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Gestão

Mudança contínua é o novo normal

E Agile é o primeiro passo para a empresa que, de fato, inicia sua Transformação Digital. O princípio básico da operação da empresa, não apenas uma metodologia

Cezar Taurion *

Publicada em 16 de fevereiro de 2017 às 07h57

A disrupção provocada pela revolução digital é um tema recorrente nas minhas palestras e reuniões com clientes e amigos. Comentam muito sobre as startups,  disruptivas por natureza. Mas embora muitas chamem atenção, por seu tamanho e crescimento rápido, nem todas sobreviverão. É assim no cenário de negócios. O importante é compreender a essência da disrupção, não o disruptor em si. O que a disrupção representa é mais duradouro. E é o que vamos debater neste artigo.

A disrupção chamada de Transformação Digital é a mudança organizacional, provocada pelo uso inovador de tecnologias digitais e adoção de novos modelos de negócios, que reposicionam competitivamente a empresa no cenário empresarial. As organizações estão constantemente fazendo melhorias, mas o que realmente caracteriza a Transformação Digital não é apenas uma mudança incremental, mas uma significativa mudança na organização, fortemente influenciada pelas tecnologias digitais. É a transformação de processos, pessoas, estrutura organizacional, modelos de negócio e estratégia, com o objetivo de melhorar substancialmente seu desempenho corporativo. 

Esses critérios eliminam da lista de empresas que estão fazendo Transformação Digital, de fato, aquelas que estão apenas implementando um app aqui, outro ali. Ou criando um canal de vendas online. Mudaram algo substancial nos seus processos? Nas suas estruturas organizacionais? Nos seus modelos de negócios? Melhoraram significativamente sua competitividade e desempenho? Não? Pois é...

A motivação para a Transformação Digital é indiscutível. Todos os setores de negócio serão afetados por ela. As empresas que não se movimentarem, terão dificuldades de sobrevivência frente à startups e outras empresas que se moverem primeiro. Além disso, seu setor de negócio pode ser invadido por empresas de setores adjacentes ou que vêm de fora. Alguém da indústria fonográfica tinha sonhado que uma empresa fabricante de microcomputadores como a Apple seria a líder do segmento em poucos anos? A IBM imaginava que um varejista de livros como a Amazon seria a líder em Cloud Computing?

Agile é o primeiro passo
E a base para a Transformação Digital é, antes de mais nada, ser uma empresa ágil. A importância de ser uma empresa digital e ágil deve ser a ação principal dos CEOs que objetivam a Transformação Digital. A Harvard Business Review publicou um artigo instigante sobre o tema, chamado “Embracing Agile”, escrito por Hirotaka Takeuchi e Jeff Sutherland. Para relembrar, Takehuchi foi o criador do método Scrum e Sutherland um dos responsáveis por aplicá-lo no desenvolvimento de software, a partir dos princípios definidos pelo “Agile Manifesto”.

O importante é considerar que, embora Agile e Scrum sejam geralmente vistos apenas como aplicáveis a software, podem e devem ser aplicados a toda a organização. Isso significa, por exemplo, que Agile deve ser o princípio básico da operação da empresa! Uma organização ágil muda sua maneira de agir, em contraste com os modelos organizacionais da sociedade industrial, baseados no paradigma da estabilidade, mudanças lentas e um entrincheirado modelo de gestão hierárquico, tipicamente dilbertiano, de comando-e-controle.

Aliás, o “Agile Manifesto” deveria ser leitura obrigatória para todos os CEOs, C-level e CIOs (tenho certeza que muitos dos CIOs não o leram). A maior prioridade ditada pelo manifesto é “is to satisfy the customer”. Uma declaração revolucionária!?! Longe disso. Em 1954, Peter Drucker já dizia que “The only valid purpose of a firm is to create a customer”. Mas, embora a maioria das empresas diga “o cliente em primeiro lugar”, na prática sua prioridade é satisfazer seus acionistas a partir da valorização de suas ações.

agile

Ser ágil, por si só, já é uma grande mudança transformacional para as empresas, mais ou menos como a revolução de conceitos que Copérnico provocou na astronomia ao derrubar o geocentrismo. Ágil significa que no centro do universo não está mais a empresa (e os clientes em órbita), mas o próprio cliente. A empresa é que orbita em torno dele. Isto implica proporcionar experiências positivas e inovação contínua. 

Portanto ser ágil não é  apenas implementar uma metodologia, mas uma fazer uma mudança cultural significativa. Ser ágil não é opção, mas a base fundamental para competir na economia digital. Para atuar na economia digital, você tem que fazer a transformação digital do seu negócio, e para fazer esta transformação você precisa ser ágil. Simples assim! 

Recomendo também a leitura do excelente artigo de Leandro Jesus e Michael Rosemann, “The Future BPM: Seven Opportunities to Become the Butcher and not the Turkey”, que aborda as mudanças radicais nos tradicionais modelos de gerenciamento de processos.

O desafio da disrupção é que muitas vezes seus primeiros sinais passam despercebidos. Abordei este fenômeno em um artigo recente. Mas, quando chega, seus efeitos causam mudanças em setores que, à primeira vista, não teriam a mínima ligação com a disrupção. Vamos exemplificar com veículos autônomos, que já estão se tornando realidade.

Que indústria seriam afetadas pelos veículos autônomos? De imediato pensamos na própria indústria automotiva. A convergência do veículo autônomo com o conceito de compartilhamento (economia do compartilhar ou shared economy) implica que menos veículos serão fabricados, pois menos pessoas tenderão comprar um veículo. Por que comprar, se posso usá-lo de forma fácil e mais barata? O impacto na indústria automotiva afeta a indústria de autopeças e oficinas. Primeiro, a disseminação de veículos elétricos demanda menos componentes. Depois, mais e mais peças complexas fabricadas em impressoras 3D diminuem o número total de peças básicas, e em terceiro, veículos autônomos se propõem a provocar menos acidentes. A maioria dos acidentes de carros é causada pelo fator humano.

E a  a disrupção vai muito além da própria indústria automotiva! As mudanças afetam também outros setores, como o mercado de táxis e seus motoristas. Aliás, motoristas profissionais, de táxis e caminhões, tendem a desaparecer. Empresas de entregas são outras que correm risco de serem afetadas pela combinação de drones e veículos autônomos fazendo entregas em seus roteiros. E hotéis? Sim, com as pessoas podendo dormir em uma viagem longa no veiculo (lembre-se que a configuração interna será bem diferente das atuais de hoje) talvez não precise de um pernoite no hotel. Talvez só irá usá-lo para um banho. Talvez novos tipos de hospedagens rápidas sejam construídas. Isto também pode afetar voos regionais! E as companhias de seguro? Os modelos de seguro de veículo para pessoas físicas de hoje deverão mudar completamente. 

A indústria de saúde terá que lidar com menos vítimas de acidentes. Menos multas de trânsito, receitas menores para as prefeituras. Teremos menos necessidade de espaço reservado para estacionamentos, o que pode facilitar revitalização de espaços públicos. Veículos autônomos permitem que as pessoas trabalhem no próprio veiculo, diminuindo a necessidade das pessoas morarem perto do trabalho. Além disso, como as pessoas não terão que se preocupar em dirigir o veículo, poderão aproveitar o tempo em trânsito para entretenimento e lazer. O veículo passa a ser um hub de entretenimento e mídia. 

Um exemplo prático do que está por vir é a Tesla. Primeiro afetou a indústria automotiva. Sua capacidade de atualizar as funcionalidades do veículo através de downloads de software mantém seus veículos mais valiosos no tempo do que os fornecidos pelas montadoras tradicionais. Em maio de 2015, utilizando sua experiência em baterias, a Tesla entrou no setor de energia solar para residências, afetando a indústria de energia. A tecnologia básica que impactou a indústria de automóveis é facilmente transferível para geração de energia. É um exemplo de como uma disrupção em um setor se propaga por diversos outros setores, pegando de surpresa empresas que nem desconfiam que aquela inovação em um setor distante será um risco para o seu negócio, muito em breve.

Este cenário de mudanças contínuas, em um mundo empresarial cada vez mais complexo, imprevisível, volátil e ambíguo, será o nosso “business as usual”. Preparados?

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

 


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