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Carreira

“O importante é terminar no auge e não em queda livre”, diz CIO da CSN

Ao completar 40 anos dedicados à TI, mais de 20 à frente da área em grandes grupos brasileiros, Fabio Faria pretende continuar atuando no conselho das empresas

Déborah Oliveira

Publicada em 30 de janeiro de 2018 às 06h41

Na quinta-feira, dia 1º de fevereiro, Fabio Faria entregará seu crachá ao RH da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), onde assumiu a área de TI em 2013. O executivo, que se entregou de corpo e alma ao setor, por 40 anos, mais de 20 deles como líder de gigantes como BASF, Votorantim e CSN, vai pendurar as chuteiras da carreira executiva corporativa. Mas diferentemente dos jogadores de futebol, ele não deixará completamente os gramados. Seu destino? “Participar de conselhos de empresas, como já faço na FGV, e atuar como advisor nas companhias pelas quais passei. Vou atuar no mercadão de forma pontual”, contou com exclusividade à CIO Brasil.

Na bagagem, Faria leva gratidão, respeito aos antigos líderes e ao seu time e muito aprendizado. Seu legado, revela, não é tecnológico. Está focado no desenvolvimento de pessoas e de equipes de alta performance. “Esse, sem dúvida, é aspecto mais importante de uma gestão, porque há a certeza de que não se criou dependência da sua pessoa”, diz, altruísta.

De fato, o currículo de Faria impressiona. Daria para escrever um livro sobre gestão. E serve de inspiração para colegas atuais e futuros líderes de TI. por sua habilidade em transformar e prover reviravoltas na TI, por onde quer que passasse. 

Desde que chegou à CSN, por exemplo, Fábio Faria iniciou uma verdadeira mudança na área. “Minha missão foi cumprida. Até excedi minhas expectativas e as da presidência. O interessante, em qualquer carreira, é terminar no auge e não em queda livre. É assim que quero me despedir”, conta.

Na entrevista que segue, Fabio relembra o início da carreira, os grandes projetos que liderou, os aprendizados e compartilha sua visão para o futuro da TI, que migra para ser um broker, dando poder às áreas de negócios para tomar suas decisões. Acompanhe.

CIO Brasil – Como e quando você se interessou por TI?
Fabio Faria – Decidi fazer um curso técnico em edificações na Escola Técnica de São Paulo e ao final dele, havia um estágio obrigatório. Na prática, não era o que eu imaginava. Então, comecei a buscar algo que pudesse ser mais atrativo. Na época, em 1977, o mercado começava a falar de computadores. Conversei com meu pai e ele me incentivou a ingressar na área. Procurei algo diferente, porque minha linha natural seria fazer um curso de engenharia civil. Mas identifiquei na Universidade Fasp um curso de administração com ênfase em análise de sistemas. Achei interessante. Acabei entrando nessa universidade e de imediato uma oportunidade apareceu nesse segmento. 

CIO – Como teve início sua carreira?
Faria - Comecei como operador de mainframe na Vasp. Saí de lá como programador. Depois fui para a Basf para ser programador analista. Logo quando entrei, fazia faculdade de noite e entrava meia-noite na Vasp. Saía todos os dias às 8h da manhã. Deixei a companhia como Gerente de Processamento de Dados depois de 15 anos na empresa. Foi onde construí a base da minha carreira. Depois, aceitei o desafio de atuar na EDS [comprada pela HP em 2008], onde permaneci por um ano e meio. De lá, retornei para a Basf como diretor de informática América do Sul. 

Foi aí que começou, em 1994, uma trajetória de grandes projetos. Mais recentemente passei a atuar na Votorantim Celulose e Papel, onde permanece por um ano e oito meses, quando fui convidado para atuar como diretor corporativo de TI da Votorantim Industrial, que tinha oito negócios corporativo e global. Nessa posição, fiquei até maio de 2013, quando ingressei na CSN como diretor corporativo de TI. 

CIO – Falando de projetos, qual foi o mais desafiador da sua carreira? 
Faria - Um caso emblemático foi na Votorantim, quando liderei a implementação de um ERP corporativo. O projeto englobou 15 países, com um modelo de governança único. Foi um período de grandes definições de padrões, melhores práticas, COBIT, PMI, consolidação do orçamento e busca de soluções que fossem comuns em todos os países de atuação da empresa. Um trabalho bastante complexo, porque era preciso lidar com diferentes culturas e extrair o melhor dos processos em prol de vantagens competitivas para todos os negócios da companhia. 

Sem dúvidas, representou grande impulsionador para a empresa, permitindo uma gestão mais leve, simples, assertiva e com informações em tempo real. A novidade gerou benefícios tanto para aquisições, quanto para vendas de companhias do grupo. Foi a garantia de estabelecimento de um padrão de gestão robusto para a companhia.

Todos os projetos têm a sua importância, mas esse foi marcante porque o liderei do começo ao fim.

CIO - Qual mudança tecnológica mais impactou você pessoalmente e profissionalmente ao longo da sua trajetória?
Faria – Certamente, a mudança de mainframe para os microcomputadores. Impactou o mundo e a mim também. Foi uma disrupção. Enquanto existiam os mainframes, a TI sempre dava a primeira e a última palavra. Quando os PCs chegaram nas empresas e na casa das pessoas, a TI teve de abrir sua cozinha, porque não era dona do acesso a informações privilegiadas.

Outra mais atual é a transformação digital. Ela me fez pensar que tudo que aprendemos não vale mais. Com ela, é preciso conviver convive com o que já existe, mas ao mesmo tempo prestar atenção para o que está chegando.

CIO - Onde você imagina que a transformação digital vai nos levar?
Faria – Ela deve ter consequências complexas para o mercado. Faço parte do conselho da FGV e estamos estudando agora Internet das Coisas (IoT). Nessa transformação, a tecnologia é considerada, mas o que vem antes de tudo são os impactos sociais, ambientais e econômicos. Vai gerar impactos positivos e negativos. Negativos como a substituição praticamente total do ser humano em determinadas atividades. Isso tem de ser compensado de outra forma. Haverá adaptação. Ainda não temos uma dimensão holística de como será tudo isso. Temos uma expectativa apenas.

CIO - Qual futuro você enxerga para a TI?
Faria - TI vai se disseminar nas empresas. TI será mais administrador do ambiente, mas com comando e força grande de atuação vinda dos departamento e diretoria das empresas. TI não sei se chamará TI e o poder de escolha, padrões, modos de operações ficar nas mãos mais das áreas de negócios. 

CIO – Quais foram as conquistas mais relevantes da sua gestão na CSN?
Faria – Deixo o cargo com conquistas importantes. A pesquisa de satisfação interna da TI, por exemplo, no final de 2017 foi de 91%. É um índice alto e isso retrata um trabalho que não é de agora, foram cinco anos. Conseguimos equacionar muitas coisas, trabalhar na atualização da infraestrutura da empresa, estabelecer governança robusta. Além disso, hoje, a equipe trabalha de forma sincronizada. 

CIO - Qual é o seu maior aprendizado como líder de TI por mais de duas décadas?
Faria – Assumi em 1988 minha primeira posição de chefia. Na época como chefe de centro de informações. Lembro bem, pois foi quando começaram a introduzir PCs nas empresas. Ao longo da minha carreira, aprendi que, independentemente de posição, é preciso ser humildade, simples e respeitar todas as pessoas que estão ao seu redor. Entendi que o conjunto só funciona com as pessoas engajadas. É crucial escutar, principalmente, as pessoas abaixo da sua estrutura, porque elas têm muito a contribuir. Isso cria uma rede de relacionamento e ambiente favorável à inovação. É preciso, ainda, ser humildade para aprender com as pessoas. Me considero uma pessoa humilde, simples e busco atender a todos da melhor forma possível. Sempre penso que um minuto da sua atenção significa algo importante para a equipe. Nunca usei a minha posição para ganhar alguma vantagem. Da mesma forma agi com os fornecedores de tecnologia. Sempre agi com postura mais dura e rígida, mas sempre justo.

FabioFaria

CIO - Se pudesse voltar no tempo e fazer algum ajuste nessa jornada, qual seria?
Faria - Não me arrependo de nada. Sempre me planejei muito e estabeleci diversas metas. Mas as coisas vão acontecendo e você se depara com situações inusitadas. Nunca fui acomodado. Sempre busquei os caminhos mais difíceis do que aquelas pessoas que trabalham ao meu redor, porque eu sabia que tinha menos concorrentes, mas eu me preparava. Nunca deixei de estudar, me atualizar. Fiz dois MBAs em épocas extremamente desafiadoras em para carga de trabalho e responsabilidade. Os erros que comentemos sem intenção, são erros de aprendizado. O tempo traz bagagem para entender que talvez na próxima oportunidade é preciso fazer diferente.  

CIO - Qual legado você quer deixar para a sua equipe e para as empresas pelas quais passou?
Faria – Meu maior legado não é o tecnológico. Está focado no desenvolvimento de pessoas e de equipes de alta performance. Esse, sem dúvida, é aspecto mais importante de uma gestão, porque há a certeza de que não se criou dependência da sua pessoa. Por onde passei, me preocupei em deixar equipes preparadas para assumir em qualquer momento a operação de TI. Esse é um legado legítimo e transparente em relação à construção do modelo de TI.

CIO - Existe algum ex-líder que você se espelhou?
Faria - Agradeço profundamente a todos os chefes que tive, especialmente da época de Basf. Eu sempre trabalhei muito diretamente com os presidentes das empresas que passei e também os agradeço muito. Também tenho profunda admiração pelas minhas equipes, com quem aprendi muito. Seria injusto nomear alguém. 

CIO – Foram anos de muitas conquistas na CSN. Por que deixar o mercado corporativo agora?
Faria - Na verdade, eu já vinha planejando. Tenho procurado participar de alguns conselhos de empresas, como o da FGV, onde estou há mais de um ano. Quero partir agora para um lado mais tático estratégico e a também idade chegou (risos). Cheguei em um momento que posso contribuir de forma mais democrática, não só em uma empresa. Minha missão foi cumprida. Cumpri e até excedi as minhas expectativas e da presidência. O interessante, em qualquer carreira, é terminar no auge e não em queda livre. É assim que quero me despedir.

Quero agora focar na qualidade de vida, me dedicar mais à minha esposa, meus filhos e netos. Quando olho para trás e vejo minha prateleira repleta de prêmio, que fundo são das minhas equipes também. Nos últimos dias, especialmente, tenho recebido muitos e-mails e manifestações de carinho. Saio muito bem e com respeito grande.

CIO - O que você fará agora? Atuará em conselhos de empresas ou startups?
Faria - Vou atuar, mas de forma pontual, só com empresas que trabalhei. Haverá um executivo interino em meu lugar por enquanto na CSN. Tenho a intenção de participar de outros conselhos, além da FGV. Quero avaliar com carinho para entender se tenho condições de contribuir. Pretendo trabalhar no papel de advisor. Não é conduzir projeto, mas ser advisor, mediador em negociações, em assuntos mais conflitantes, que não têm entendimento entre clientes e fornecedor. 

CIO – Já tem planos para os próximos dias?
Faria - Nos próximos dias, estou como diz a música do Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”. É um período de transição.

CIO – Neste momento especial, gostaria de agradecer a alguém?
Faria – Meus colegas, os boards das empresas pelas quais passei, os usuários... A mídia, como vocês, que fazem um trabalho fundamental de valorização do CIO. Se não fosse tudo isso, o trabalho desenvolvido não seria disseminado e não seria conhecido. Nesses últimos dias, passou um filme na minha cabeça, das pessoas que conheci, dos lugares que trabalhei. É um começo de ciclo. É muito bom e compensador. Só tenho a agradecer. 



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