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Mulheres sempre foram protagonistas em computação

Ada Lovelace, Grace Hopper, Hedy Lammar, Anita Borg e Radia Perlman revolucionaram a área e servem de inspiração para uma nova geração de profissionais

Carla Matsu

Publicada em 08 de março de 2017 às 08h45

Algumas das principais contribuições da história da tecnologia da informação têm em sua autoria os esforços de grandes mulheres. Ada Lovelace, Grace Hopper, Hedy Lammar e Karen Spark Jones, só para citar algumas das mais conhecidas, foram responsáveis por desenvolver tecnologias que tornariam os dias atuais impraticáveis sem o apoio delas. Mas, até hoje, a participação feminina no setor de tecnologia é baixa. As mulheres representam apenas um quarto da força de trabalho do setor e aproximadamente 18% das graduações em ciência da computação.

"As mulheres são 40% da força de trabalho mundial e constituem mais da metade dos bacharéis universitários. Apesar disso, apenas de 3% a 5% dos cargos de administração de alto escalão na área de tecnologia são ocupados por mulheres", afirma a diretora-geral da GSMA, Anne Bouverot.

Por mais que muitas das grandes invenções de TI tenham surgido de mãos e mentes femininas, elas ainda se sentem subjugadas em equipes de desenvolvedores em todo o mundo. O ambiente hostil, a sensação de isolamento e a falta de perspectiva na carreira estão entre os principais fatores citados por elas como causas do abandono de profissões e crusos técnicos.

A organização sem fins lucrativos Girls Who Code prevê que, até 2020, 1,4 milhão de trabalhos serão ofertados no setor de Tecnologia da Informação e isso somente em relação aos Estados Unidos. É a indústria que mais cresce, seja em países desenvolvidos, ou em países em desenvolvimento, como o Brasil.  Mas, de acordo com o último Censo do IBGE, realizado em 2010, apenas 20% dos empregos em tecnologia da informação no Brasil eram ocupados por mulheres. 

Essa desigualdade começa a aparecer já no período escolar. Segundo um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômic0), o número de meninos que sonham em seguir uma carreira em engenharia ou informática é quatro vezes maior que o de meninas.

Um estudo conduzido pela Accenture e pelo grupo Girls Who Code, mostra que, se nada for feito, o percentual de mulheres na TI será de 22% em 2025 (hoje está em 24%), a menor taxa da história e uma longa queda se comparado com os 37% de 1995.

“As empresas precisam de talento técnico e as mulheres representam mais da metade do capital intelectual do mercado. Se as companhias desejam atrair os melhores profissionais, então é fundamental que não negligenciem as habilidades que as mulheres têm a oferecer”, atesta Telle Whitney, CEO do Instituto Anita Borg (ABI), ONG que trabalha para avançar a condição feminina na indústria da computação.

Anita Borg tinha um sonho: garantir que, em 2020, 50% de todos os cargos na área de TI estivessem ocupados por mulheres. "Esse é um trabalho muito difícil, mas não consigo pensar em nada mais importante que eu quisesse fazer para o resto da minha vida e que pudesse causar tanto impacto positivo na vida de jovens mulheres", disse em uma de suas apresentações.

Aos poucos, o cenário de desigualdade começa a mudar. Segundo as estatísticas atuais de todos os segmentos tecnológicos, há cada vez mais mulheres nas salas de aula. Pelos dados do Instituto Zethos de Educação Corporativa (IZEC), essa mudança de gênero de alunos tem sido notada há algum tempo e a mulher já é considerada maioria quando o assunto é aprendizado de tecnologia. O instituto, que oferece cursos de software, mostra que a média é de 62% de mulhesres.

Representatividade é uma das chaves para recrutar e preservar mais mulheres no setor de TI. Mirar-se no exemplo de outras mulheres e jogar luz à trajetória delas é uma forma de engajar novas profissionais. Na lista a seguir, relembramos algumas das grandes personalidades femininas que contribuíram para mudar a Tecnologia da Informação e  por que a trajetória profissional delas serve de  inspiração para as novas gerações. 

 

Ada Lovelace
Primeira programadora da história
10 de dezembro, 1815 - 27 de novembro, 1852

Considerada a primeira pessoa do mundo a programar um computador, Ada Lovelace escreveu um algoritmo para uma máquina computacional que até então existia somente em papel. Filha do poeta inglês Lord Byron e Anne Isabella Milbanke, Ada foi incentivada pela mãe a estudar matemática e lógica, um caminho que eventualmente a aproximou do cientista Charles Babbage, criador da primeira máquina analítica, uma espécie de computador de uso geral. Ao traduzir um artigo do matemático italiano Louis Menebrea, que detalhava a máquina analítica, Ada deixou claro que compreendia o tema: ela acrescentou uma série de anotações, fazendo o artigo original triplicar de tamanho. Nele, Ada explica como a máquina em questão poderia computar uma série de números complexos, chamados de Sequência de Bernoulli. Em resumo, Ada criou o primeiro software de computador, antes mesmos da existência concreta de um. A matemática morreu jovem, aos 36 anos, em decorrência de um câncer de útero. O reconhecimento do seu trabalho veio cerca de um século depois, com a republicação de suas notas que trazem a descrição de um modelo de computador e seu respectivo software. Como homenagem, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou um código de linguagem e o batizou de ADA, no ano de 1979. Ada foi visionária ao entender que números poderiam representar mais do que quantidades e previu que máquinas poderiam ser usadas para compor música, produzir gráficos e serem úteis para ciência.  

 

Grace Hopper
A Grande Grace
9 de dezembro, 1906 - 1º de janeiro, 1992

Grace Murray Hopper tinha apenas 7 anos quando para entender como funcionava seu pequeno despertador chegou a desmontar os sete que havia em sua casa. Sua curiosidade levou a uma vida frutífera que dá a Grace o reconhecimento como uma das mulheres mais importantes da história da computação. Nascida em 9 de dezembro em Nova York, Grace se formou em matemática e física na renomada Vassar College e conquistou um Ph.D em matemática em Yale. Na Marinha americana, rapidamente ascendeu para posição de tenente e foi integrada à equipe do computador Mark I na Universidade de Harvard.  Grace é também uma das peças-chave no desenvolvimento das especificações da linguagem COBOL (Common Business-Oriented Language). “Amazing Grace”, como chegou a ser apelidada, ainda dedicou grande parte de seu tempo para validar procedimentos que levariam a padronização internacional de linguagens de computador. Sua trajetória é uma inspiração para outras profissionais e desde 1994 um evento para incentivar mulheres na área é realizado sob o seu nome “Grace Hopper Celebration of Women in Computing”. Hopper trabalhou até os últimos anos de sua vida, veio a falecer em janeiro de 1992, aos 85 anos.

hopper

 

Hedy Lamarr
De Hollywood ao Wi-Fi
9 de novembro, 1914 - 19 de janeiro, 2000

Chamada de “a garota mais bonita do século” por Louis B. Mayer, o magnata dos estúdios MGM, Hedy Lammar colocou seu nome nos holofotes de Hollywood ao estrelar 30 filmes entre os anos 1930 e 1950, entre eles “Êxtase” e “Sansão e Dalila”. Mas Hedy, natural da Áustria, foi também uma inventora, cuja perspicácia e curiosidade a levaram a desenvolver a chamada tecnologia “frequency hopping”, sistema que evita a interceptação de mensagens e é usado também nas redes wireless e no GPS. Ao lado de seu amigo, o compositor George Antheil, ela desenvolveu a ideia durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de melhorar os sistemas de envio de torpedos dos Aliados para que eles não pudessem ser interceptados pelos nazistas. A técnica permite que o emissor transmita em frequências variadas e evita que terceiros consigam captar a informação. Hedy e Antheil patentearam a invenção em 1942 e a entregaram ao governo dos Estados Unidos, que não chegaram a implementar no envio de mensagens, mas usaram 20 anos depois durante a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, quando a tecnologia militar de salto de frequência foi implementada pela primeira vez em larga escala.

 

Joan Clarke
A criptoanalista que salvou vidas
24 de junho, 1917 - 4 de setembro, 1996

O trabalho de Joan Clarke como decodificadora durante a Segunda Guerra Mundial ajudou a salvar milhares de vidas. No entanto, sua contribuição não ganhou os devidos créditos. A criptoanalista e decodificadora trabalhou ao lado de Alan Turing no Bletchley Park, do Government Code and Cypher School (GCCS) serviço de inteligência britânico e foi uma das mentes brilhantes responsáveis pela quebra das mensagens secretas nazistas, trabalho intensivo que contribuiu com o fim da guerra. Amiga de Turing, de quem por um breve período foi noiva, Joan foi a única mulher a trabalhar no projeto de decodificação das máquinas Enigma. As mensagens que Joan decodificou resultaram em algumas ações militares tomadas quase que instantaneamente, essas que preveniram navios lotados de serem naufragados. Apesar de ter sido reconhecida pela Ordem do Império Britânico em 1947, após seu trabalho na Segunda Guerra Mundial, Joan, que faleceu em 1996, nunca se viu reconhecida por ter contribuído com o Projeto Enigma.

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Frances E. Allen
4 de agosto de 1932
A primeira mulher a ganhar um Turing Award

Frances E. Allen começou a trabalhar para a IBM em 1957. O que começou como um trabalho para ensinar o que na época era uma nova linguagem de programação, a Fortran, a levou a uma carreira na área de otimização de compiladores – programas que traduzem código fonte em código que podem ser usados diretamente por um computador. Ela também trabalhou na otimização e paralelização de código, algo que permitiu que softwares avançados rodassem de maneira melhor até mesmo nos computadores mais fracos. As técnicas que resultaram de sua pesquisa e trabalho ainda são usadas nos compiladores de hoje. Frances foi a primeira mulher a receber um Turing Award, considerado como o Prêmio Nobel da computação.

 

Karen Spärk Jones
Simplificando o processamento de linguagem
26 de agosto, 1935 - 4 de abril, 2007

Se em sua vida você já buscou algo no Google, agradeça a britânica Karen Spark Jones pela facilidade que você tem ao encontrar resultados ali. Seu trabalho em processamento de linguagem natural e recuperação de informação tornou possível para pessoas interagirem com computadores usando palavras simples ao invés de códigos. Ela também inventou o método usado para determinar a importância de um termo em um documento, algo que motores de busca usam para pontuar e classificar a importância de um documento em uma consulta de pesquisa. Não muito depois de sua morte, em 2007, Karen recebeu a medalha Lovelace da Sociedade de Computação Britânica.

 

Anita Borg
Juntas, mudaremos o setor da tecnologia
17 de janeiro, 1949 - 6 de abril, 2003 

Cientista de computação, Anita Borg dedicou sua vida a aumentar a participação das mulheres na área de tecnologia. Em 1994 fundou o “Grace Hopper Celebration of Women in Computing” ao lado de Telle Whitney e criou o Institute for Women and Technology, em 1997, e que hoje leva o seu nome. Em 1987, Anita criou uma das maiores comunidades de e-mail para mulheres, a Systers, em uma época que comunidades online não eram populares, quem dirá um fórum para mulheres em tecnologia.  Em 1992, quando Mattel Inc. começou a vender uma Barbie que dizia “matemática é muito difícil”, Anita e o coletivo de mulheres do Systers se levantaram e desempenharam um papel importante ao fazer com que a fabricante retirasse a frase do microchip da Barbie. Anita lutava para que mulheres estivessem envolvidas em todos os aspectos da definição do futuro da tecnologia, desde sua política a pesquisa, ao design e implementação. "Nós devemos estar lá para assegurar que a tecnologia do futuro nos sirva bem", dizia. Pesquisadora, Anita recebeu seu Ph.D em 1981 na Universidade de Nova York ao concluir dissertação sobre princípios de sistemas operacionais. Anita faleceu aos 54 anos, vítima de câncer cerebral.

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Radia Perlman
A “mãe” da Internet
1º de janeiro, 1951

Comumente chamada de “Mãe da Internet”, Radia Perlman projetou dois protocolos que têm sido a base da movimentação de dados na Internet por décadas; IS-IS que roda na maioria dos ISPs e o padrão Spanning Tree Protocol, coração da Ethernet. Depois de se graduar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em matemática em 1976, o empregador de Perlman deu a ela a tarefa de tornar computadores confiáveis para compartilhar informações. Sua solução foi o STP, que desativa caminhos que não são parte do protocolo para determinar caminhos de backup. Perlman agora trabalha em uma tecnologia chamada TRILL para substituir o STP e fazer melhor uso do comprimento de banda. Ela detém mais de 100 patentes e já recebeu muitos prêmios.

 



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