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Opinião

A Inteligência Artificial já está batendo à porta

Não interessa se vamos abri-la ou não. Ela vai entrar. Portanto, precisamos estar preparados, como profissionais, como executivos líderes de empresas ou como gestores públicos, para entender esse fenômeno e agir de forma adequada

Cezar Taurion *

Publicada em 19 de setembro de 2016 às 07h00

Li atentamente o relatório “Artificial Intelligence and Life in 2030”, o primeiro do estudo “One Hundred Year Study on Artificial Intelligence”, que se propõe a investigar e analisar a evolução da IA (Inteligência Artificial) e seus impactos nas pessoas, comunidades, empresas e na sociedade. Recomendo sua leitura e aqui vamos resumir algumas de suas reflexões e inserir alguns insights que o relatório despertou.

IA não é futurologia, mas realidade. IA pode ser definida livremente como a ciência e o conjunto de tecnologias computacionais, inspirados (embora opere de forma muito diferente) nas maneiras como as pessoas sentem as coisas, aprendem, raciocinam e tomam decisões. Existe uma definição mais formal, de Nils Nilsson que explicita: “Artificial Intelligence  is that activity devoted to making machines inteligent, and intelligence is that quality that enables an entity to function appropriately and with foresight in its environment”.

É uma ciência que começou 60 anos atrás, mas que tomou impulso acelerado nos últimos anos. Interfaces de linguagem natural, reconhecimento de imagens e algoritmos já fazem parte de nossa vida. Usamos, até sem saber, no Facebook, Amazon, Siri, Waze, Netflix, Google, Uber, etc. Os algoritmos influenciam nossa vida e discute-se até que ponto devemos terceirizar a eles as decisões e orientações que tomamos. Leiam o excelente artigo de Tim O´Reilly, “The great question of the 21st century: Whose black box do you trust?”.

O relatório define o horizonte de 2030 por que nos próximos 14 anos veremos tanta evolução como nos últimos 100 anos. E vai continuar exponencialmente após 2030! Quando analisamos as tecnologias de IA ainda identificamos muitas limitações. Mas se pensarmos em uma evolução exponencial, essas limitações poderão ser eliminadas em muito pouco tempo. Por exemplo, estudo publicado pelo MIT, “Robots That Teach Each Other”, mostra que será perfeitamente possível que robôs ensinem aos demais o que aprendem na prática.

Esse cenário nos traz imensas oportunidades, mas também novos desafios. Os impactos potenciais são ainda difíceis de serem mensurados e por isso, em alguns países como os EUA, o governo tem desenvolvido pesquisas e debates sobre o assunto. O artigo “White House’s final artificial intelligence workshop highlights need for humans to hold the reins on AI” sumariza as reflexões. E um dos pontos levantados merece ser bem analisado: “At its best, artificial intelligence can be a tool to promote equity, and it obviously can create huge economic opportunity for a lot of people,” she said. “But it can also have discriminatory effects, whether they’re intended or unintended. … We’re certainly not going to turn a blind eye to this.” Inevitavelmemte, serão demandadas e criadas regulações que sobre o uso de IA. O risco é, por desconhecimento dos reguladores ou influências políticas de grupos de pressão contrários, termos regulações que impeçam as tecnologias de IA de serem exploradas em todo o seu potencial. Regulações mal concebidas inibem inovação.

O relatório aborda o impacto da IA em uma cidade típica americana, que é diferente da nossa realidade, mas muito do que acontecerá por lá chegará aqui no Brasil,  mais cedo ou mais tarde. Vivemos em um mundo globalizado e apesar do futuro não chegar a todos os países de forma homogênea, nada impedirá que as transformações causadas pela IA também nos afetem significativamente.

O setor de transporte será um dos setores mais impactados. Os veículos autônomos já são realidade, e em poucos anos serão comuns em muitos países. No fim de agosto, a nuTonomy, uma filial do MIT, se antecipou ao Uber e lançou o primeiro veículo autônomo que pode ser alugado ou pego em plena rua por qualquer pessoa. O espaço no qual será possível usá-lo é, por ora, muito limitado: apenas seis quilômetros quadrados de vias públicas. A mesma região na qual foram realizados os testes do veículo e onde se continua estudando o funcionamento desse tipo de carro: o One North, distrito financeiro de Singapura, no qual estão sediadas todas as grandes empresas de tecnologia do mundo e que tenta imitar o Vale do Silício, nos Estados Unidos.  A área foi escolhida porque as pessoas que frequentam a região estão bem relacionadas com o campo da tecnologia. Interessante que todos esses veículos autônomos sejam elétricos. Este primeiro protótipo é um Mitsubishi imiev, mas os táxis que comporão a frota em 2018 em Singapura serão do modelo Renault Zoe. 

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A corrida pelos táxis sem motorista está apenas começando. Em setembro foi a vez do Uber, “Uber Debuts Self-Driving Cars in Pittsburgh”. Veículos autônomos estarão em toda a parte, nos automóveis de passeio, caminhões, tratores. E em breve será muito difícil separar empresas como GM, Uber ou uma Avis. Talvez sejam um único negócio. Algumas estimativas apontam que se barreiras tecnológicas e regulatórias forem resolvidas, cerca de 15% dos novos carros vendidos em 2030 serão inteiramente autônomos. Os outros 85% serão parcialmente autônomos, com diversas funções automáticas embutidas como estacionamento e direção em estradas sem assistência do motorista.

Carros autônomos, além de eliminar a necessidade de motorista (a direção poderá, talvez, ser opcional, por prazer), vão afetar toda a indústria, pois vão incentivar o compartilhamento de veículos, afetando toda a cadeia de valor da indústria automotiva e negócios adjacentes como seguradoras e até mesmo receitas de multas de trânsito.

Outro setor a ser impactado significativamente pela IA será o de saúde. Uma leitura do artigo “Artificial Intelligence Will Redesign Healthcare” mostra claramente o quanto de transformação veremos em saúde, provocada pelo uso de algoritmos e da IA. Ainda temos um bom caminho a percorrer, mas lembrando que vivemos na era da exponencialidade, ele será trilhado rapidamente. Alguns aspectos devem ser analisados e resolvidos, como a criação de padrões éticos aplicáveis e obrigatórios ao uso da IA no setor da saúde e à revisão do ensino do profissional de saúde, para que eles tenham conhecimentos básicos sobre como a IA trabalha em um ambiente médico, de modo que consigam compreender como tais soluções podem ajudá-los no seu dia a dia.

As empresas do setor devem entender o potencial disruptivo da IA para tomar as decisões necessárias para incorporá-la ao seu negócio. Para termos uma ideia mais precisa do potencial de IA em medicina, veja este artigo: “From Virtual Nurses To Drug Discovery: 90+ Artificial Intelligence Startups In Healthcare”. Essa frase de um analista da Frost & Sullivan, Harpreet Singh Buttar, é emblemática desse cenário: “By 2025, AI systems could be involved in everything from population health management, to digital avatars capable of answering specific patient queries”.

Outro setor para o qual o relatório chama atenção é o de educação. Algumas experimentações já sinalizam o futuro. O Ozobot é um robô que ensina crianças a desenvolver lógica de programação. Os MOOC (Massive Open Online Courses) usam cada vez mais algoritmos e interfaces de linguagem natural para melhorar a interação com os alunos. Os algoritmos permitem desenvolver e coordenar treinamentos individualizados, reconhecendo que os indivíduos são diferentes, e aprendem de forma e em ritmos distintos. O uso de IA e tecnologias como Realidade Virtual e Realidade Aumentada tem o potencial de transformar a educação nos próximos 15 a 20 anos.

O relatório aponta também as mudanças potenciais provocadas pela IA na área de segurança pública, e obviamente no emprego. Funções serão eliminadas e outras criadas ou transformadas. Já abordei o tema aqui. Um dos artigos que escrevi abordou o impacto da IA em uma profissão bem conservadora, a dos advogados. O artigo “Ainda existirão advogados no futuro?” procura mostrar que nenhuma profissão atual passará imune pela IA. À medida que os avanços nas tecnologias de IA, como Machine Learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimentos bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente, ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas.

O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata, como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs.  Este processo também está ocorrendo na China. Já existem diversas fábricas totalmente automatizadas lá e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais. Recomendo a leitura de um estudo muito instigante, “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation?”.

Em resumo, a IA já está batendo à porta. Não interessa se vamos abri-la ou não. Ela vai entrar. Portanto, precisamos estar preparados, como profissionais, como executivos líderes de empresas ou como gestores públicos, para entender esse fenômeno e agir de forma adequada. Impedir a inovação será contraproducente para a competitividade do país em um mundo altamente globalizado e competitivo. Por outro lado, precisamos criar mecanismos que nos permitam dominar a tecnologia,  e não sermos dominados por ela.

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data



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