade no LinkedIn, a CIO promove a troca de informações entre os líderes de TI. Acesse aqui