Recursos/White Papers

Gestão

Direito de se desconectar: vilão ou aliado da produtividade?

A restrição de acesso ao e-mail, apps de mensagens e sistemas da empresa depois do horário de trabalho aumenta ou reduz o desempenho dos funcionários?

Da Redação, com IDG News Service

Publicada em 11 de janeiro de 2017 às 10h32

No dia 3 de janeiro, entrou em vigor, na França, uma lei que dá aos trabalhadores o “direito de se desconectar” do correio eletrônico, dos apps de mensagens e até das chamadas de voz após o horário de trabalho. Outros governos estudam essa prática, desafiando empresas a trabalhadores a debater o tema no âmbito da negociação coletiva.

Defensores da nova lei afirmam que funcionários não estão recebendo pagamento justo por horas extras trabalhadas, quando empregadores esperam que trabalhadores estejam disponíveis para responder solicitações por e-mail ou celular. E que de estar permanentemente disponível aumenta o risco da chamada Síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental), problemas do sono e dificuldades nos relacionamentos.

Mas, e na prática, a restrição de acesso após o horário de trabalho aumentará ou reduzirá a produtividade nas empresas? Especialistas respondem.

Para alguns deles, mensagens de correio electrónico que chegam durante a noite, ao fim-de-semana ou durante as férias podem gerar stress e afetar a vida pessoal. A cultura “sempre ligado” pode ter impactos nocivos para a produtividade a longo prazo, porque os colaboradores não têm oportunidade de descansar e recarregar energias, dizem os analistas. Algumas empresas estão atentas ao problema.

A título de exemplo, o fabricante de automóveis alemã Daimler criou um recurso opcional chamado “Mail on Holiday” que apaga automaticamente os “e-mails” que chegam durante as pausas. Através de uma mensagem de resposta automática, dá aos remetentes contatos alternativos ou sugere o reenvio da mensagem durante os horários de expediente do funcionário. Está disponível para 100 mil trabalhadores na Alemanha.

Esta medida “evita o congestionamento das caixas de entrada, alivia a pressão de ter de ler mensagens durante as férias e deixa a caixa de entrada administrável quando o empregado volta ao trabalho”, explica a companhia.

Nunca é demais lembrar que a lei francesa entrou em vigor este mês e obriga as empresas, com mais de 50 empregados, a criar uma regra de “desligamento” que regule as comunicações fora do horário de expediente e durante as férias. A nova lei está incluída em um pacote de reformas da legislação trabalhista que torna mais fáceis a redução dos salários e de postos de trabalho.

Durante o verão, milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra este pacote. “Com o índice de aceitação da lei bem baixo entre os franceses, foram incluídos alguns ‘mimos’ para reverter a situação”, disse o consultor da OpenVMS, Gerard Calliet. Entre esses “mimos” estava a inclusão “do direito de se desligar”.

O governo francês diz que ficar sempre conectado é um problema grave, universal e crescente. No entanto, muitos duvidam que a restrição vá funcionar tendo em vista que a nova lei não prevê sanções às companhias que desrespeitarem os limites.

A França alterou as leis trabalhistas para ajudar a reduzir 10% a taxa de desemprego. Mas, James W. Gabberty, professor de sistemas de informação na Universidade de Pace, em Nova Iorque, diz que a regra do e-mail só vai prejudicar a produtividade.

A inspiração não se limita ao horário laboral, explica Gabberty. “Depende do pensamento criativo espontâneo” que pode incluir capturar aqueles “fugazes momentos de genialidade” em um e-mail enviado depois do jantar ou durante a noite.

relogios

Os gestores podem pensar que terão impacto de curto prazo na produtividade com a discussão sobre o correio eletrônico durante o fim-de-semana, mas, “a longo prazo, os custos acabam por afetar todos”, diz William Becker, professor associado de Gestão da Virginia Tech.

Becker foi um dos três analistas que acompanhou de perto de 300 trabalhadores, para um estudo cujos resultados foram publicados no Verão passado. “Descobrimos que as pessoas não serão capazes de relaxar se gastarem o tempo livre a trabalhar, sublinha Becker.

Os empregados ficam exaustos e desinteressados do trabalho. Podem ter problemas familiares e  ser infeliz no trabalho. Mas, a “desconexão” é difícil, em especial para pessoas que trabalham em TI.

Sobre a lei, “pessoalmente, penso que é uma política fantástica que devolve a vida às pessoas”, assinala Alan MacDougall, diretor de tecnologia de educação na Universidade de New Haven. No entanto, não consegue imaginar-se cumprindo o que determina.

“Passei 12 horas sem consultar o meu correio eletrônico uma vez, durante as férias de Inverno e claro, a quantidade de mensagens acumuladas foram um desincentivo para voltar a repetir a proeza”, disse MacDougall. Por outro lado, também não consegue conceber a mudança da cultura norte-americana de “always on”, especialmente “quando a pessoa que comanda o país não consegue desligar-se”, disse MacDougall, referindo-se ao presidente eleito Donald Trump que publica no Twitter a toda a hora.

Maura Thomas, consultora de produtividade que escreveu sobre o impacto negativo das comunicações constantes para a Harvard Business Review, acredita que muitos gestores não consideram o impacto da comunicação constante na produtividade dos funcionários.

Quanto aos trabalhadores que verificam o correio eletrônico durante a noite e aos fins-de-semana, Thomas diz, “muitos resignaram-se a aceitar que aquele é um requisito do seu emprego”.



Reportagens mais lidas

Acesse a comunidade da CIO

LinkedIn
A partir da comunidade no LinkedIn, a CIO promove a troca de informações entre os líderes de TI. Acesse aqui