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Opinião

Blockchain vai revolucionar a agricultura

Tecnologia pode ser a alternativa para reunir dados que se encontram espalhados e desconectados, aumentar a eficiência e assegurar mais transparência em cada etapa do processo produtivo

Milton Suzuki *

Publicada em 13 de abril de 2017 às 08h40

Não há nada mais importante em nossas vidas do que garantir o nosso alimento diário. O Brasil é um dos maiores produtores de alimento, fibra e energia renovável no mundo. Mas de acordo com a McKinsey, cerca de um terço de todo alimento produzido é perdido no meio do caminho ou desperdiçado a cada ano. Globalmente, as perdas representam algo como US $ 940 bilhões (FAO). A ineficiência no plantio, na colheita, no uso da água e transporte, bem como as incertezas climáticas, pragas, variações na demanda e outros intangíveis contribuem para essa perda. Do ponto de vista do consumidor, embalagens e rótulos inadequados podem levar a desperdícios e doenças potencialmente fatais devido a agentes patogênicos transmitidos pelos alimentos.

Esses são problemas que precisam urgentemente ser resolvidos, e muitas dessas soluções podem ser encontradas com o emprego de tecnologias.

O uso de Big Data na agricultura está se tornando realidade e, aliado a isso, o Blockchain pode ser a alternativa tecnológica para reunir esses dados que se encontram espalhados e desconectados, aumentar a eficiência e assegurar mais transparência em cada etapa do processo produtivo, possibilitando correções de erros em tempo, mitigando riscos, evitando grandes prejuízos financeiros e de imagem. Um exemplo que pode ilustrar tudo isso é o recente escândalo da operação carne fraca deflagrada pela Polícia Federal. Nada disso teria ocorrido se todo o processo estivesse sobre uma plataforma tecnológica do tipo Blockchain, onde o tracking do processamento da carne e derivados seria facilmente rastreado de maneira rápida, segura e confiável.

Sensores de campo aplicados em cultivos possibilitam o fornecimento de dados sobre as condições e tipo de solo, bem como informações detalhadas sobre clima, necessidade (e quantidade) de fertilizantes, disponibilidade de água e incidência de pragas, plantas daninhas e doenças. As unidades de GPS instaladas em tratores, colheitadeiras e caminhões podem ajudar a otimizar os equipamentos e assegurar melhor eficiência em cada operação. Veículos aéreos não tripulados (VANTs), ou drones, são excelentes ferramentas com múltiplos propósitos que podem, por exemplo, patrulhar campos, fornecer mapas de desenvolvimento da cultura ou evolução de pragas, doenças e plantas daninhas e alertar os agricultores para os potenciais riscos.

Os sistemas de rastreabilidade aplicados dentro da tecnologia Blockchain podem fornecer um fluxo de dados constante em produtos agrícolas conforme eles se movem pela cadeia de suprimentos, desde a fazenda até o consumidor final, fornecendo detalhes de onde e como foi produzido aquele determinado alimento. Essa transparência proporciona muita confiabilidade ao alimento, ou produto agrícola, junto ao consumidor.

No lado do produtor rural, as plantações podem ser monitoradas quanto aos nutrientes e taxas de crescimento da plantação. O uso de Big Data permite determinar as melhores variedades para se plantar e a melhor época de plantio, tomando em conta as informações de clima, solo e incidência de pragas naquela região. Com isso, a tecnologia Blockchain também pode ajudar os agricultores a se proteger contra perdas e a gerenciar melhor o fluxo de caixa da sua fazenda.

O mercado de software para esses tipos de ferramentas de agricultura de precisão (como monitoramento de rendimento, mapeamento de campo, levantamento de culturas e previsão do tempo) deverá crescer 14% até 2022 nos Estados Unidos. Os pesquisadores sugerem que a adoção em grande escala dessas tecnologias pode significar um aumento na produtividade agrícola nunca antes visto desde a mecanização.

Todos esses dados fornecem uma quantidade sem precedentes de informações sobre os alimentos que são cultivados, processados, consumidos e descartados. Tais dados permitem aos agricultores personalizar campos individuais para atender às demandas de uma região específica ou grupo de consumidores (nicho de mercado). Com o Blockchain no sistema, os consumidores vão poder rastrear o pão nosso de cada dia, por exemplo, desde quando o trigo foi plantado na fazenda, passando pelas práticas agrícolas usadas na produção, processamento da farinha no moinho e a manufatura na padaria com os ingredientes usados. Isso será possível também em alimentos como frutas & legumes, carne, leite, café, arroz, feijão, soja, milho etc. E também em alimentos processados, como massa de tomate, macarrão, embutidos e sucos de frutas.

agritech

O que é importante agora é garantir a segurança, proteção e a transparência desses dados. E nesse ponto, o Blockchain pode assegurar que tanto a tecnologia quanto os dados gerados e armazenados estarão disponíveis para todos e protegidos por contratos inteligentes (smart contracts). O Ministério da Agricultura regulamentou recentemente o uso de drones para fins agrícolas e outros sistemas de dados para agricultura de precisão. A tecnologia Blockchain também deverá ser regulamentada para a aplicação generalizada de dados e tecnologia emergente a fim de maximizar a agricultura como um todo, economizar água, reduzir o uso de agroquímicos, diminuir o desperdício de alimentos e a contaminação do meio ambiente.

Para acelerar a economia agrícola, precisamos de padrões inteligentes na indústria de transformação, melhores práticas agrícolas, itens de infraestrutura moderna como estradas, armazéns, portos, modais logísticos e sistema de distribuição eficaz para garantir que se pode extrair o máximo da tecnologia, bem como uma revisão da infraestrutura de comunicação.

Finalmente, a pesquisa em robótica agrícola deve ser reforçada para desenvolver robôs que utilizem os dados para uma produção melhor, mais rápida e mais eficiente (Watson), sendo utilizado não como substituto, mas sim como uma ferramenta de suporte ao engenheiro ou técnico de assistência no campo. 

Em suma, dada a tremenda necessidade de soluções tecnológicas na agricultura, deveríamos ter mais investimentos para impulsionar o uso de agricultura de precisão e a aplicação de dados inteligentes numa plataforma Blockchain com uso de Big Data. Afortunadamente, o Brasil tem avançado nesse sentido por meio de empresas, startups e, acima de tudo, por meio de empreendedores inspirados a trazer soluções inovadoras e disruptivas.

 

(*) Milton Suzuki é engenheiro agrônomo especialista em crop protection, com 30 anos de experiência em P&D de agroquímicos, pesticidas biológicos e sistema produtivo



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