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Momento é o de conduzir a Inteligência Artificial e não o de ser levado por ela

Pensem o que será combinar machine learning, deep learning e IoT, por exemplo...

Cezar Taurion *

Publicada em 22 de março de 2017 às 08h20

Acompanho de perto a evolução da IA, mas a coletânea de tantas aplicações publicadas no artigo “59 impressive things artificial intelligence can do today” me deixou realmente impressionado. A lista é bem ampla, e apresenta exemplos de Inteligência Artificial em funções como reconhecer objetos em vídeos e fotos, reconhecer emoções em um rosto humano, traduzir diferentes línguas, dirigir um veículo, pilotar um drone, detetar sinais de câncer nos pulmões com mais eficiência que um médico,  detetar sinais de pragas nas colheitas, detetar malware e inúmeras outras aplicações.

Vale a pena explorar os diversos sistemas de IA descritos no artigo, em setores tão díspares como finanças, jurídico, agricultura, programação de computadores, meteorologia, etc.

Para mim está claro que estamos diante de um ponto pivotal na sociedade. A revolução digital está nos proporcionando uma avalanche de mudanças tecnológicas com potencial para redesenhar a própria essência da sociedade e claro, as empresas, seus modelos de negócio e as profissões. O desafio é muito grande e temos que entender a dinâmica destas transformações para não sermos levados por ela, mas sim, a conduzirmos.

O impacto da IA não pode e nem deve ser subestimado. Recomendo um livro instigante, chamado “Technology vs. Humanity: The Coming Clash Between Man and Machine”, do futurista (e que se diz agorista, devido à velocidade das mudanças) Gerd Leonhard. Também sugiro uma olhada nos seus vídeos, curtos, mas instigantes].

Nós já observamos no dia a dia estas mudanças. Elas já estão ocorrendo. Novos modelos de negócio em empresas que não existiriam se a tecnologia digital não evoluísse tão significativamente, como Uber, Google, Facebook, Amazon, Airbnb, WhatsApp e Instagram, entre tantas outras. Empresas de tecnologia que alugam hospedagem sem ter um único quarto de hotel.

O que já vemos nos mostra que provavelmente a humanidade mudará tanto nos próximos 20-30 anos como nos 300 anos anteriores. Vocês conseguem imaginar o mundo em 1717? Alguém naquela época conseguiria imaginar um automóvel? E ainda por cima sem motorista? A Internet? Um smartphone? Qualquer menção a estas bruxarias seria alvo de inquisição. Sim em julho de 1717 ainda ocorria casos de inquisição no Rio de Janeiro.

Hoje a velocidade exponencial das mudanças nos permite até pensar em substituir o termo ficção científica por antecipação científica ou até mesmos fatos científicos.

Exmachina

Nosso arraigado hábito de extrapolar o futuro baseado no presente ou passado recente, no pressuposto que o que vem funcionando bem até agora, com algumas melhorias e ajustes, continuará funcionando no futuro dificilmente se manterá. Temos pela frente uma nova realidade, provocada pelo impacto de mudanças exponenciais e combinatórias das tecnologias digitais. O futuro não será extensão do passado. É aqui que identificamos o ponto de inflexão, onde as curvas de evolução exponencial de muitos campos da ciência e tecnologia provocarão disrupções na sociedade. O potencial disruptivo da evolução exponencial e combinatória é dramática: pensem o que será combinar machine learning, deep learning e IoT, por exemplo.

A evolução exponencial é de difícil percepção, tanto no início, quando se parece muito com a linear e passa desapercebida, e depois, quando cresce vertiginosamente. No início, mesmo dobrando a períodos de tempo curtos, como poucos meses, não sentimos seu efeito quando uma tecnologia é utilizada apenas por 0,1% das pessoas, depois 0,2%, 0,4%... mas quando chega a 16%, no próximo ciclo estará a 32%, no terceiro 64%, e no quarto praticamente já estará totalmente disseminada.

Em uma era de exponencialidades, não é mais possível mantermos nosso pensamento e nossa estratégia de negócios baseada na linearidade. Se o fizermos, seremos levados a fracassos, simplessmente por não conseguirmos visualizar as mudanças em tempo hábil.

A IA tem um papel primordial. Diante destas mudanças, existem visões pessimistas e otimistas. O instigante e polêmico livro “Superintelligence: paths, dangers, strategies”, de Nick Bostrom, diretor do Future of Humanity Institute, da Universidade de Oxford, no Reino Unido mostra uma visão alarmista.  Surpreendentemente, o livro, apesar do tema aparentemente ser inóspito, foi um dos best sellers do New York Times.

Ele debate a possibilidade, real, do advento de máquinas com superinteligência, e os benefícios e riscos associados. Ele pondera que os cientistas consideram ter havido cinco eventos de extinções em massa na história de nosso planeta, quando um grande número de espécimes desapareceu. O fim dos dinossauros, por exemplo, foi um deles. Hoje estaríamos vivendo uma sexta, causada pela atividade humana. Será que não estaremos na lista de extinção?  Claro existem razões exógenas como a chegada de um meteoro, mas ele se concentra em uma possibilidade que parece saída de filme de ficção científica, como o “Exterminador do Futuro”.

AIfilme

O livro é polêmico e parece meio alarmista, mas suas suposições podem, sim, se tornar realidade. Alguns cientistas se posicionam a favor deste alerta, como o físico Stephen Hawking, que disse textualmente: “The development of full artificial intelligence could spell the end of the human race”. Também Elon Musk, que é o fundador e CEO da Tesla Motors tuitou recentemente: “Worth reading Superintelligence by Bostrom. We need to be super careful with AI. Potentially more dangerous than nukes”.

Mas, pelo lado positivo, Bostrom aponta que a criação destas máquinas pode acelerar exponencialmente o processo de descobertas científicas, abrindo novas possibilidade para a vida humana. Uma questão em aberto é quando tal capacidade de inteligência seria possível.

Pesquisa feita com pesquisadores de IA, apontam que uma máquina superinteligente - Human Level Machine Intelligence (HLMI) – tem 10% de chance de aparecer por volta de 2020 e 50% em torno de 2050. Para 2100, a probabilidade é de 90%!  Sabemos hoje que uma pessoa com QI de 130 consegue ser muito melhor no aprendizado escolar que uma de 90. Mas, se a máquina chegar a um QI de 7.500? Ou 25.000? Não temos a mínima ideia do que poderia ser gerado por tal capacidade. Vale a pena aprofundar o assunto. Sugiro ler um estudo chamado “Concrete Problems in AI Safety” e para quem quiser se aprofundar no tema sugiro acessar “Benefits & risks of Artificial Intelligence”, que contém links para dezenas de vídeos, artigos e estudos sobre o assunto.

Indiscutível que a IA vai afetar a sociedade e o emprego como conhecemos. A automação, em seu início, afetou as linhas de produção nas fábricas. Agora o risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos. Por exemplo, motorista de caminhão. É um dos trabalhos mais comuns no mundo todo. São 3,5 milhões deles nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um milhão registrados para o transporte de carga. 

O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem motorista cruzando a Europa. O Uber pagou US $ 680 milhões para comprar Otto, uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada por especialistas de IA do Google. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas. Em talvez 15 anos, o motorista de caminhão, como o ascensorista, será um anacronismo. O Uber investiu no Otto não apenas para operar caminhões, mas porque quer operar frotas de carros autônomos. Em setembro de 2016, começou a testar essa frota em Pittsburgh. O serviço postal do Canadá quer enviar aviões não tripulados em vez de vans para entregar correio rural.

Os avanços na Inteligência Artificial e Robótica estão impulsionando uma nova era automatização inteligente, que será um importante motor de disrupção empresarial e social nos próximos anos. Afetará as empresas, empregos, sociedade e a economia. Obrigará a revisão da atual formação educacional, e demandará fortes ações por parte de governos e das empresas. É essencial que as corporações de todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás. IA não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar nas reuniões do board e do CEO.


(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures  e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data



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