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5 postulantes ao Planalto, 5 visões da agenda digital do país

Algumas propostas surpreendem, principalmente quando se leva em consideração a pouca fluência dos 5 candidatos à Presidência da República com temas como GovTech, Indústria 4.0 e Sociedade 5.0

Vitor Cavalcanti

Publicada em 09 de agosto de 2018 às 08h48

O momento atual talvez seja o mais propício dos últimos tempos para a inclusão dos temas Tecnologia e Inovação na pauta dos candidatos à Presidência da República. Se antes o assunto que dominava esse tipo de conversa era apenas o acesso à internet, com a revolução que acontece mundo afora pela popularização de tecnologias emergentes como Inteligência Artificial, Computação Cognitiva e conceitos como Indústria 4.0 e Sociedade 5.0, os candidatos já não podem ignorar o assunto e, se quiserem realmente posicionar o Brasil como ator de peso nesse novo cenário, precisam mergulhar e apresentar propostas consistentes com objetivos claros sendo, alguns, passíveis de atingir durante o mandato de quatro anos.

Os cinco candidatos convidados pelo GovTech Brasil, iniciativa organizada pelo ITS Rio e Brazil Lab, não apresentaram profundo conhecimento, mas algumas propostas surpreendem, principalmente quando se leva em consideração a pouca fluência desses representantes com a agenda digital.

Marina Silva, da Rede, Geraldo Alckmin, do PSDB, Guilherme Boulos, do PSOL, Henrique Meirelles, do MDB, e João Amoêdo, do Partido Novo, foram entrevistados individualmente pelo apresentador Luciano Huck por 20 minutos cada. A eles foi perguntado o que se encontraria em seus respectivos programas de governo sobre essa agenda digital, além de questionamentos relacionados ao trabalho que será necessário ser feito com informações, interação com iniciativa privada, entre outros.

A identidade digital, um único documento e que dê acesso ao cidadão a quase todos os serviços públicos de forma simples, online e sem burocracia, apareceu de forma consistente nas falas de Amoedo, Boulos e Alckmin. Os três disseram estar convictos de que isso se faz necessário para incluir o País num contexto digital, além de permitir a democratização do acesso aos serviços. Dos cinco, Meirelles se mostrou o menos íntimo do assunto e com poucas propostas, embora tenha se auto-definido como um “geek” nesta fase candidato.

planalto

Avaliando friamente os cinco postulantes, Marina, Alckmin e Boulos foram mais consistentes em suas respostas e apresentaram coerência em suas propostas. Meirelles ainda carece de um plano e ideias mais concisas e, Amoedo, tirando a identidade digital, parece ter se apegado ao termo Blockchain, amplamente repetido em suas repostas, e reconhecer nesta tecnologia a possibilidade de cumprir o que parece ser uma de suas promessas de campanha que é o fim dos cartórios e, consequentemente, a redução da burocracia. Das entrevistas realizadas por Luciano Huck, destacamos os seguintes pontos de cada candidato:

João Amoêdo, Partido Novo
“Usar tecnologia é mudar a política e dar mais poder e liberdade às pessoas. É uma transferência de poder.”

“Identidade digital é premissa. Temos de pensar o novo e não digitalizar processos ruins.”

“Queremos usar blockchain para acabar com cartórios, reduzindo a burocracia.”

“Em saúde queremos prontuário eletrônico, agendamento, receituário, tudo digital, tem possibilidade também em telemedicina, mas hoje a burocracia prejudica, já que para consultar um especialista em São Paulo por vídeo, a pessoa que está no Amazonas precisa ter um médico ao lado.”

Guilherme Boulos, PSOL
“O digital não é uma caixa, tratamento será transversal para políticas públicas. Queremos promover unificação de dados em segurança pública para ter mais inteligência, e participação e transparência na gestão pública. Minhas prioridades serão o login cidadão, ou identidade digital, e a universalização do acesso, sair um pouco do eixo Rio-SP.”

“É preciso ampliar o investimento público em pesquisa e inovação. O privado não resolve tudo sozinho.”

“Dados são essenciais, o senso, com uso de tecnologia, poderia ser em tempo real e não a cada 10 anos. Em segurança pública estamos no século XIX, é impressionante. O Rio de Janeiro, com todos os problemas, investiu apenas R$ 2.400,00 em inteligência com todos os problemas.”

“Defendo o código aberto e não a propriedade. Temos de pensar em Democracia 5.0, usando a tecnologia como forma de representação da sociedade.”

Henrique Meirelles, MDB
“Precisamos digitalizar o governo federal. No Ministério da Fazenda, conduzi a digitalização de diversas ações na Receita Federal. Existem iniciativas em andamento, mas agora se pede outra etapa.”

“Defenderia a implantação do cartão nacional, que não seja só um RG, mas que traga tudo, inclusive histórico médico.”

Geraldo Alckmin, PSDB
“Precisamos desburocratizar, destravar e simplificar a economia. E isso não se faz sem uma agenda digital. Teremos mais transparência, serviços públicos de melhor qualidade e buscaremos ideias e experiências bem sucedidas para isso.”

“A tecnologia não será um ministério, mas terei alguém perto para trabalhar essa agenda digital de forma permanente. O Presidente da República tem de liderar esse processo tendo alguém ao lado e permeando as ações em todos os ministérios.”

“Em São Paulo fizemos o PitchGov e dessa iniciativa surgiu o Poupinha, uma aplicação de inteligência artificial para atendimento online do Poupa Tempo, que já prestou 80 milhões de atendimentos.”

“Temos que universalizar o acesso à web, um terço da população não tem acesso e um terço das escolas não tem conexão. A partir disso, partiremos para melhorar serviços públicos, usar experiência internacional de identidade digital e ampliar acesso aos serviços, porque ainda temos a cultura de cartório.”

“Não existe reforma do Estado sem governo digital para ter mais transparência, menos custo e mais eficiência. O papel do Estado tem de ser planejador, regulador e fiscalizador e isso não o diminui, até o fortalece.”

Marina Silva, Rede
“A tecnologia não é o fim, se assim for, não se transforma em cultura e ela precisa andar com desejo e virar hábito das pessoas.”

“Queremos tecnologia para um estados aberto e transparente, usa-la para que as pessoas tenham mais acesso e fazer uso intensivo de dados também para combater desvios.”

“Uso de parcerias com empresas ou startups é bom, mas não se abre mão do que está pronto e se ressignifica algumas tecnologias. Não se pode partir do princípio que faremos tudo dentro de casa e perder os avanços. Quando ministra, usei cooperação para combater desmatamento com tecnologia pois não havia solução 100% nacional.”

“Na questão dos dados, temos de trabalhar um sistema para proteger o cidadão. Base integrada sobre vida das pessoas, mas com proteção para não ficar vulnerável, seja do ponto de vista de privacidade ou de interesses gerais no uso dessa informação.”

“Tecnologia é bom para avanço da pesquisa, da qualidade de vida, mas tem a ciência do saber, do escutar, do perceber. O saber narrativo não deve ser negado ou perdido.”

O que ficou de fora
O impacto da tecnologia no trabalho e como resolver essa equação foi muito pouco explorado. Geraldo Alckmin lembrou que será preciso educar para as profissões do futuro, mas não teceu comentários sobre o que fazer com a massa de desempregados que pode surgir a partir de automações diversas. João Amoêdo, por sua vez, pareceu mais preocupado em defender a robotização de tudo, sem pensar muito nas consequências, enquanto Guilherme Boulos, frisou a necessidade de a tecnologia servir o cidadão e não o contrário.

Ele se disse a favor de automatizar ou mesmo substituir alguns trabalhos por robôs desde que isso traga benefícios ao cidadão ou, no caso, à empresa, e que, no processo, seja prestado um tratamento aos funcionários que perderão seus empregos, com treinamentos e outras ações para que essa pessoa possa ser recolocada.

Em dois dias de discussões, o GovTech passou por temas como educação, segurança pública, empreendedorismo e trouxe experiências internacionais como da Estônia, Uruguai, Índia e Israel, com o intuito de, a partir do material gerado, criar um documento com propostas para uma agenda pública digital. Diversas iniciativas estão em curso no País com o objetivo macro de inserir o Brasil nesse novo contexto mundial, a exemplo do próprio Movimento Brasil Digital, que traz como objetivo transforma o Brasil num País inovador e inclusivo. O Movimento, que já conta com 27 empresas associadas, entre elas a IT Mídia trata essa agenda de forma mais ampla, observamos quatro pilares estratégicos (infraestrutura, educação, empreendedorismo e governo) além de um transversal que é a inclusão.

Informação e subsídio não faltarão aos candidatos interessados em investir nessa agenda e deixar um legado para um País que, embora tenha talento, escala e amplas possibilidades, sempre sofre pela falta de uma agenda de nação. E, no caso do digital, o tempo é o maior inimigo pela velocidade da transformação. Fala-se em 800 milhões de postos de trabalho que fecharão em todo o mundo por conta da automação, outros milhões surgirão para os países bem preparados. Resta saber de qual lado estará o Brasil: do de ator relevante e atuante ou do mero espectador e consumidor.



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