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Ainda teremos CIOs no futuro?

Se a transformação digital é a fundação, e se a área de TI pouco contribui, passa-se por cima dela. Para continuar relevante, o CIO deve entender que a transformação digital vai atingir de forma disruptiva todos os setores, em maior ou menor grau

Cezar Taurion *

Publicada em 31 de março de 2016 às 16h37

Nos mais de 30 anos de minha vida profissional, venho acompanhando de perto a trajetória do setor de TI e o papel de seus gestores. Os títulos variaram ao longo do tempo. Já convivi com muitos gerentes de CPD quando o mainframe era a única computação disponível nas empresas. No início da década de 80, o termo CIO surgiu em um livro chamado “Information Resource Management: Opportunities and Strategies for the 1980s”, publicado em 1981. Aos poucos o termo foi se espalhando e hoje é basicamente o título de quem assume a gestão de TI nas organizações.

Durante algumas décadas, dos anos 90 até poucos anos atrás, o CIO se manteve firme, controlando a adoção de tecnologias nas empresas. A ambição máxima de quem entrava em computação era chegar a esta posição. Nos últimos anos, principalmente com a rápida disseminação de tecnologias móveis (smartphones) e conceitos transformadores, como uso mais intenso de Cloud Computing, a velocidade da disseminação das tecnologias nas empresas se acelerou muito.  A inovação tecnológica evolui exponencialmente e os métodos, processos e papéis dos CIOs, como foram estruturados ao longo das últimas décadas se tornou obsoleto. A maioria dos CIOs continuou concentrando seu foco na gestão dos bastidores, fazendo o “trabalho pesado”, como garantir (ou tentar) que hackers não invadam seus sistemas, mantendo o parque computacional operando sem interrupções (o que em Cloud torna-se mais complicado com os processos atuais, pois o CIO não tem controle sobre os equipamentos e nem sobre o data center onde estes equipamentos operam), mantendo o ERP atualizado, negociando contratos com fornecedores de tecnologia e assim por diante.

Por outro lado, as inovações disruptivas surgiram e continuam surgindo diariamente. O fato é que a grande maioria dos CIOs não tem conseguido acompanhar este ritmo, e como resultado hoje circulam comentários maldosos como “colocar CIO e inovação na mesma frase é uma contradição”. Não necessariamente que a culpa seja do CIO (embora eu conheça muitos que se mantém na sua zona de conforto tecnológica, sem maiores envolvimentos com o negócio), mas principalmente devido ao papel que são obrigados a cumprir nas suas empresas. Eles têm que manter os sistemas legados, que são o cerne dos processos atuais, razão de direcionarem 80% ou mais do seu budget para manter “as luzes acesas” ou seja, o dia a dia operando a TI sem down-times.

Em consequência, para falar de inovação vai-se ao CMO (Chief Marketing Officer) ou ao CEO. Devido à importância da digitalização da economia e dos negócios, recorre-se ao CDO (Chief Digital Officer) e pelo tsunami de dados que estão disponíveis para análises cria-se o Chief Data Scientists ou títulos correlatos.  Pelas restrições que os CIOs impuseram ao longo das décadas, assumindo o controle da homologação de quais tecnologias poderiam entrar ou não na empresa, os usuários se incomodam em ver que em casa, eles e seus filhos, usam tecnologias mais avançadas e intuitivas que as que dão obrigadas a usar no escritório. Isto leva a disseminação da “shadow IT” e faz com que os budgets de tecnologia das empresas acabam sendo maiores fora da TI tradicional.

Além disso, a cada dia vemos mais e mais a intimidade com a tecnologia, principalmente da nova geração se espalhando pelas atividades profissionais. Usar sofisticadas apps em nuvem hoje é tão corriqueiro para um profissional de TI quanto para um advogado.

O fato é que o conceito de transformação digital está ganhando substância, e como o primeiro passo para a transformação dos negócios não devemos esperar por ninguém, nem pelo CIO. Ele já está perdendo _ se já que já não perdeu _ o controle da inovação tecnológica nas empresas. Os executivos de negócio estão cada vez mais envolvidos, e conscientes que o futuro e a vantagem competitiva das suas empresas estão no mundo digital. Já entendem que ficar para trás nesta corrida, é perder competitividade e, pior, colocar em risco a sua própria sobrevivência empresarial.  Já perceberam que a transformação digital não é um fim em si mesmo, mas apenas o fundamento, os pilares para algo maior, a transformação dos negócios na era pós-digital. Estas sim, serão transformações dramáticas e virarão os negócios atuais de ponta cabeça. Portanto, se a transformação digital é a fundação, e se a área de TI pouco contribui, passa-se por cima dela.

Este alerta foi dado no Fórum Mundial de Davos, em janeiro de 2016, quando seu chairman Klaus Schwab disse que uma mudança estrutural está em andamento na economia mundial, no que seria o início da Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundaria elementos da Terceira Revolução, a da computação e faria uma “fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”.

Esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá impactos nos modelos e formas de fazer de negócios e no mercado de trabalho. Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores.

As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo. Administrar essa mudança de paradigma é o processo de transição essencial para assegurar a estabilidade econômica e social e consequentemente a sobrevivência das empresas. O grande desafio, segundo Schwab, é que as autoridades políticas e executivos frequentemente são prisioneiros do pensamento tradicional ou estão tão absorvidos por questões imediatas para pensar estrategicamente sobre as formas de disrupção e inovação que estão modelando o futuro.

A quarta revolução apoia-se na terceira, conhecida como revolução digital, e que permitiu a proliferação de computadores e smartphones. Esta nova onda de transformações difere da anteriores por três razões:

a) As inovações nunca foram difundidas tão rapidamente como agora.

b) A queda dos custos marginais de produção e o surgimento de plataformas que agregam e concentram atividades em vários setores elevam a economia de escala.

c) Essa revolução afetará todos os países e terá impactos sistêmico em várias áreas.

O consumidor, por exemplo, fica, a cada dia mais engajado e transforma-se em “ consumi-ator”, como novas maneiras de usar a tecnologia para mudar comportamentos e sistemas de produção. O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela robotização. As mudanças não são perspectivas, mas reais. Estão aí. As empresas precisam antecipar-se e preparar-se para elas. É questão de sobrevivência e não opção.

Diante deste cenário, como ficará o CIO? A função de manter “as luzes acesas” continua, mas as luzes serão acesas em data centers espalhados por provedores de serviços de nuvem. Os sistemas legados também continuam, mas novos sistemas os substituem pouco a pouco. Os novos, apps móveis, contextuais, hoje estão sendo desenvolvidos fora da TI atual.

O que fazer então para não perder relevância profissional? Claro, muitos estão começando a agir, mas observo que a grande maioria dos CIOs, embora já investindo em tecnologias como mídias sociais, mobilidade, Analytics e Cloud Computing, ainda fazem ações isoladas e desconectadas das estratégias de transformação dos negócios. Alguns ainda falam em “estratégia de cloud”, “estratégia de mobilidade” e “estratégia de analytics” como se fossem ações isoladas e independentes. Não são. Cloud será a nova infra, mobilidade será é o meio de acesso a informação, mídias sociais refletem os hábitos da sociedade (seus clientes e funcionários) e Analytics é a killer application. São parte integrante e indissolúveis da transformação digital e tentar desenhar estratégias isoladas para cada um é o primeiro sintoma do insucesso à frente.

Para continuar relevante precisam assumir de forma estratégica e proativa a liderança da transformação dos negócios, sendo o interlocutor de tecnologia junto ao CEO e aos demais C-levels. Não podem continuar exercendo apenas uma função operacional. Tem que sair do contexto atual, exemplificado com primor por um CIO americano que disse “ My former boss used to say: “there are only two types of projects: business successes and IT failures”...

Isso implica em mudanças significativas, como fazer o insourcing do desenvolvimento de apps (um relatório do Forrester insiste neste aspecto, e com razão afirmando “Businesses view mobile development capacity as a strategic asset and want creative control over customer-facing apps”). Passa por criar condições de analítica avançada self-service, para poder se espalhar pela organização, e pela adoção da estratégia de “cloud first” ou seja, para não ficar em nuvem, justifique claramente o por que. Tudo isso implica em contratar e manter expertise adequada para novas expectativas tecnológicas, que vão muito além de desenvolvedores Java e gerentes de rede, e assim por diante. Muda o perfil da TI, de seus profissionais e do CIO...

O CIO ainda pode ocupar o espaço que está sendo perdido.  Ou assume a liderança de execução do processo de transformação digital ou perderá de vez a relevância. Isso significa sair da casca e da zona de conforto. Deve começar a olhar as empresas nativas digitais e o que outras indústrias estão fazendo. As best practices do seu setor podem não ser as que oferecem as melhores experiências digitais para os seus clientes. O CIO precisa ampliar seu horizonte.

A transformação abrupta muda o cenário para o qual o CIO foi preparado: estável e planos estratégicos de TI para cinco anos. Hoje o competidor não está no radar e você nem sabe quem ele é. Ele não usou as mesmas regras que você e nem era conhecido ontem.

Qual o cenário competitivo a que o CIO deve se acostumar? De setores bem definidos, com competidores estabelecidos e conhecidos, para setores convergindo e assumindo atividades de outros. Startups desconhecidas crescendo de forma rápida e tomando espaço tão arduamente conseguido por empresas estabelecidas por décadas. Usuários cada vez mais empoderados pela tecnologia e informações, sabendo mais que você sobre você mesmo e novos modelos econômicos como a “shared economy” que mudam por completo o seu modelo de negócios. 

Para continuar relevante, o CIO deve entender que a transformação digital vai atingir de forma disruptiva todos os setores, em maior ou menor grau. E que é a base da fundação de uma transformação muito mais ampla, que é a transformação dos negócios na era digital. Portanto é apenas o ponto de partida, a base, que vai permitir construir novos e inovadores negócios. A questão é: estes negócios serão construídos. Você quer participar do jogo ou ser mero espectador?

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data



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