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Chief Digital Officer: Uma derivação pontual do velho CIO?

Vivemos um momento de ruptura multidimensional onde o nascimento do CDO é um reflexo da necessidade de desmembrar o escopo e colocar mais foco, eficiência e velocidade a algumas atribuições que já faziam parte do escopo de um CIO

Marcos Semola *

Publicada em 30 de junho de 2017 às 10h29

O termo Economia Digital não é novo. Foi cunhado em 1995 por Don Tapscott em seu best seller "The Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence". Acontece que observando a evolução tecnológica e seu impacto econômico-social no tempo, podemos ver, quase que nitidamente, momentos claros de ruptura. Momentos em que a tecnologia aplicada influenciou tanto nos modelos de negócio e na interação social que poderiam ter merecido nomes especiais e, naturalmente, rótulos novos para os profissionais da época que estavam à frente de tais transformações.

Como em todo movimento cíclico, estamos novamente passando por uma fase similar de ruptura. Mais um momento da história em que um grande volume de tecnologias inovadoras se coloca acessível e com o potencial de oferecer tanto diferencial competitivo para os negócios já estabelecidos, quanto poder de surgimento e ataque para os novos entrantes. Momento em que a balança econômico-social se desequilibra e em que todos os agentes são forçados a sair de suas posições e se mexer para reencontrar o equilíbrio.

“Tudo isso ao mesmo tempo está fazendo despertar
uma nova consciência social e empresarial.”

Surpreendentemente esse novo momento de ruptura parece ser ainda mais especial. Ele parece estar vindo conjugado com outros vetores de transformação que transcendem os modelos de negócio ou a simples tecnologia aplicada. Há uma nítida mudança de mindset  da população, generalizada. Uma percepção diferente de propósito de vida. Uma valorização mais ajustada do tempo disponível que cada um de nós tem no planeta, e o quão diferente deve ser a relação com os recursos naturais, com a família, com os amigos e com a atividade profissional.

Acredito que esse momento de repensar o modelo de vida se mistura com as inúmeras novas possibilidades que a própria tecnologia trouxe ao longo dos anos e que nós não nos demos conta apropriadamente. De uma hora para outra vimos ser realmente possível entregar os mesmos serviços profissionais para os quais fomos contratados, sem necessariamente estarmos fisicamente próximos dos nossos pares e chefes.  Vimos a possibilidade de negociar contratos, realizar demonstrações e estabelecer parcerias sem os velhos, lentos e burocráticos processos de outrora. Tudo isso ao mesmo tempo, está fazendo despertar uma nova consciência social e empresarial que representa o estopim para a grande transformação digital à qual todos estão se referindo.

Bem no meio desse processo de transição está o bom e velho CIO – Chief Information Officer. O executivo originalmente pensado para ser o guardião responsável pela estratégia de tecnologia da informação da empresa. O profissional capaz de pensar global e agir local. Capaz de enxergar longe e traçar o caminho que conduzirá a empresa de um modelo de negócio requentado e possivelmente ultrapassado, para um modelo de negócio novo, moderno e mais competitivo. Capaz de compreender toda a complexidade da tecnologia sem tirar de vista o propósito do negócio, atuando como um elo de ligação entre os dois mundos e percebendo as nuances e valores gerados pela tecnologia aplicada com inteligência.

CDO

Nada disso que foi dito deveria soar como novidade. Há pelo menos uma dúzia de momentos da história em que o CIO enfrentou os mesmos desafios ao se deparar com novas e promissoras tecnologias. Mas parece que nada se pareceu com o que estamos vivenciando agora. A transformação digital a qual nos referimos, transcende todos os limites que conhecíamos. Sai do coração do negócio, invade sua cadeia produtiva, abala as relações com o governo, altera os comportamentos sociais e abre uma janela de oportunidade para reinventarmos a vida no planeta. De verdade!

“Esse CIO precisa ir para o ‘banco de reservas’
e não há momento melhor do que agora!”

Talvez, por tudo isso, o mercado tenha entendido a necessidade de ‘pivotar’ e dar outro nome – mesmo que tudo pareça mais do mesmo com uma pitada extra de pressão -  e potencialmente corrigir o posicionamento do CIO forjado no contexto passado. O CIO que depois de tantos ciclos, metamorfoses e desvios de função provocados pelo tempo, perdeu sua identidade. O CIO que continua achando que não precisa entender bem das nuances da tecnologia contanto que se cerque de fornecedores competentes. O CIO que vive o dilema de reduzir custos e também inovar. O CIO que teve as asas cortadas gradualmente, e hoje se limita a cuidar da operação. O CIO que mesmo ainda responsável pelo planejamento, não tem cadeira no conselho e não interfere nos planos de negócio. O CIO que não fez upgrade do seu mindset, que não pensa coletivamente e não está aberto a jogar todo o passado no lixo e reescrever o caminho. O CIO que não disputa sua responsabilidade, autoridade e autonomia como um habilitador de novos negócios. 

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Fonte:
Estudo da Accenture

Esse CIO precisa ir para o ‘banco de reservas’, mesmo que existam linhas contrárias, e não há momento melhor do que agora! A todos os demais que se salvarem por mérito, e aos novos profissionais entrantes, chamemos de outro nome. São muitas as possibilidades, além de muitas potenciais sobreposições como as com o Chief Innovation Officer, Chief Data Officer ou o Chief Technology Officer, mas podemos ser diretos e objetivos chamando-os simplesmente de CDO, Chief Digital Officer. Um profissional de tecnologia da informação de mindset atualizado, comumente menos sênior e naturalmente mais acessível, capaz de compreender e respeitar os novos vetores digitais, projetar cenários de tecnologia aplicada, posicionar estrategicamente a empresa e construir a ponte entre TI e o negócio levando-o do analógico para o digital.

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Esse CIO precisa ir para o ‘banco de reservas’, mesmo que existam linhas contrárias,  e não há momento melhor do que agora! A todos os demais que se salvarem por mérito, e aos novos profissionais entrantes, chamemos de outro nome. São muitas as possibilidades, além de muitas potenciais sobreposições como as com o Chief Innovation Officer, Chief Data Officer ou o Chief Technology Officer, mas podemos ser diretos e objetivos chamando-os simplesmente de CDO, Chief Digital Officer. Um profissional de tecnologia da informação de mindset atualizado, comumente menos sênior e naturalmente mais acessível, capaz de compreender e respeitar os novos vetores digitais, projetar cenários de tecnologia aplicada, posicionar estrategicamente a empresa e construir a ponte entre TI e o negócio levando-o do analógico para o digital.

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Obviamente que apenas um novo rótulo não será capaz de fazer milagres e não é apenas sobre ele que estamos falando. Entretanto, só essa mudança já abre uma prerrogativa importante para o mercado, para os profissionais e os contratantes de se permitirem exigir e esperar algo diferente, atualizado e alinhado com o novo contexto. A possibilidade de finalmente deixar de fora da equação todas as arestas que foram surgindo ao redor do velho CIO, e trazer polido o propósito do novo CDO já adequadamente posicionado no organograma e empoderado para conduzir os negócios de uma margem para a outra do rio.

E antes que eu me vá, convém deixar claro que estamos vivendo e reagindo a um momento especial de ruptura multidimensional onde o nascimento do CDO é um reflexo da necessidade de desmembrar o escopo e colocar mais foco, eficiência e velocidade a uma das atribuições que normalmente já faz parte do escopo de um CIO, da forma como conceitualmente foi concebido. Significa dizer que uma vez que esse momento de ruptura passe, e todos os negócios já tenham se reequilibrado e se posicionado digitalmente, o próprio CDO deixe de existir e um novo CIO ressurja das cinzas. Mais forte, mais maduro e novamente com o viés abrangente de definir a estratégia de longo prazo da tecnologia da informação que suporte os objetivos de negócio.

Quem viver, verá.

 

 

(*) Marcos Semola é Executivo de Tecnologia da Informação, Especialista em Governança, Risco e Conformidade, Professor da Fundação Getúlio Vargas, Escritor, Palestrante, VP Membro do Conselho de Administração da ISACA, Vice-Presidente de CyberSecurity do Instituto SmartCity Business, Diretor do Founder Institute Rio, Mentor de Startups e Investidor Anjo


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