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Opinião

Já vivemos o futuro dos negócios digitais

Que provoca desmaterialização, que leva à desmonetização, que potencializa a democratização de uso

Cezar Taurion *

Publicada em 22 de dezembro de 2016 às 07h39

A transformação digital exige que a organização saia da sua zona de conforto. A velocidade das mudanças não permite mais planejamentos de longo prazo baseados apenas em evoluções incrementais, como ampliação de um mercado ou lançamento de novos produtos similares. O inesperado surge a cada instante. O cenário de negócios, ou o business-as-usual, passa a ser cada vez mais volátil, ambíguo, incerto e complexo. 

Os grandes bancos só se moveram com rapidez em direção ao banco digital porque foram provocados pelas Fintechs. A velocidade das mudanças não foi opção deles, mas necessidade de reação.Para qualquer setor de indústria, cenários considerados improváveis há poucos anos estão se tornando realidade.  Os veículos autônomos e elétricos provocam disrupção em toda a cadeia automotiva, sejam montadoras, fabricantes de autopeças, concessionárias, locadoras e empresas de seguros. Em poucos anos, qual será a fronteira que delimitará uma GM de um Uber, de uma Localiza ou de uma Porto Seguros?

O desafio é que muitos executivos do mundo analógico ainda não perceberam o quanto isso mudará o mundo dos negócios. A ruptura digital não afeta apenas industrias tipicamente digitais, como mídia e música, mas toda e qualquer indústria. Na mídia já é indiscutível. Os leitores já gastam diariamente quatro vezes mais tempo consumindo informações por tablets e smartphones do que por veículos impressos. Os anunciantes também estão migrando e empresas como Procter & Gamble e American Express já realizam 70% de sua publicidade em vídeo na web.

Qualquer que seja o setor de indústria, os CEOs devem se perguntar: 

a) O meu atual modelo de negócios resistirá a tentativas de ruptura causadas por um novo entrante nascido na era digital?

b) Esta mudança, se houver, será rápida, ou ainda me permitirá uma transição suave? 

c) O que eu preciso fazer para transformar meu modelo de negócios atual e a cultura de minha empresa para me reposicionar no mundo digital?

Muito provavelmente as respostas corretas serão as mais desafiadoras. E o que fazer? Antes de mais nada adotar um pensamento disruptivo. Entenda que nem sempre um profundo conhecimento de sua indústria o fará ser disruptivo nela. Provavelmente não, pois a tendência é limitar nossa criatividade aos perímetros atuais impostos pela indústria que conhecemos. A competição na sua indústria virá de outra indústria, talvez até da própria indústria de tecnologia. A indústria hoteleira que o diga!

Aliás, nem tem muito sentido as empresas de consultoria e a mídia ainda falarem em segmentos por indústria. Cada vez mais a competição será transversal, cross-industry, com os limites da competição e inovação entre as indústrias simplesmente deixando de existir. Uma inovação em uma indústria chega rapidamente a outra. E a disrupção em uma pode afetar de forma dramática outra completamente diferente. Alguém imaginou que um Google, que começou como um simples buscador da Web, destruiria o valor de uma empresa fabricante de celulares tão sólida quanto a Nokia? Ou que um fabricante de micros como a Apple mudaria a indústria de música?

Assim, diante deste já visível tsunami, o jargão transformação digital começou viralizar. Toda e qualquer empresa de consultoria e fornecedora de tecnologia passou, de um dia para o outro, a ser líder em transformação digital. As empresas tradicionais criaram slogans de marketing “agora somos digitais”. 

Mas, essa transformação digital tão propalada é com t minúsculo ou realmente uma Transformação com T maiúsculo?

Com T minúsculo, vemos aqui e ali o lançamento de um app com todo um backoffice analógico... A reorganização no organograma sem mudar a essência do modelo organizacional. Mas, tudo envolto em um marketing agressivo e bem elaborado.

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Uma verdadeira Transformação, com T maiúsculo, é uma reinvenção do modelo organizacional (e não o simples deslocar de caixinhas), processos digitais e muito mais ágeis, e uso intenso do conceito de digitalização. Relembrando, a digitalização provoca a desmaterialização, que leva à desmonetização, que potencializa a democratização de uso. O smartphone é um exemplo clássico, pois desmaterializou diversos equipamentos físicos como CDs, gravadores, GPS, câmeras fotográficas, filmadoras, etc, que estão agora embutidos em um único dispositivo, o próprio smartphone, barateou o custo (somem o valor de todos esses equipamentos anteriormente comprados à parte) e democratizou o uso. Comparem o antigo, caro e lento processo de fotografia analógica com o de hoje, quando vocês tiram milhares de fotos e postam em suas redes sociais, aplicando filtros muito sofisticados, de forma totalmente gratuita.

Liderança é a chave
Para uma transformação digital ocorrer de fato é essencial que a liderança da organização seja a impulsionadora e patrocinadora. Sim, ele mesmo, o CEO, deve ser o líder dessa transformação. Se for ação isolada, restrita a alguns setores ou unidades de negócio, não haverá transformação de fato. A visão das mudanças deve ser impulsionada pela liderança e engajada por toda a organização. As ações só ocorrem pelo engajamento das pessoas que fazem a organização. Uma mudança organizacional afeta posições conquistadas e as antigas relações de poder que o modelo hierárquico criou de forma tão arraigada. Processos digitais demandam novos perfis profissionais e nem sempre há tempo e espaço para aproveitar os funcionários atuais. 

A TI, por exemplo, é uma das mais afetadas. Grande parte de seu acervo cultural, baseado em organizações em silos (desenvolvimento, testes, operação, suporte) rui. Métodos e práticas arraigados somem. Mesmo tentativas paliativas de criar uma TI Bimodal mostra-se insuficiente. Bimodal deve ser apenas o início da jornada e nunca seu objetivo. A TI tem que ser ágil por princípio e essência. 

Toda essa mudança cria antagonismo, ceticismo e consequentemente reação contrária. Infelizmente, constato nas conversas com muitos CIOs,  que vários se apegam ao modelo tradicional e essa sua luta inglória leva a observações sarcásticas como “colocar CIO e inovação na mesma frase é uma contradição em termos...”. Pode ser pura maldade, pois muitos CIOs são inovadores, mas uma parcela significativa deles ainda se agarra ao modelo tradicional de TI que os levou a ser CIO. Ainda não perceberam que a TI passa a ser essencial quando o “Software Should Be Eating Your Back Office”. Não é mais operação, mas o cerne do negócio.

O processo de transformação demanda tempo e energia. Desapontamentos, correções de rumo e fracassos fazem parte do processo. É o próprio conceito de “destruição criativa” criado por Schumpeter. Ele descreve o processo de inovação, que tem lugar numa economia de mercado em que novos produtos destroem empresas velhas e antigos modelos de negócios. Para Schumpeter, as inovações dos empresários são a força motriz do crescimento econômico sustentado a longo prazo, apesar de que poderia destruir empresas bem estabelecidas, reduzindo desta forma o monopólio do poder. Nem todos sobrevivem...

Sair do status quo e quebrar a inércia não é fácil. Uma sugestão é trazer startups que estejam envolvidas em inovações disruptivas, como veículos autônomos, impressoras 3D, Realidade Aumentada/Virtual, drones, robótica, Machine Learning, etc e debater com elas se essas inovações farão sentido no seu negócio. Provavelmente sim, desde que seu mindset esteja aberto à disrupção. 

Desenhe o cenário futuro da empresa daqui a cinco ou dez anos e verá que não tem nada a ver com a que existe hoje. A partir daí, traga essa visão para o mundo real de hoje, que paga as contas, e desenhe seu processo de criação do futuro delineado neste cenário. É o inverso de evoluir gradualmente processos e práticas. Não se compare apenas às empresas do mesmo setor. Olhe o Facebook, Amazon e Google como benchmarks.  Lembre-se que a energia elétrica não surgiu da evolução incremental das velas.  

Para os que ainda estão em dúvida, recomendo a leitura do estudo “The work ahead”, que mostra alguns números assustadores de como os negócios e as profissões serão impactados na economia dos algoritmos, IA e automação. Um exemplo, seis indústrias (life sciences, healthcare, finanças, manufatura, varejo e seguros) com uma receita global de 60 trilhões de dólares hoje (40% do PIB mundial), em 2018, praticamente amanhã, terão perdido 20 trilhões! Muitos outros números já mostram a gravidade do desafio, como a estimativa do Dr. Carl Benedikt Frey, da Oxford Martin School que mostrou em seu estudo que "47 percent of jobs in the US are 'at risk' of being automated in the next 20 years". Mas isso acontecerá só nos EUA?

Vamos ver, por exemplo, veículos autônomos. Quando o Google começou a falar disso, em 2009, parecia conversa de doido. Em poucos anos, tudo mudou. Protótipos começaram a rodar pelas ruas, já vemos os primeiros Uber autônomos, ainda com motorista, porque a regulação ainda exige. Ele está lá de enfeite. Recentemente o Google criou uma nova empresa, a Waymo, com o propósito de “With fully self-driving technology, you’ll be able to get where you want to go at the push of a button—without the need for a person at the wheel.” Em IA, recomendo a leitura do excelente artigo “The Great A.I. Awakening” que conta um pouco da evolução da IA e mostra a decisão do Google de se reinventar em torno dela. Pode parecer pouco importante à primeira vista, mas é um marco na história das corporações.

Para visualizar e construir o futuro, temos que, ao mesmo tempo, ser otimistas e realistas. Não é fácil, mas precisamos construi-lo, para não sermos desconstruídos por ele. Recomendo ver este curto filme, de pouco mais de onze minutos, “The Fourth Industrial Revolution Is Here: What Now?”. Já estamos vivendo esse futuro. E então?



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