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Transformação da TI não é opção, é necessidade

Nas conversas com muitos CIOs fiquei com a impressão que muitos consideram que seus setores são relativamente imunes à transformação digital. Talvez alguns sejam realmente menos afetados que outros, mas todos serão afetados, em maior ou menor grau

Cezar Taurion *

Publicada em 27 de abril de 2015 às 07h47

O tema transformação digital é um dos principais temas que aparecem nos debates com CIOs. Em recente evento em que participei, com mais de 150 CIOs, o tema apareceu com destaque e me permitiu fazer algumas observações. Já existem alguns bons exemplos de transformação digital em andamento, mas a grande maioria das empresas ainda está muito tímida em relação a esta mudança.

Porque isso? Um aspecto que observei é a falta de uma concepção do que seja realmente a transformação digital. Outro é que muitos executivos mostram-se receosos de se envolverem em algo que esteja fora de sua zona de conforto e portanto, de controle. Mas o risco de não fazer nada ou ser lento demais é o maior de todos.

Porque a transformação digital não é opção, mas um fato que afetará todas as organizações? Lembram-se da era da explosão das empresas dot-com quando o refrão era “a Internet mudará tudo”? Pois é, houve a furo da bolha, muitas empresas faliram, mas a verdade inquestionável é que a Internet realmente mudou tudo. Apenas o timing do mote é que não funcionou...E vai mudar muito mais ainda, com a evolução exponencial da tecnologia.

O problema é que pensamos linearmente e não consideramos com a atenção devido ao ritmo exponencial desta evolução. Se dermos 30 passos, linearmente, chegaremos ao outro canto da sala, mas se forem 30 passos exponenciais, iremos parar na África. Essa analogia nos permite entender melhor as implicações do crescimento exponencial, e não linear, da tecnologia. Com esta percepção podemos visualizar melhor seus impactos nas empresas, na sociedade e na economia.

A interação das pessoas com a tecnologia é muito diferente do que era há meros dez anos. As pessoas hoje já foram alteradas em sua maneira de criar relacionamentos, comunicar-se e fazer negócios. Adotam tecnologias muito antes das empresas e com isso criam um cenário para que novos modelos de negócio surjam e criem rupturas em setores considerados estáveis. Estes novos negócios pegaram de surpresa as empresas dominantes. Porque o setor de telecomunicações não criou o Skype ou Whatsapp? O hoteleiro, o AirBnB? A indústria de táxis, o Uber? As livrarias, a Amazon? A TV a cabo, o Netflix? Os jornais desdenharam dos blogs e surgiu o Huffington Post. Hoje todos os jornais exigem que seus jornalistas tenham blogs, tuítem e estejam no Facebook.

A razão é simples. Uma empresa ou setor estabelecido, com seus produtos e serviços estáveis (“cash cow”), construídos e consolidados por décadas, busca incansavelmente, pela necessidade de manter seus acionistas felizes com seus resultados, protegerem ao máximo o status quo. Investir em um negócio disruptivo é afetar o seu próprio negócio.

Infelizmente, a disrupção potencial provocada pelo ritmo exponencial da evolução tecnológica exige que olhemos para além dos resultados do trimestre e coloquemos em questionamento à existência futura do negócio atual, como ele é hoje. A velocidade é outra.

Recentemente a Cisco anunciou que está acelerando seu processo de inovação, adotando os conceitos e modelos de funcionamento de startups, reduzindo o tempo de lançamento de produtos de seis a oito meses para duas semanas. Porquê? Simplesmente por que grandes corporações, com estruturas pesadas, são mais lentas em lançar inovações o que abre caminho para novos competidores ganharem espaço. A mudança é essencial para sua sobrevivência.

Também surge competição vindo de empresas de outros setores. Há pouco o Google lançou um serviço de telefonia móvel, nos EUA, que bate de frente com as práticas lucrativas das empresas dominantes do setor como a Verizon e a AT&T. O lançamento, denominado Project Fi, ainda é experimental e de nicho, mas poderá afetar, em muito, a indústria de telefonia.

Qual o papel do CIO neste cenário? Se ele quiser aumentar ou pelo menos manter sua relevância na empresa, deverá liderar o processo de transformação digital. Deve propor proativamente dinâmicas com os executivos das suas empresas para debater o futuro além do final do ano e desenharem, em conjunto, a estratégia digital da corporação. Deve buscar olhar para empresas de outros setores, olhar as empresas da Internet, bem como estudar novos negócios criados por startups. Mesmo que não sejam de seu setor de indústria. Criar uma plataforma para suportar um ecossistema ágil e flexível, que o ajude a implementar rapidamente novas soluções, olhando para além dos fornecedores tradicionais de tecnologia, passa a ser um fator decisivo.

Impossível continuar a tentar fazer planos de longo prazo. Há dez anos não existia iPhone, iPad, Facebook, Twitter...Fazer PDTI para os próximos cinco anos é jogar tempo e dinheiro fora. No máximo servem de direcionamento, mas estes planos devem ser revistos, pelo menos trimestralmente para se manterem atualizados com o ritmo exponencial.

Matar projetos vai ser algo comum daqui para a frente. Se demorar mais que o necessário, serão substituídos. Coisa impensável em TI até agora. O modelo deve ser de prototipação e colaboração, com os conceitos ágeis e DevOps adotados por empresas da Internet fazendo parte integrante de seus processos.

A área de TI deve atuar de forma flexível, multimodal, com processos mais estruturados para sistemas legados que demandam mudanças mais lentas e outros mais ágeis, como os apps para os contatos diretos com os clientes. E logo, também para muitos dos processos “core” da empresa.

O segredo é criar a auto ruptura, ou seja, antes que outro provoque uma disrupção na sua empresa, você mesmo a provoca. Uma disrupção gera desafios e riscos, mas abre novas oportunidades. O CIO deve atuar proativamente para ser um “digital attacker” em sua empresa.

Nas conversas com muitos CIOs fiquei com a impressão que muitos consideram que seus setores são relativamente imunes à transformação digital. Talvez alguns sejam realmente menos afetados que outros, mas todos serão afetados, em maior ou menor grau. E alguns simplesmente desaparecerão.

O CIO está em uma posição privilegiada: consegue ter uma visão de toda a empresa, pois hoje praticamente todos os processos estão de alguma forma suportados por sistemas. A questão é: ele está olhando para fora da área de TI? Está olhando para fora do seu setor de indústria? Quais são seus "blind spots”, aqueles pontos que não consegue ver, pois está envolvido no dia a dia de manter os sistemas funcionando?

A disrupção digital provoca questionamentos sobre a própria natureza do negócio. Por exemplo: o que é um serviço de táxi? O Uber não é serviço de táxi, mas compete diretamente com os táxis. Quem vai atender melhor as demandas do mercado? Os atuais taxistas ou negócios como o Uber? O mesmo se aplica ao conceito de hotel...o que é um hotel? O AirBnB não tem a estrutura de prédios, funcionários e administração de uma rede tradicional como a Marriott, mas vale muito mais. É, na verdade, uma empresa de software.

Olhando sua empresa, qual é a sua indústria mesmo? Este é um ponto chave: pense na sua indústria e veja, de um olhar de fora, o que poderá acontecer com ela com a exponencialidade tecnológica virando os conceitos tradicionais de cabeça para baixo. Por exemplo, a “shared economy” pode afetar seu negócio? Já pensou sobre esta possibilidade?

Um exercício simples: shared economy, wearable devices, Internet of Things, Big Data, Cloud Computing, mobilidade, veículos autônomos, computação cognitiva, impressoras 3D, etc., poderão afetar sua empresa? Se a resposta for “não”, talvez seja melhor pensar de novo...Já existem muitos casos de referência. Um exemplo é a estratégia dos Correios dos EUA (US Postal Service) que planeja usar seus centros de processamento de correspondências como hubs de impressão 3D. O relatório com sua estratégia pode ser visto em https://www.uspsoig.gov/sites/default/files/document-library-files/2014/rarc-wp-14-011_if_it_prints_it_ships_3d_printing_and_the_postal_service.pdf.

Outro exemplo é a varejista Tesco, que criou uma unidade de negócios, Dunnhumby, que vende análises e insights sobre comportamento dos consumidores para o mercado. Tornando anônimos os dados, para não identificar clientes, vendem informações sobre hábitos de compra em determinada zona postal, identificando, inclusive o potencial de compras, por região, para determinados tipos de produtos. E mesmo um negócio tradicional como as cadernetas Moleskine já criou uma estratégia digital (http://www.nytimes.com/2015/04/19/business/moleskine-notebooks-adapt-to-the-digital-world.html?_r=0).

À medida que as pessoas, carros, prédios, ruas e objetos se tornarem mais e mais conectados, as empresas vão descobrir que já estarão em um negócio que não foram criadas para estar. E então?

Aliás, as próprias corporações são elas mesmas uma tecnologia criada há cerca de 200 anos, baseadas nas ferramentas existentes no século 18, voltadas para maximizar escala e diminuir os custos de transação. Agora que as empresas e suas estruturas estão sofrendo disrupções pela adoção de tecnologias que permitem automatizar ou substituir muitas (ou quase todas) de suas funções, as próprias tarefas executivas começam a correr risco.

Se esta iniciativa do IFTF (Institute For The Future) der certo, talvez nem sejam mais necessários executivos C-level. Creio que vale a pena ler o artigo “Here´s How Managers Can Be Replaced By Sofware”, publicada na HBR.

É, até nós estamos em risco de disrupção...

 

(*) Cezar Taurion é é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data



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