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Opinião

O futuro? Será das tecnologias exponenciais como bioprinting e biossensores

Falar que no próximo ano a tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Vamos olhar mais à frente...

Cezar Taurion *

Publicada em 12 de dezembro de 2016 às 07h38

Fim de ano e começamos a ler artigos e mais artigos sobre tendências para o próximo ano. Como está claro que a transformação dos negócios provocada pela transformação digital é inevitável e que, de alguma forma, todas as empresas serão empresas de tecnologia (com elas, no mínimo, embarcadas em seus produtos e serviços) vamos sair do lugar comum. Falar que no próximo ano a tendência é Cloud, Analytics e Mobilidade é voltar no tempo. Quem ainda não começou a jornada de usar intensamente cloud, interagir com clientes via mobilidade, e usar dados e não apenas a intuição na sua rotina diária de processos e decisões, já perdeu o trem. Vamos olhar mais à frente. Abordar as tecnologias exponenciais, aquelas que tem o potencial de se disseminarem de forma muito rápida e com impacto significativo nas empresas, modelos de negócios e na sociedade como um todo.

Muitas vezes essas tecnologias exponenciais passam desapercebidas, pois uma tecnologia que evolui exponencialmente, em seu início, confunde-se com uma evolução linear. Mesmo dobrando a períodos curtos, no início, representa pouco. Por exemplo, quando elas têm participação de mercado de 0,1%, 0,2%, 0,4%...nem aparecem nas estatísticas. Mesmo quando começam a chamar atenção, com 1%, 2%, 4%, ainda são vistas de forma simplista, como “menos de 10% do mercado e vai levar tempo para ser uma tecnologia disseminada”. Aí é que temos o engano. Pensamos linearmente. E somos atropelados pela exponencialidade. De 10% vai para 20% e em pouco tempo temos 60% a 80% do mercado.

Um fato interessante dessas tecnologias é que muitas delas estão na fase que o Gartner descreve em seu Hype Cycle como o “vale das desilusões”. Alcançaram o ápice (“o pico das expectativas inflacionadas”) e por terem sido superestimadas em sua facilidade de uso e potencial a curto prazo caíram no vale.

Geralmente, no início, a superexposição das tecnologias na mídia e a empolgação daí decorrente, faz com que percamos de vista o contexto.  A desilusão é decorrência natural. Vejamos o exemplo do PC. Antes do surgimento do IBM PC, o PC, termo que apareceu em meados dos anos 70 , foi uma decepção. Muito badalado, na prática era usado para poucas coisas úteis. Quando a IBM lançou o PC, a convergência da evolução tecnológica, como processadores Intel e softwares da Microsoft, tornou a máquina realmente útil e sua disseminação foi muito rápida. Mas, em 1975, poucos anos antes do IBM PC, o PC era uma simples máquina para jogar Pong. Nada mais e dificilmente alguém imaginaria o império que a Microsoft criaria a partir dele.

Vamos então olhar algumas tecnologias que com potencial disruptivo, mas que ainda não chegaram a despertar o interesse da grande maioria dos executivos de negócio. Minha lista foi baseada no livro “Bold”, de Peter Diamandis e Stephen Kotler, da Singularity University. Recomendo sua leitura!

Impressoras 3D
Em abril do ano passado escrevi sobre elas e seu impacto nas empresas. Lembro que, na época, perguntei aos CIOs, em um importante evento, se algum deles já estava experimentando ou planejando experimentar o uso de impressoras 3D no curto prazo. Fez-se silêncio, e, pelo menos para os ali presentes (estavam, entre outros, executivos de setores com grande potencial de serem afetados como indústria e varejo) esta tecnologia ainda não havia aparecido na tela dos seus radares. Na verdade, verificou-se que nem estava nas suas “to do list” para os próximos anos. Recentemente, a Deloitte realizou uma pesquisa no Brasil e constatamos que muito pouca coisa avançou nesse campo. Poucos executivos conhecem e avaliaram seu potencial e raríssimos são os que já usam ou que planejam usá-la em breve.

A disseminação de uma tecnologia acontece quando a sua interface de uso torna-se fácil, intuitiva e aberta a qualquer um. A Internet explodiu em termos de utilização quando surgiu o primeiro browser, o Mosaic. Antes eram apenas os iniciados que a usavam. Hoje, as impressoras 3D já estão começando a serem de fácil uso. Com simples cliques desenhamos coisas que podem ser impressas. Existem dezenas de sites onde podemos pegar modelos, gratuitamente, e imprimi-los em casa. Mas além de impressão caseira, as impressoras 3D já estão abrindo caminho em praticamente todas os setores.

Na indústria automotiva, a maioria dos fabricantes incorpora partes 3D nos veículos já produzidos. Em 2014, a Local Motors produziu um carro em 3D, usando apenas 50 peças, em vez das quase 2500 da maioria dos veículos. Olhemos à frente. Será que um carro continuará a ser produzido em massa, nos moldes do modelo de produção criado por Henry Ford, ou a produção em 3D demandará um novo conceito de linha de produção? Na indústria aeroespacial motores dos foguetes da SpaceX são produzidos em 3D. Partes das turbinas da nova geração de jatos comerciais da Airbus também são produzidos em 3D.

Mas, podemos ir mais longe. Em 2016, foram necessários 63 bilhões de animais terrestres para alimentar 7 bilhões de seres humanos. Os animais ocupam um terço da massa terrestre, utilizam 8% do nosso abastecimento de água e geram 18% de todos os gases com efeito de estufa. A Modern Meadow, uma empresa da Singularity University, se propõe a fazer uma disrupção nessa indústria usando bioprinting (engenharia de tecidos e impressão 3D) para produzir couros em laboratório e, futuramente, carne (carne, frango e carne de porco).

Em 2016, a empresa com sede no Brooklyn arrecadou 40 milhões de dólares com o objetivo de se tornar a principal fonte de couro para os fabricantes mundiais de moda e acessórios, bagagens, artigos esportivos, estofados e móveis. Sua visão é fazer isso em larga escala e reduzir drasticamente o impacto ambiental da carne e da produção de couro. Com a bioimpressão de carne, poderíamos alimentar o mundo com 99% menos terra, 96% menos água, 96% menos gases com efeito de estufa e 45% menos energia. Se isso realmente acontecer, afetará países altamente dependentes de exportação de carne, como o Brasil.

Vamos em frente. Cerca de 10% da população global é afetada por doença renal crônica, com milhões de pessoas morrendo a cada ano devido à falta de tratamento acessível. Mas, recentemente,  os cientistas do Harvard's Jennifer Lewis Lab deram o primeiro passo para a criação de um rim artificial que, um dia,  poderá substituir os rins de doadores biológicos. E o hospital do futuro está começando a sair da imaginação...sugiro a leitura do artigo que descreve a visão desse hospital, que será aberto em 2017 na Austrália.

futuro

Inteligência Artificial
Abordei especificamente essa tecnologia nesse artigo aqui. Sua evolução é assustadora. Depois do Watson, da IBM, ganhar o Jeopardy e o AlphaGo, do Google, vencer partidas contra o campeão mundial de Go, um jogo altamente complexo, agora o Hiro, da alemã Arago, conseguiu vencer 80% dos seus concorrentes humanos em jogos de estratégia de construção de civilizações. Já é indiscutível o efeito que a IA acarretará na nossa sociedade. Só não sabemos qual será sua proporção. Stephen Hawking, o famoso físico, abordou recentemente o tema no evento de lançamento de um instituto da Universidade de Cambridge criado para estudar o seu  efeito na sociedade. O texto é “Stephen Hawking: AI will be 'either best or worst thing' for humanity”.

Também devemos prestar atenção ao crescente número de sensores que estão espalhados pelo planeta e aumentando exponencialmente. Por exemplo, se olharmos os bilhões de smartphones e tablets, vemos que cada um deles contém dezenas de sensores, como telas sensíveis ao toque, microfones, acelerômetros, giroscópios, câmeras, etc. Somente a superfície das telas sensíveis ao toque, em 2015, já somavam cerca de 36 milhões de metros quadrados. Mas além desses dispositivos, vemos sensores ajudando a tornar os veículos autônomos, possibilitando manutenção preditiva em turbinas, como os mais de 250 sensores em cada turbina da GE, que monitora seu desempenho em tempo real.

No combate à criminalidade, a ShotSpotter tem sensores acústicos que detectam ruídos e, através de algoritmos, isolam o som de um disparo, triangulam sua localização com precisão de cerca de três metros e direcionam a polícia para o local. Com sensores em todos os lugares e os seus preços diminuindo constantemente, o limitador para o uso dos sensores será apenas nossa imaginação! Um recente estudo da Universidade de Stanford propõe que serão demandados cerca de um trilhão de sensores em 2023!

Ao conectarmos esses sensores uns com os outros e a outros sistemas, as oportunidades são imensas. Mas, chamo a atenção para um aspecto importantíssimo: a formação de gente capacitada que permita construir e usar essas tecnologias. Um estudo mostrou dos 100% do preço de venda de um iPhone, 66% ficam com a Apple, 32% com os fabricantes de seus componentes (GPS e outros sensores) e apenas 2% com as empresas que os montam. Portanto a imensa maioria da captura de valor da cadeia está no capital intelectual e não no trabalho de montagem, de baixo valor agregado. Educação e capacitação é um dos nossos gargalos e se reflete no baixo uso dessas tecnologias aqui no Brasil.

Robótica
Já os vemos substituindo jóqueis em corridas de camelos nos Emirados Árabes Unidos e Qatar. O impacto da robótica e da Inteligência Artificial no que entendemos hoje por trabalho será altamente impactante. Escrevi sobre isso aqui e recomendo também a leitura do estudo “The Transformation of the Workplace Through Robotics, Artificial Intelligence, and Automation: Employment and Labor Law Issues, Solutions, and the Legislative and Regulatory Response”. Já vemos, inclusive, aceleradoras de startups focadas em robótica, como a Robot Launchpad.

Biologia sintética
A ideia da biologia sintética parte da premissa que o DNA é software, nada mais que códigos de quatro letras arrumadas em ordens específicas. Como nos computadores, o código direciona a máquina. Na biologia a ordem do código governa os processos de fabricação e desenvolvimento das células, as instruindo a produzir determinada proteína, por exemplo. E como todo software, o DNA pode ser reprogramado. 

Diferente da engenharia genética, que é a inserção de determinado gene para mudar características de uma planta ou animal, a biologia sintética é uma reprogramação do próprio DNA. No fundo é a engenharia genética tornando-se digital. As implicações são imensas e ainda não conseguimos visualizar até onde chegaremos. Um exemplo instigante é o projeto Cyborg da Autodesk, para permitir a programação biológica de modo fácil, sem necessidade de ser um PhD para tal. Claro, aspectos legais, éticos, morais e sociais estarão em debate. O que não podemos é ignorar as mudanças que o mundo digital vem provocando.

O mundo nos próximos anos será bem diferente do que conhecemos hoje. Novos negócios, novas funções e profissões. Empresas estabelecidas sumirão do mapa e apesar do ceticismo, que é comum diante do inesperado, as mudanças chegarão. Se vamos gerar oportunidades ou sermos atropelados, é uma decisão estratégica dos países e das empresas. Cabe a nós mesmos decidirmos nosso futuro.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures  e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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