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Opinião

Transformação Digital: O maior obstáculo é a TI

Sair da zona de conforto para abraçar novas tecnologias, novas práticas e novos modelos organizacionais provoca reações adversas que precisam ser superadas

Cezar Taurion *

Publicada em 29 de julho de 2016 às 09h13

“Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos apenas aonde os outros chegaram”. A frase, atribuída a Alexandre Bell, tem muito a ver com o momento atual de transformação digital e o papel do CIO.

A transformação digital está mudando profundamente o contexto estratégico, alterando a estrutura da competição, a condução dos negócios e eliminando a fronteira entre os setores de indústria. Baixa as barreiras de entrada e permite novos entrantes aparecerem muito rapidamente, ameaçando a ordem natural das coisas.

A natureza “plug and play” (como blocos Lego) dos ativos digitais cria novas cadeias de valor que desagregam as cadeias estabelecidas, forjando novos competidores.

Diante deste cenário, é inevitável que a área de TI esteja caminhando em direção a um novo mundo, onde, com algumas exceções, não haverá mais data centers, suporte a desktops, plataformas de e-mail e outras coisas que são costumeiramente mantidas hoje dentro das empresas. Quando? Difícil dizer, mas o certo é que ritmo da caminhada está se acelerando.

transformação

O que as empresas e as áreas de TI devem fazer?

O contexto das mudanças em TI não se limita à questão de colocar sua infraestrutura em cloud, mas envolve muito mais que isso. Também o desenvolvimento de sistemas, tão protegido por processos e métodos que se consolidaram por mais de vinte anos de best practices também está sob pressão. O mesmo acontece com o próprio modelo de organizar e pensar TI.

O principal desafio é mudar a maneira de pensar, o paradigma ou modelo mental, que construímos para montar o que constitui a TI hoje. Se não aceitarmos que as regras que moldaram o atual modelo de TI está sofrendo mudanças drásticas, vamos perder o tempo do processo. É uma maneira de pensar que vai contra o que aprendemos e há décadas colocamos em prática.

Vamos analisar o contexto. Muitas empresas estão focadas em modernizar o seu portfólio, consolidando aplicações, etc. Mas, questiono, será que não estão modernizando suas carruagens quando um novo veículo, o automóvel já começou a rodar pelas ruas? Que adianta modernizar os processos de fabricação de filmes químicos quando a fotografia torna-se digital?

Claro que é necessário para o CIO manter o dia a dia, mas esperar arrumar a casa para então olhar a transformação digital significa, muito provavelmente, que vai chegar na estação depois da saída do trem...

É interessante observar que quando abordamos o tema de transformação digital muitos gestores de TI colocam barreiras. Não é surpresa, uma vez que, ironicamente, TI é uma das funções mais resistentes à mudanças dentro das organizações. A explicação talvez seja a de que muitas funções em TI são dependentes do sucesso de determinadas tecnologias, para os quais os profissionais se tornaram experts. Sair desta zona de conforto e entrar em um conjunto de novas tecnologias, novas práticas e novos modelos organizacionais causa, naturalmente, reações contrárias. Como são profissionais talentosos, suas argumentações são sólidas e geralmente suportadas por seus pares.

Exemplos? Porque se ouve a todo instante que a empresa não vai para cloud porque cloud é insegura? Muitas vezes estes comentários partem de CIOs que mantém seus data centers muito mais inseguros que os oferecidos por provedores de cloud de primeira linha. O pressuposto que um data center interno é inerentemente mais seguro é muito mais um imaginário coletivo que realidade. É uma reação natural à disrupção na ordem natural das coisas...E denota indiretamente que privacidade e segurança são as principais prioridades de TI. Será que deverão ser mesmo?

Na minha opinião, aceitar e liderar estas mudanças na TI das empresas é que vai fazer a diferença entre os CIOs. TI foi doutrinada a evitar riscos e manter a operação totalmente invisível aos usuários, reduzindo custos e atendo-se à práticas estabelecidas há muitos anos. Romper com este modelo mental não é simples. Ser inovador e “early adopter” não faz parte de sua cultura e mindset. Os desafios são vários.

O primeiro é a capacitação. Será que os profissionais das áreas de TI estão capacitados, por exemplo, a trabalhar em cloud, desenvolvendo apps móveis e contextuais, utilizando práticas de entrega contínua? Muitas vezes, as próprias empresas não consideram TI como diferenciadora, apenas a enxergam como operacional. Assim, ainda é comum vermos recrutamento dos profissionais restringindo-se a capacitações já estabelecidas. Dificilmente vemos empresas buscando designers para interfaces de apps, mas vemos buscas por profissionais em Java e SQL. Vemos empresas buscando profissionais certificados em ITIL, mas não procurando pessoas com experiência em processos de entrega contínua...ou em algoritmos preditivos...Como inovar se não se busca novas capacitações, necessárias para uma nova TI?

O modelo operacional de TI é um outro aspecto importante. De maneira geral encontramos em muitas empresas uma TI orientada a custos, com papel operacional, de suporte ao negócio, e tendo este custo avaliado em relação a percentual do faturamento. Quando a receita da empresa cresce, TI pode aumentar seu budget. Quando a empresa reduz sua receita, o budget de TI também é cortado.

Penso que este modelo de “fazer mais com menos”, sufoca a capacidade dos CIOs inovarem. Eles ficam sob constante pressão para manter o dia a dia com menos custos e com poucas chances de conseguir budgets para inovar. Pior quando subordinados ao CFO, geralmente mais preocupados com lucratividade e redução e custos à curto prazo e menos com inovação. Não é vocação da maioria dos CFOs serem empreendedores e inovadores. TI poderia ser visto de outra forma, como uma função alavancadora de novas receitas. Porque TI não pode gerar oportunidades de criar novas fontes de receitas para a empresa? Para isso é necessário uma mudança no seu modelo mental, pois passaria a atuar como uma empresa por si, talvez como uma start-up.

Também precisa estar entranhada no negócio. Uma prova de como muitas empresas mantém sua TI afastada do negócio é que é muito raro vermos CIOs apresentando palestras em eventos específicos de indústria.

Um terceiro aspecto é a velocidade de resposta. Uma TI voltada a negócio, gerando receita tem que ser oportunista, o que vai de encontro aos processos atuais, que demandam longa maturação, da solicitação pelo usuário à implementação operacional. As práticas e processos de TI são rígidos e ancorados em modelos voltados a um contexto onde velocidade não é a variável mais importante. A realidade é que tornou-se comum piadas que envolvem TI com o “não” inserido nela... “não tenho recursos...não tenho tempo...não tenho capacidade computacional”...O que se busca é medir resposta em dias e não mais em semanas ou meses.

Para atuar de forma oportunista, criando novos engajamentos com clientes, é preciso atuar no tempo correto. Um atraso de semanas (meses, nem pensar) e lá se vai a janela de oportunidade. É diferente de sistemas voltados a processos básicos que suportam alguma demora para sua implementação, geralmente efetuados em “roll outs massivos”. TI deve ser por natureza ágil e veloz, em todos os aspectos.

Tecnologia é outra variável. A tecnologia vem evoluindo muito rápido e a tendência é de aceleração. Com novas tecnologias, surgem novas oportunidades de exploração para TI. Assim, dispositivos móveis e vestíveis, Internet das Coisas, Analytics, modelos preditivos, impressoras 3D, etc, não devem ser vistos como ciência futurista, mas como parte natural do portfólio. Mobilidade é um exemplo. Já está tão entranhada na sociedade e seus hábitos que falar em estratégia de mobilidade daqui a um ou dois anos será tão obsoleto como falar hoje em estratégia de eletricidade, que era novidade nos idos do inicio do século XX...

TI tem que se reinventar constantemente. Infelizmente vemos ainda muitas empresas com uma TI que parece a mesma, em sua tecnologia, processos e “best practices” de dez anos atrás. O mundo de negócios hoje não é o mesmo de dez anos atrás e a TI não pode, portanto, ser a mesma de dez anos atrás.

A TI precisa criar nova maneira de pensar a TI na empresa e prover novos serviços e produtos. Ser veloz, ágil e inovador. Infelizmente, muitas vezes, o maior obstáculo da TI é a própria TI.

 

(*) Cezar Taurion é é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data


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